terça-feira, 30 de outubro de 2012

Comentário de Gênesis (cap 4 a 23)




A História de Caim (Gênesis 4:1-16)

“1 Conheceu Adão a Eva, sua mulher; ela concebeu e, tendo dado à luz a Caim, disse: Alcancei do Senhor um varão.
2 Tornou a dar à luz a um filho -a seu irmão Abel. Abel foi pastor de ovelhas, e Caim foi lavrador da terra.
3 Ao cabo de dias trouxe Caim do fruto da terra uma oferta ao Senhor.
4 Abel também trouxe dos primogênitos das suas ovelhas, e da sua gordura. Ora, atentou o Senhor para Abel e para a sua oferta,
5 mas para Caim e para a sua oferta não atentou. Pelo que irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o semblante.
6 Então o Senhor perguntou a Caim: Por que te iraste? e por que está descaído o teu semblante?
7 Porventura se procederes bem, não se há de levantar o teu semblante? e se não procederes bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo; mas sobre ele tu deves dominar.
8 Falou Caim com o seu irmão Abel. E, estando eles no campo, Caim se levantou contra o seu irmão Abel, e o matou.
9 Perguntou, pois, o Senhor a Caim: Onde está Abel, teu irmão? Respondeu ele: Não sei; sou eu o guarda do meu irmão?
10 E disse Deus: Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão está clamando a mim desde a terra.
11 Agora maldito és tu desde a terra, que abriu a sua boca para da tua mão receber o sangue de teu irmão.
12 Quando lavrares a terra, não te dará mais a sua força; fugitivo e vagabundo serás na terra.
13 Então disse Caim ao Senhor: É maior a minha punição do que a que eu possa suportar.
14 Eis que hoje me lanças da face da terra; também da tua presença ficarei escondido; serei fugitivo e vagabundo na terra; e qualquer que me encontrar matar-me-á.
15 O Senhor, porém, lhe disse: Portanto quem matar a Caim, sete vezes sobre ele cairá a vingança. E pôs o Senhor um sinal em Caim, para que não o ferisse quem quer que o encontrasse.
16 Então saiu Caim da presença do Senhor, e habitou na terra de Node, ao oriente do Éden.”

Adão foi criado diretamente por Deus, e Eva foi criada a partir de uma costela de  Adão. Caim foi a primeira pessoa que nasceu no mundo como fruto da união do homem com a sua mulher. Com o nascimento de Abel foram ambos, os primeiros irmãos no mundo.  
Nós temos na história de Caim o primeiro crime do mundo.
O principal propósito da revelação com a história de Caim é nos apresentar o primeiro homem que permaneceu como amigo da serpente, o diabo, sendo contado na sua descendência, por sua semelhança moral com ele, dando-se assim início ao cumprimento da maldição que Deus proferiu contra Satanás, que ele teria também uma descendência que se oporia e seria inimiga daqueles que seriam contados como descendência daquele que descenderria da mulher no futuro e que esmagaria a cabeça do diabo, a saber, nosso Senhor Jesus Cristo.
A história de Caim é a história de um réprobo, a história de um homem impenitente. É a história daqueles que rejeitam a salvação graciosa de Deus, por meio da qual são tornados seus amigos.
Caim se tornou o modelo, o protótico de todos aqueles que permanecem como inimigos de Deus para sempre, como lemos na epístola de Judas, verso 11: “Ai deles! Porque prosseguiram pelo caminho de Caim...”

E em I João 3.12:
"Caim que era do maligno e assassinou a seu irmão; e porque assassinou? Porque as suas obras eram más, e as de seu irmão, justas.”
Não levou muito tempo, aparentemente, para o caráter de Caim ser revelado, assim como o de Abel.
E esta revelação foi manifestada numa ocasião de adoração.
A Bíblia distingue aqueles que amam o pecado daqueles que o detestam.
Aqueles que são amigos do diabo, daqueles que são seus inimigos.
Aqueles que amam as trevas, daqueles que amam a luz.
Na verdade, de um modo geral, senão total, a humanidade se encontra naturalmente em inimizade contra Deus, e é resgatada desta condição devida ao pecado original, pela graça e misericórdia do Senhor, na conversão.
Assim, apesar da inimizade contra Deus ser transitória naqueles que a Ele se convertem, ela permanece intacta e eterna naqueles que seguem obstinadamente nas mesmas pegadas de Caim.    
É bem provável que o maior motivo da rejeição da oferta de Caim por Deus esteja relacionado ao fato de não ter obedecido à ordem de Deus de que trouxesse um sacrifício de animal ao altar, para o propósito de que ficasse ensinado em figura que a cobertura do pecado seria através do derramamento do sangue de uma vítima inocente, apontando-se assim para o sacrifício vicário (substitutivo) de Jesus.
Tendo trazido frutos da terra no lugar de um animal, Caim estava frustrando o propósito de Deus, e não poderiam, portanto, ser aceitos tanto ele, quanto a sua oferta.
Agora, é importante destacar que assim mesmo ele foi alvo da graça e da longanimidade do  Senhor, pois que Deus arrazoou com ele quanto ao fato de ter ficado irado em razão da rejeição da oferta, dizendo que não era justificável aquele comportamento, uma vez que ele seria também seguramente aceito caso procedesse corretamente.
Está aqui a razão de não serem aniquilados todos aqueles que não servem a Deus pelo modo que Ele tem determinado nas Escrituras. É porque o Senhor é longânimo e lhes dá oportunidade para arrependimento, e isto, na maior parte dos casos, através de longos e longos anos de vida.
Tal qual, Deus colocou uma marca em Caim, depois que matou Abel, para que não fosse assassinado.
Parece um paradoxo, mas não é, pois a ele seria demonstrada toda a longanimidade do Senhor, para que ficasse patenteado tanto aos homens quanto aos anjos, que o próprio Caim seria o único responsável direto pela sua condenação.
Vivendo na impiedade e na obediência enquanto a graça que conduz ao arrependimento estava ao seu alcance, ele demonstraria que os filhos da perdição, como Judas, não se converterão jamais, ainda que lhes seja dado participar da mesma mesa do Senhor, e de desfrutar de todo o Seu amor e cuidado, conforme ficou bem patenteado no caso de Judas em relação a Jesus.   
A referência à gordura das primícias do rebanho oferecido por Abel, indica que Ele trouxe à presença de Deus o que havia de melhor no seu rebanho, pois trouxe o mais gordo que aparentemente era o mais saudável, e não o fraco e doente. Com isto dava testemunho que Deus é digno de receber o melhor.
Isto fala de generosidade, de gratidão, de reconhecimento, e por isso se diz na Bíblia que através da sua oferta, Abel alcançou testemunho de que era justo, porque o próprio Deus deu testemunho da qualidade da sua oferta, que comprovava a genuinidade da sua fé (Hb 11.4).
Fé de que dependia do sangue daquele sacrifício para ser aceito por Deus. E que dependia e necessitava da cobertura do sacrifício (o de Cristo, do qual aquele era figura) para ser livrado do pecado e da morte que é consequente do pecado.
Por isso está escrito que Deus se agradou não somente da oferta de Abel, mas também do próprio Abel, em razão da sua obediência e reconhecimento que dependia dos meios de graça estabelecidos pelo próprio Deus para ser aceito por Ele.
A sua fé, a confiança no que Deus havia determinado para tal aceitação, foi de fato o motivo de ter agido em obediência, fazendo estritamente o que lhe foi ordenado.
 A sua aprovação não foi  resultante tanto da simples apresentação do sacrifício certo e exigido, quanto foi do seu espírito voluntário e de obediência.
Isto é uma grande verdade, pois não raro Deus repreendeu a nação de Israel através dos profetas, apesar de estarem apresentando os sacrifícios exigidos e prescritos na lei, mas não da forma correta, a saber, com espírito voluntário e contrito, no caso de oferta pelo pecado, e com espírito alegre e também voluntário no caso das ofertas pacíficas. Em resumo: para Deus não vale apenas a ação, pois também pesa principalmente a intenção e o espírito com que agimos.    
Por isso Deus não se agradou apenas da oferta de Caim, mas do próprio Caim, que não somente deixou de apresentar o que foi requerido, como também o fez por motivos e com o espírito errado.
João diz que as obras de Caim eram más porque ele era do maligno.
Quando Deus perguntou a Caim no verso 6:
“Por que te iraste e por que está descaido o teu semblante?”
Ele não estava procurando ser informado, porque Ele nunca precisa de qualquer informação, pois tudo sabe e conhece, até o mais recôndito dos nossos pensamentos. Com a pergunta feita Ele queria simplesmente incitar Caim ao diálogo. Ele veio a Caim para que Ele avaliasse as motivações do seu coração, e ponderasse acerca da sua ira contra Deus e seu irmão. Deus lhe revelou que apesar de toda aquela ira injustificada havia esperança de cura para os seus sentimentos. Havia aquela fonte de graça para ser apropriada pela fé, a saber, a cobertura do sangue de Jesus, tipificado naquela oferta que Caim se recusava a apresentar, e que apontava para o único meio que pode reconciliar qualquer pecador com Deus.
Aqui, no exemplo deixado na história de Caim, Deus está revelando que a oportunidade de salvação está aberta para todos os pecadores, e por isso ninguém poderá desculpar-se do fato de não ter se arrependido e crido, porque a Palavra da fé que pregamos não está distante que não se possa alcançar, mas está perto do pecador, junto de sua boca e do seu coração, esperando tão somente que ele atenda ao convite de Deus que o convoca ao arrependimento e à conversão.
É por isso que se ordena da parte de Deus que se pregue o evangelho a toda criatura debaixo do céu. O evangelho ordena a todos e em toda parte que se arrependam e creiam em Cristo para a remissão dos pecados.
Ao afirmar que qualquer que matasse Caim seria vingado sete vezes, Deus quis indicar que faria com que a morte de Caim fosse vingada perfeitamente caso alguém o matasse. Com isto Ele demonstra o quanto é contra o crime de assassinato e que todo o que matar pela espada (violência) pela espada será morto.
Isto e um principio de justiça em Deus, a quem pertence a vingança.
Nem com isso Caim se arrependeu do seu crime de assassinato, e ainda por cima este foi agravado, por ter sido contra um justo que era o seu próprio irmão.
Com isto, Deus não estava instituindo um privilégio para o assassino, como se estivesse abençoando e protegendo Caim, mas para mostrar um princípio pelo qual tinha em vista especialmente preservar a raça humana da destruição pela violência, de forma que pelo temor do juízo e da maldição de Deus, os homens evitassem praticar o mal  contra o seu próximo. Afinal, está claramente revelado por Ele na Sua Palavra o modo como amaldiçoou Caim em razão do seu crime de assassinato.


A Família de Caim (Gênesis 4.16-24)
         
“16 Então saiu Caim da presença do Senhor, e habitou na terra de Node, ao oriente do Éden.
17 Conheceu Caim a sua mulher, a qual concebeu, e deu à luz a Enoque. Caim edificou uma cidade, e lhe deu o nome do filho, Enoque.
18 A Enoque nasceu Irade, e Irade gerou a Meujael, e Meujael gerou a Metusael, e Metusael gerou a Lameque.
19 Lameque tomou para si duas mulheres: o nome duma era Ada, e o nome da outra Zila.
20 E Ada deu à luz a Jabal; este foi o pai dos que habitam em tendas e possuem gado.
21 O nome do seu irmão era Jubal; este foi o pai de todos os que tocam harpa e flauta.
22 A Zila também nasceu um filho, Tubal-Caim, fabricante de todo instrumento cortante de cobre e de ferro; e a irmã de Tubal-Caim foi Naamá.
23 Disse Lameque a suas mulheres: Ada e Zila, ouvi a minha voz; escutai, mulheres de Lameque, as minhas palavras; pois matei um homem por me ferir, e um mancebo por me pisar.
24 Se Caim há de ser vingado sete vezes, com certeza Lameque o será setenta e sete vezes.”

Nós temos aqui um relato adicional sobre Caim, e o que aconteceu depois que ele foi rejeitado por Deus. 
No verso 16 nós lemos que Caim saiu da presença do Senhor, isto é, ele renunciou a Deus voluntariamente e contente em não ter que viver debaixo dos seus preceitos.
Ele rejeitou o temor de Deus e dos seus mandamentos, e nunca mais veio a estar na companhia dos justos, pois o seu prazer estava exatamente no oposto daquilo que diz o Salmo primeiro em relação ao homem que é bem-aventurado.
Caim se empenhou para confrontar aquela parte da maldição pela qual ele foi feito um fugitivo e errante, porque ele escolheu a sua terra (Node) a leste do Éden, em algum lugar distante onde Adão e sua família piedosa residiam, fazendo assim com que a sua descendência estivesse distante do acampamento dos santos e daqueles que temiam a Deus.
Isto é bem verdadeiro que não agrada àqueles que odeiam a Deus, estar na companhia daqueles que O amam, ainda que veja nestes, somente a intenção de lhes fazer o bem.
O temor a Deus e o testemunho de uma vida santa são uma ofensa para o homem perverso, porque ele não quer ter nenhum governo de Deus e não quer fazer qualquer outra vontade senão a sua própria vontade.
Era justamente a leste do Éden que estavam os querubins e a espada flamejante (3.24) e foi exatamente lá que Caim escolheu a sua morada, como que para desafiar e afrontar os terrores de Deus.
Mas a tentativa dele de superar a maldição que lhe foi imposta por Deus foi vã, porque assim como a palavra Node significa exílio, tremor, assim como a inquietude e intranqüilidade ininterruptas do seu espírito.
Repare que aqueles que saem da presença de Deus não podem achar mais descanso em qualquer lugar que seja. Depois que Caim saiu da presença do Senhor, ele nunca descansou. Aqueles que fecharam para si mesmos as portas do céu terão um tremor perpétuo.
No verso 17 nós lemos que Caim construiu uma cidade para sua habitação. Ele estava construindo uma cidade, com uma maldição sobre ele de que seria errante sobre a face da terra.
Se ele tivesse se arrependido e tivesse se humilhado, esta maldição poderia ter se transformado numa bênção, como a da tribo de Levi, de que eles deveriam ser divididos em Jacó e deveriam ser espalhados em Israel; mas o coração impenitente dele caminhando ao contrário do de Deus, e decidindo fixar-se num lugar, contra aquilo que Deus havia determinado para ele, fez com que a possibilidade da bênção fosse definitivamente afastada e consolidada numa maldição.
Para sufocar os clamores de uma consciência culpada, e para desviar os seus pensamentos da consideração da sua miséria, Caim se entregou aos afazeres da construção de uma cidade. O barulho de martelos e de tudo o mais que há numa construção seria buscado para tal propósito. Ainda que inconscientemente esta é a razão de muito ativismo entre aqueles que se afastam da presença de Deus e que não têm paz em suas almas. Eles geralmente prosperam materialmente em razão do modo como procuram se refugiar no trabalho.
A prosperidade material, desta forma, muitas vezes não é uma indicação segura da bênção de Deus sobre a vida. Ao contrário, pode ser exatamente o resultado de se buscar muitas ocupações pela falta de paz no coração. Tal foi o caso da família de Caim. Gênesis dá conta de sete gerações a partir dele. O filho de Caim tinha o mesmo nome, mas não o mesmo caráter daquele homem santo que andou com Deus e foi arrebatado, a saber, Enoque. (v.22).  
Enoque gerou a Irade, que gerou Meujael, que gerou a Metusael, que gerou a Lameque. Este Lameque tomou para si duas mulheres: o nome duma era Ada, e o nome da outra Zila. De Ada nasceu  Jabal; que foi o pai dos que habitam em tendas e possuem gado. Ada gerou também a Jubal; que foi o pai de todos os que tocam harpa e flauta. E da segunda mulher de Lameque, Zila nasceu Tubal-Caim, fabricante de todo instrumento cortante de cobre e de ferro; e a irmã de Tubal-Caim chamava-se Naamá.
Nós temos aqui alguns particulares relativos a Lameque,  o sétimo descendente de Adão na genealogia de Caim.
Observamos que foi este Lameque o primeiro a transgredir a lei original do matrimônio de que marido e mulher deveriam ser uma só carne.
Até aqui um homem tinha somente uma esposa de cada vez; mas Lameque teve duas.
Desde o princípio não era assim. Mal. 2.15; Mat. 19.5. Aqui nós vemos que aqueles que abandonam a igreja e os mandamentos de Deus  ficam abertos a toda forma de tentação, e quando um costume ruim é começado por homens ruins, até mesmo homens de caráter melhor são induzidos a seguir o seu mau exemplo, como foi o caso de Jacó, Davi, e outros, que apesar de serem homens justos ficaram enlaçados neste pecado que Lameque havia iniciado.
Agora, o que reparamos no breve relato que Deus ordenou a Moisés para registrar acerca dos descendentes de Caim até a família de Lameque, destaca-se apenas a industriosidade material e habilidades terrenas daqueles cabeças de família, e o pecado daquele com o qual a narrativa sobre Caim e sua descendência é fechada.
 Não há ali uma só nota referindo-se à santidade, obediência, fé, boas obras, enfim de qualquer valor espiritual, celestial e eterno, relativamente a eles.
O autor sagrado se fixa em detalhar as habilidades daqueles que descenderam deste homem perverso chamado Lameque, e não de nenhum dos que são citados anteriormente, e disto deduzimos o possível propósito de Deus em querer demonstrar que a sua bondade é demonstrada mesmo ao injusto e à sua descendência, como no caso de Lameque e seus filhos, mas em vez deles tirarem proveito desta bondade manifestada a eles, ao contrário somente fizeram agravar a pena dos seus pecados em face do seu não arrependimento, por colocarem a sua confiança não no Senhor, mas na instabilidade das riquezas e dos dons terrenos (I Tim 6.17-19).   
Veja que é apenas nas coisas mundanas a única coisa que as pessoas que não amam a Deus, que não O amam e servem, fixam seus corações.
Jesus alertou e ensinou abundantemente sobre isto. Assim se deu com a parentela do amaldiçoado Caim. Eles seguiram, ao que parece, os passos do seu pai. Eles estavam dispostos a serem hábeis nas artes e em seus ofícios, mas nada em ensinar e viver o conhecimento do bom Deus.
Eles estavam dispostos a serem ricos, poderosos, felizes segundo o mundo, mas nada de Deus e do temor devido a Ele.
Calvino destaca, comentando a respeito das habilidades de Jabal, filho de Lameque, no manejo de Gado (v.20); das de Jubal, seu irmão, nas artes, e especificamente na música instrumental de harpa e flauta; e também as de outro filho de Lameque com sua segunda esposa, chamado Tubalcaim, que era artífice de instrumentos cortantes de ferro e bronze; que Moisés destacou com os males que procederam da família de Caim, algum bem misturado a todo aquele mal, porque a invenção de artes e de outras coisas que servem ao uso comum e à conveniência da vida, é dom de Deus, que de nenhuma maneira deve ser menosprezado, e uma faculdade merecedora de louvor.
É verdadeiramente maravilhoso, que esta raça que tinha caído profundamente da integridade pudesse desenvolver dons raros.
Porém, a Bíblia deixa claro ao se referir aos dons distribuídos à família de Caim que ele não foi totalmente amaldiçoado por Deus e que alguns dons ainda seriam distribuídos à sua família.
Por princípio o Senhor também revela nisto que os filhos não levam sobre si a iniqüidade de seus pais, ainda que Deus, em Sua sabedoria, para propósitos santos e elevados, possa em perfeito exercício de juízo, em perfeita justiça, visitar a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração, nos casos em que julgar e determinar fazê-lo.
Nos versos 23 e 24 vemos Lameque dizendo o seguinte às suas duas esposas:
“ouvi a minha voz; escutai, mulheres de Lameque, as minhas palavras; pois matei um homem por me ferir, e um mancebo por me pisar. Se Caim há de ser vingado sete vezes, com certeza Lameque o será setenta e sete vezes.”  
Veja quão prepotentemente ele fala com suas esposas, esperando da parte delas uma grande consideração e elogio.
Ele se vangloria do fato de ter cometido dois assassinatos por motivos banais, por se imaginar elevado demais para que pudesse ser ofendido por aqueles que certamente ele não considerava como seus semelhantes, por se julgar muito superior a eles.
Ele já havia demonstrado isto com sua disposição em quebrar a lei divina do matrimônio, por achar que merecia mais do que uma esposa.
”Matei um homem porque me feriu e um rapaz porque me pisou.” Estas são as palavras vangloriosas de Lameque para se referir aos crimes que cometeu. Mas, para ele não era um crime. Ele se considerava acima de tudo uma vítima, porque aqueles homens que matara não haviam percebido a sua excelência intocável. Ele conhecia a forma como Deus havia marcado Caim, seu ancestral, para que ninguém o matasse, vingando a morte de Abel.
Certamente, Lameque entendeu erroneamente daí, que havia uma proteção especial sobre a descendência de Caim para que pudesse matar livremente, sem correr o risco de alguém vingar a morte da vítima deles, porque Deus não o permitiria.
Este deveria ser certamente o pensamento deste homem perverso, pois considerava que tinha uma cobertura muito maior do que a que Caim havia recebido, para praticar o mal.
O fato é que, como já comentamos anteriormente, Deus não havia dado a Caim um salvo conduto para o crime que havia praticado e nem mesmo para continuar na prática do mal.        
Em Fil 3.19 Paulo se refere ao tipo de pessoas que se gloriam exatamente na sua própria infâmia, naquilo que é vergonhoso, e este era o caso de Lameque.
Parece que ele falou daquele modo às suas esposas, porque conhecendo elas a sua inclinação para o mal, e a sua facilidade em se ressentir com qualquer tipo de provocação, deviam temer que a qualquer momento ele acabaria sendo morto por algum oponente, e por isso ele lhes disse que não temessem por ele porque assim como Caim seria vingado sete vezes, ele seria muito mais, isto é, setenta vezes sete, segundo o seu dizer.
Praticamos o mal e não morremos. Praticamos o mal e não fomos enfermados. Saímos com isso da presença de Deus, tal como se deu com Caim. Mas para muitos vem o perverso pensamento: “Mas o que importa, já que Deus nos tem preservado em vida?”
Mas graças a Deus que por meio de nosso Senhor Jesus Cristo veio nos revelar a natureza celestial que devemos cultivar em nossos corações, porque em vez de abrigarmos ressentimentos devemos estar dispostos, não para que Deus nos vingue setenta vezes sete dos males que nos fazem os nossos inimigos, mas para que nos conceda, pela Sua graça a estarmos numa atitude mansa e compassiva de quem está disposto a perdoar setenta vezes sete (Mt 18.2).














O Nascimento de Sete  (Gên 4.25,26)

“25 Tornou Adão a conhecer sua mulher, e ela deu à luz um filho, a quem pôs o nome de Sete; porque, disse ela, Deus me deu outro filho em lugar de Abel; porquanto Caim o matou.
26 A Sete também nasceu um filho, a quem pôs o nome de Enos. Foi nesse tempo, que os homens começaram a invocar o nome do Senhor.”

Adão e Eva estavam colhendo o fruto amargo do pecado que haviam cometido no Éden e pelo qual sujeitaram toda a raça à ruína. Eles perderam dois filhos num só dia, um que foi assassinado, e o outro que foi sujeitado a vaguear pela terra, deixando o lar de seus pais para sempre. Quando os pais são afligidos pelo pecado que vêem em seus filhos, eles deveriam achar ocasião para lamentar aquela corrupção que é derivada da natureza deles, como uma raiz de amargura.    
Mas nós achamos aqui nestes dois versículos um consolo para Adão e Eva em sua aflição, porque o Senhor tornou a reconstruir a família deles, dando-lhes um filho que se tornaria justo pela fé nEle, tal qual Abel, e assim seria o exemplo de fé e obediência deste filho, a quem eles deram o nome de Sete, seria seguido pelo filho que seria gerado por Ele, Enos, e de tal modo, que em seus dias e certamente pela forma consagrada que servia a Deus, houve um avivamento do Espírito entre eles, e naquela geração os homens buscavam a face de Deus para fazer a Sua vontade.
O nome de Deus era invocado, isto significa que eles oravam e buscavam ter comunhão com Ele.
Esta geração certamente haveria de deixar a sua marca nas gerações seguintes, de modo que de Enos, descenderam homens como Enoque, que foi arrebatado, e o próprio Noé. 
É por isso que o galardão do justo é contado mesmo depois da sua morte, porque até gerações depois deles são abençoadas pelo seu exemplo de vida.
Não era somente a reconstrução da família de Adão e Eva, pelos interesses privativos deles, que se encontrava em jogo, mas pelo interesse supremo de Deus de conduzir adiante o plano de salvação do pecador perdido.
A história da redenção não seria através de Caim, mas de Sete.
O descendente da mulher que esmagaria a cabeça da serpente viria ao mundo através da descendência de pessoas de fé, e por isso; justas diante de Deus, porque o homem é justificado unicamente pela fé.
É particularmente isso que a revelação dada a Moisés e que está registrada em Gênesis, particularmente nas genealogias, quer marcar.
Veja que a genealogia que segue até Jesus é marcada nos descendentes que amaram e temeram a Deus, e não naqueles que O desprezaram.
Veja o caso de Esaú e Jacó, filhos de Isaque.
Não foi Esaú, que era o primogênito, o que foi eleito por Deus, mas Jacó, porque Esaú desprezou a sua primogenitura e não era um homem de fé, tal como Jacó.
O caminho para Cristo é um caminho de vida e não de morte.
A vida é mediante a fé, que crê em tudo o que Deus disse ou diz, e que se dispõe a pô-lo em prática.
Assim, Deus escolheu para incluir na genealogia de Seu Filho, não pessoas poderosas, sábias segundo o mundo, mas pessoas como Raabe, que antes de ser escolhida era uma prostituta, e que se tornou uma mulher de grande fé no Senhor, como que para marcar que Cristo é para todo aquele que se arrepender dos seus pecados e crer no evangelho, que mostra que o homem deve se converter e viver para Deus, em santidade de vida.             
Assim, deveria se contar a partir de Sete, nesta semente de fé, dada a Adão e Eva, que a igreja do Deus vivo deveria ser construída e perpetuada, pela sucessão de confessores e mártires.
A descendência da serpente pode levar ao martírio aqueles que são da descendência de Cristo.
Todos os que têm matado os servos de Deus, por inspiração do diabo, ao longo de toda história da humanidade sobre a face da terra, esperam com isto afastar os santos do Altíssimo, sem saberem que nem mesmo a morte pode mais separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus - todos aqueles que amam a Deus.
Este foi o engano de Caim quando matou Abel. Pensou que seu irmão deixaria de existir e assim interromperia a comunhão que havia entre ele e Deus.
Mas Abel vive e viverá para sempre ao lado do Seu amado Senhor.
De igual modo se enganam todos aqueles que pensam também que deterão a obra de Deus matando um justo, porque Deus é poderoso para levantar outro em seu lugar, para dar continuidade à Sua obra, como se vê no caso de Sete que foi dado a Eva para estar no lugar de Abel, em quem, provavelmente poderia  estar marcada a descendência de Cristo, caso não tivesse sido assassinado por Caim.
Sete não poderia ser removido da face da terra, ainda que pelo esforço de todo o inferno contra ele, porque havia sido determinado pelo Todo-Poderoso que seria fixada nEle a genealogia do nosso Salvador e Senhor.
Por isso recebeu o nome profético Seth, que significa, fixo, colocado, determinado, porque na sua descendência, através de Cristo, os que se convertem a Deus viverão por toda a eternidade.
Enquanto Caim, o cabeça da apostasia, é feito um errante, Sete, de quem a verdadeira igreja viria, é fixado.
Cristo e a Sua igreja são o único e verdadeiro edifício que permanece para sempre, que tem alicerce e colunas que jamais poderão ser abalados.
Como dissemos, a partir de Enos, filho de Sete, houve um reavivamento da , isto é, os homens que descenderam de Enos, em face da impiedade vista em Caim e seus descendentes, especialmente em Lameque, apegaram-se mais firmemente ao Senhor e aos Seus mandamentos.
Deus faz com que o justo se apegue ainda mais à verdade à vista da maldade que vê na vida dos ímpios.
Isto é, portanto, sabedoria que procede do Senhor, em fazer com que os santos habitem com os ímpios na face da terra.
Caim e aqueles que tinham abandonado a tinham construído uma cidade, e começado a declarar a impiedade e falta de temor ao Senhor, mas aqueles que na descendência de Sete, se voltaram para Deus, começaram a invocar o seu nome.



Genealogia de Adão a Noé (Gênesis 5)

“1 Este é o livro das gerações de Adão. No dia em que Deus criou o homem, à semelhança de Deus o fez.
2 Homem e mulher os criou; e os abençoou, e os chamou pelo nome de homem, no dia em que foram criados.
3 Adão viveu cento e trinta anos, e gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem, e pôs-lhe o nome de Sete.
4 E foram os dias de Adão, depois que gerou a Sete, oitocentos anos; e gerou filhos e filhas.
5 Todos os dias que Adão viveu foram novecentos e trinta anos; e morreu.
6 Sete viveu cento e cinco anos, e gerou a Enos.
7 Viveu Sete, depois que gerou a Enos, oitocentos e sete anos; e gerou filhos e filhas.
8 Todos os dias de Sete foram novecentos e doze anos; e morreu.
9 Enos viveu noventa anos, e gerou a Quenã.
10 viveu Enos, depois que gerou a Quenã, oitocentos e quinze anos; e gerou filhos e filhas.
11 Todos os dias de Enos foram novecentos e cinco anos; e morreu.
12 Quenã viveu setenta anos, e gerou a Maalalel.
13 Viveu Quenã, depois que gerou a Maalalel, oitocentos e quarenta anos, e gerou filhos e filhas.
14 Todos os dias de Quenã foram novecentos e dez anos; e morreu.
15 Maalalel viveu sessenta e cinco anos, e gerou a Jarede.
16 Viveu Maalalel, depois que gerou a Jarede, oitocentos e trinta anos; e gerou filhos e filhas.
17 Todos os dias de Maalalel foram oitocentos e noventa e cinco anos; e morreu.
18 Jarede viveu cento e sessenta e dois anos, e gerou a Enoque.
19 Viveu Jarede, depois que gerou a Enoque, oitocentos anos; e gerou filhos e filhas.
20 Todos os dias de Jarede foram novecentos e sessenta e dois anos; e morreu.
21 Enoque viveu sessenta e cinco anos, e gerou a Matusalém.
22 Andou Enoque com Deus, depois que gerou a Matusalém, trezentos anos; e gerou filhos e filhas.
23 Todos os dias de Enoque foram trezentos e sessenta e cinco anos;
24 Enoque andou com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus o tomou.
25 Matusalém viveu cento e oitenta e sete anos, e gerou a Lameque.
26 Viveu Matusalém, depois que gerou a Lameque, setecentos e oitenta e dois anos; e gerou filhos e filhas.
27 Todos os dias de Matusalém foram novecentos e sessenta e nove anos; e morreu.
28 Lameque viveu cento e oitenta e dois anos, e gerou um filho,
29 a quem chamou Noé, dizendo: Este nos consolará acerca de nossas obras e do trabalho de nossas mãos, os quais provêm da terra que o Senhor amaldiçoou.
30 Viveu Lameque, depois que gerou a Noé, quinhentos e noventa e cinco anos; e gerou filhos e filhas.
31 Todos os dias de Lameque foram setecentos e setenta e sete anos; e morreu.
32 E era Noé da idade de quinhentos anos; e gerou Noé a Sem, Cão e Jafé.”

A genealogia aqui registrada está inserida na genealogia de nosso Salvador (Lc 3.36-38), e tem o propósito de revelar que Cristo é a "semente da mulher" que foi prometida. 
Quando Adão morreu, seu filho Sete tinha oitocentos anos, porque ele gerou Sete quando tinha cento e trinta anos, e morreu com novecentos e trinta anos.
O propósito da narrativa destas genealogias não é o de destacar todos os descendentes de Adão, mas de apontar a linha de descendência de onde tinha provindo Noé, o homem que foi preservado com sua família da destruição geral que Deus trouxe sobre a terra no dilúvio, e com os quais a terra seria repovoada e do qual descenderia obrigatoriamente o Messias, através da linhagem de um dos três filhos de Noé, chamado Sem.    
O texto bíblico afirma que Adão gerou um filho à sua imagem, conforme à sua semelhança, e certamente isto não indica que se tratava da condição de estar sem pecado como era a condição de Adão no Éden, antes da queda, pois que desde que ele pecou toda a sua descendência é concebida em pecado, conforme se afirma no Sl 51.5. 
Sete era, portanto um pecador tanto quanto o seu pai. Tendo perdido aquela santidade original, Adão ficou impedido de transmiti-la à sua descendência.
A graça não é transmitida de forma natural e assim um pecador gera um pecador.
Assim, Sete não é incluído na genealogia de Noé, e, por conseguinte, de Cristo, não porque fosse perfeitamente santo, mas porque era um daqueles que são justificados pela fé e passam a ter paz com Deus, por serem reconciliados com Ele, através do sacrifício de Jesus Cristo. 
Relativamente aos quatro patriarcas na sucessão direta da genealogia de Sete (Enos, Quenã, Maalalel e Jarede); inclusive ao próprio Sete, o texto bíblico não faz qualquer menção especial, entretanto nós podemos supor que eles eram homens eminentes e devotados a Deus, pois que foi Jarede que gerou Enoque, aquele que foi arrebatado por Deus, e que certamente aprendeu o modo de se servir a Deus através do testemunho de seus ancestrais, que por viverem muitos anos, eram contemporâneos uns dos outros em várias gerações.
Além disso, o registro sequencial das genealogias nos ajuda a fixar a cronologia desde a criação do primeiro homem, de modo que podemos entender que a criação é jovem e não muito antiga conforme afirmam os evolucionistas.
De todos os que são citados na genealogia é dito o tempo que eles viveram e que morreram, à exceção de Enoque, do qual se diz que andou com Deus e já não era porque Deus o tomou para Si.
Deus fez com Enoque o mesmo que fez com Elias. Com o arrebatamento de Enoque Deus quis sem dúvida marcar o ensino de que há uma imortalidade em comunhão eterna com Ele reservada para aqueles que andam em Sua presença fazendo a Sua vontade, e isto serviria de consolo e encorajamento para viverem na prática da justiça todos aqueles santos que voltavam ao pó, na morte, de modo a saberem que poderoso é o Senhor para ressuscitar os corpos dos justos, e de que há uma vida melhor reservada para eles do que esta que eles vivem neste mundo.     
Enoque gerou Matusalém e lhe deu um nome profético, porque a raiz deste nome, em hebraico, significa morrer.
Foi exatamente Matusalém o homem que viveu mais anos na terra (969).
Qual pois a razão deste nome? Isto pode ser entendido no fato de que ele morreu exatamente no ano do dilúvio, quando toda a carne, com exceção de Noé e aqueles que estavam com ele, foi destruída pelas águas do dilúvio.
Deus pode ter designado este nome para Matusalém como um sinal indicativo de que quando aquele homem morresse, a morte visitaria toda a humanidade, porque o nome profético deste homem significa  morrer.
Enoque teria facilmente discernido o propósito de Deus com este nome profético para o seu filho Matusalém, porque Enoque andava com Deus, e o que é a piedade senão um caminhar com Deus?
 A comunhão exige acordo espiritual. Por isso Deus declara através do profeta Amós como pode ser possível dois andarem juntos se não houver acordo entre eles?
Enoque andava com Deus porque estava de acordo com a vontade de Deus. Caminhar com Deus é fixar sempre Deus diante de nós, e agir como aqueles que sempre estão debaixo do Seu olhar. É fazer da Palavra de Deus a nossa regra e a Sua glória, conforme Ele exige e ordena na Sua própria Palavra.
Enoque caminhou com Deus. Enquanto outros viveram para si mesmos e para o mundo, Enoque viveu para Deus. O Senhor era a sua alegria e sustento. A comunhão com Deus era melhor do que a vida para ele, tal como Paulo que disse que para ele o viver era Cristo (Fp 1.21).  
Não foi logo depois que gerou Matusalém aos 65 anos de idade que ele foi arrebatado, mas trezentos anos depois, e isto pode indicar que a sua fé e devoção aumentaram com o passar do tempo, porque viveu mais trezentos anos sobre a terra, sendo arrebatado aos trezentos e sessenta e cinco anos. Grandes santos chegam à sua eminência através de graus. Os pecadores são transformados pelo fortalecimento da sua fé de glória em glória, através do crescimento na graça e no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo. 
Um verdadeiro santo perseverará até o fim, e caminhará com Deus enquanto ele viver, com a esperança de que estará para sempre com ele, pois o Espírito Santo incentiva todo crente autêntico à perseverança.
Como Enoque não viveu como os demais, ele não morreu como eles (v. 24): Ele já não era, porque Deus o levou; quer dizer, como está explicado em Hb. 11. 5, ele foi trasladado para não ver a morte, e não foi achado, porque Deus o trasladara, pois obteve testemunho de ter agradado a Deus por causa da sua fé.  
Aqueles cujo testemunho no mundo é de santidade e cuja conversação é santa, terão uma trasladação feliz, ainda que na morte, porque o Senhor tem feito a promessa de que aqueles que são dele, ainda que morram, viverão, e não terão do que se lamentar todos aqueles que procuram viver de modo que Lhe seja verdadeiramente agradável.
Lameque, filho de Matusalém, neto de Enoque, gerou Noé aos cento e oitenta e dois anos e lhe deu o nome de Noé, que no hebraico significa consolo, descanso, e daí ter dito quando lhe deu este nome:
“Este nos consolará dos nossos trabalhos, e das fadigas de nossas mãos, nesta terra que o Senhor amaldiçoou.”  
Aqui está a reclamação de Lameque quanto ao estado calamitoso da vida humana. Pela entrada de pecado, e o vínculo da maldição com o pecado, nossa condição ficou muito miserável: nossa vida inteira é gasta em canseiras e trabalhos.
Lameque vê no nascimento de Noé uma esperança de alívio para não somente para a sua casa, mas até mesmo para a raça humana.
Não no sentido de que aqueles homens ímpios teriam algum tipo de lucro com o nascimento de Noé, mas que é provável que tenha havido profecias relativas ao nascimento de Noé, indicando que nele haveria uma renovada esperança para o homem em seu estado pecaminoso.
 Certamente isto apontava para o repovoamento da terra, através da semente de Noé, e pela influência do seu testemunho sobre os seus descendentes, especialmente na linhagem de Sem, de modo que pudesse ser preservada a raça humana, no sentido geral, até a chegada do Messias prometido que esmagaria a cabeça da serpente.
Se Cristo é nosso o céu é nosso.
Isto seria possível porque o Senhor proveu para Si este homem de fé e que andava em retidão, chamado Noé, com o qual reiniciaria a história da humanidade no mundo, reassinalando a esperança de salvação para os pecadores que viessem a se arrepender e a crerem em Deus.      



O Dilúvio (Gênesis 6)

“1 Sucedeu que, quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a terra, e lhes nasceram filhas,
2 viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram.
3 Então disse o Senhor: O meu Espírito não permanecerá para sempre no homem, porquanto ele é carne, mas os seus dias serão cento e vinte anos.
4 Naqueles dias estavam os néfilins na terra, e também depois, quando os filhos de Deus conheceram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos. Esses néfilins eram os valentes, os homens de renome, que houve na antigüidade.
5 Viu o Senhor que era grande a maldade do homem na terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era má continuamente.
6 Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração
7 E disse o Senhor: Destruirei da face da terra o homem que criei, tanto o homem como o animal, os répteis e as aves do céu; porque me arrependo de os haver feito.
8 Noé, porém, achou graça aos olhos do Senhor.
9 Estas são as gerações de Noé. Era homem justo e perfeito em suas gerações, e andava com Deus.
10 Gerou Noé três filhos: Sem, Cão e Jafé.
11 A terra, porém, estava corrompida diante de Deus, e cheia de violência.
12 Viu Deus a terra, e eis que estava corrompida; porque toda a carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra.
13 Então disse Deus a Noé: O fim de toda carne é chegado perante mim; porque a terra está cheia da violência dos homens; eis que os destruirei juntamente com a terra.
14 Faze para ti uma arca de madeira de gófer: farás compartimentos na arca, e a revestirás de betume por dentro e por fora.
15 Desta maneira a farás: o comprimento da arca será de trezentos côvados, a sua largura de cinqüenta e a sua altura de trinta.
16 Farás na arca uma janela e lhe darás um côvado de altura; e a porta da arca porás no seu lado; fá-la-ás com andares, baixo, segundo e terceiro.
17 Porque eis que eu trago o dilúvio sobre a terra, para destruir, de debaixo do céu, toda a carne em que há espírito de vida; tudo o que há na terra expirará.
18 Mas contigo estabelecerei o meu pacto; entrarás na arca, tu e contigo teus filhos, tua mulher e as mulheres de teus filhos.
19 De tudo o que vive, de toda a carne, dois de cada espécie, farás entrar na arca, para os conservares vivos contigo; macho e fêmea serão.
20 Das aves segundo as suas espécies, do gado segundo as suas espécies, de todo réptil da terra segundo as suas espécies, dois de cada espécie virão a ti, para os conservares em vida.
21 Leva contigo de tudo o que se come, e ajunta-o para ti; e te será para alimento, a ti e a eles.
22 Assim fez Noé; segundo tudo o que Deus lhe mandou, assim o fez.”

Tudo relativo ao mundo antigo foi escrito para nossa advertência, que participamos do novo mundo que seria formado a partir de Noé, depois do dilúvio. Assim, o dilúvio é o maior alerta dado por Deus a toda a humanidade de que a terra que hoje existe será destruída pelo fogo por causa do pecado.
O mundo sempre esteve maduro para ser submetido ao juízo de Deus por causa do pecado.
O mundo novo não é melhor do que o mundo antigo.
É somente por causa da longanimidade de Deus que o juízo é retardado.
A mesma multiplicação da iniquidade, tal como ocorreu nos dias de Noé, há de trazer o juízo de Deus sobre a terra, no momento oportuno fixado por Ele, tal como fizera nos dias de Noé.
Assim farão bem todos os que se arrependerem de seus pecados e crerem em Cristo para que possam escapar do grande juízo de Deus para o qual somos alertados principalmente pelo juízo que Ele trouxe sobre o mundo de pecado nos dias de Noé.
O Senhor o fez no passado para advertência de todos os homens, depois de Noé, quanto ao que haverá de ocorrer no futuro.
Entretanto devemos lembrar que no mundo novo opera a longanimidade, graça e misericórdia de Deus, conforme promessa feita a Noé, no capítulo oitavo.
Como o mundo velho foi arruinado para ser um monumento de justiça, assim este mundo novo, depois de Noé, permanece até este dia, como um monumento de misericórdia, de acordo com o juramento de Deus, que as águas de Noé não devem mais  retornar para cobrir a terra.
Por isso o Senhor declara o que lemos em Is 54.9,10:
“Porque isto é para mim como as águas de Noé; pois jurei que as águas de Noé não mais inundariam a terra, e assim jurei que não mais me iraria contra ti, nem te repreenderia. Porque os montes se retirarão, e os outeiros serão removidos; mas a minha misericórdia não se apartará de ti, e a aliança da minha paz não será removida, diz o Senhor que se compadece de ti.” 
São descritas aqui duas coisas que ocasionaram a maldade do mundo antigo:
1º. O aumento do gênero humano. Os homens começaram a se multiplicar na face da terra. Este era o efeito da bênção (Gên 1.28), mas a corrupção do homem abusou e perverteu esta bênção que foi se transformando numa maldição.
Assim o pecado pode achar ocasião na  misericórdia e longanimidade de Deus, para tornar os homens mais pecadores ainda, pelo abuso desta longanimidade e misericórdia.
O pecador geralmente confunde a bênção geral de Deus que faz nascer o sol sobre justos e injustos, como um ato de aprovação do pecado, pois seria de se esperar somente juízos em face do pecado, e nenhuma bênção.
Mas o homem se esquece da longanimidade de Deus, que o leva a abreviar ou retardar o juízo, mas nunca suspendê-lo, pois todos darão contas de todos os seus atos no futuro Tribunal de Deus.
Casamentos mistos (6.2) foram uma das principais causas da corrupção do gênero humano nos dias que antecederam o dilúvio.
Os filhos de Deus, quer dizer, os líderes da verdadeira adoração, que eram chamados pelo nome do Senhor, se casaram com as filhas dos homens, isto é, aqueles que eram profanos, estranhos a Deus e à vida de piedade.
Diz-se filhas dos homens, porque seguiam nos passos de seus pais, que não seguiam os caminhos de Deus.
Eles faziam o que era da vontade do homem, da sua própria vontade corrompida, e não o que era da vontade de Deus.
Eles não seguiram o exemplo da posteridade santa de Sete, o exemplo de Enos, de Enoque, de Matusalém, de Lameque, e do próprio Noé, mas seguiram nos passos da descendência degenerada de Caim.
Quando os que temiam a Deus começaram a se casar com pessoas que não eram do Senhor e não amavam o Senhor, tanto eles quanto seus filhos ficaram debaixo de uma má influência que acabou por corromper toda a humanidade sobre a face da terra.
O que estava errado nestes matrimônios? Eles escolheram somente pela vista. Eles  seguiram a escolha dos seus próprios afetos corrompidos. Eles não buscaram conselho nem a direção de Deus. Assim se colocaram no jugo desigual (II Cor 6.14).
Por isso na lei que Deus deu a Israel, tais casamentos mistos foram proibidos (Dt 7.3,4). e foi exatamente isto, tais casamentos mistos, a causa da apostasia de Salomão (I Rs 11.1-4).
Aqueles que professam serem amigos de Deus não devem se casar com aqueles que são Seus inimigos.
Quando lemos que Deus sujeitou à destruição aqueles homens gigantes de renome, porque se corromperam casando-se com mulheres ímpias, há aqui uma lição que devemos ponderar, que todo o bem que Ele deseja fazer aos homens encontra respaldo quando o homem lhe dá a resposta devida de uma vida santa, assim como Ele preparou um jardim maravilhoso para Adão no Éden, enquanto este vivia sem pecado, e que de lá foi expulso quando pecou.
Esta é, portanto uma mensagem muito clara da parte de Deus para nós, que podemos esperar desfrutar boas coisas da parte dEle e contar com a Sua bênção, quando vivemos de fato em santidade de vida.  
Por causa da maldade do homem que havia se multiplicado na terra (6.5,6), Deus afirmou que Seu Espírito não agiria para sempre no homem, e fixou um prazo de 120 anos para trazer o Seu juízo de destruição sobre toda a carne (6.7,13).
O amor ao pecado sujeita a alma a uma condição extremamente perigosa, conforme a que é citada em Romanos de ser entregue por Deus à imundícia (1.24); às paixões infames (1.26); a uma disposição mental reprovável que conduz a prática de coisas inconvenientes (1.28); por não receber graça e a influência do Espírito Santo para ser conduzido ao arrependimento.
Por isso a raiz do verbo usado no hebraico para o verbo da expressão que afirma que o Espírito “não agirá para sempre no homem” tem o significado do ato de se colocar a espada na bainha.
A idéia é  a seguinte: se é o Espírito que usa a Palavra de Deus para dividir junta e medula, alma e espírito, Ele não faria mais este trabalho até a vinda do dilúvio, e os homens ficariam entregues à sua própria maldade, porque a figura usada é a de que o Espírito estaria fora de atuação, assim como uma espada que está embainhada.
Quando o Espírito Santo deixa de atuar entre o seu povo, todo esforço religioso será inútil. Uma igreja sem o mover do Espírito é um organismo sem vida.   
O Espírito atuou quando Noé estava pregando (I Pe 3.19,20), mas foi em vão, como se vê no verso 20, porque eles foram desobedientes.
O Espírito Santo age no sentido de conduzir os pecadores ao arrependimento, por meio de convencimento do pecado, da justiça e do juízo, advertindo a consciência, para converter o homem do pecado, para a obediência a Deus.
Mas se o Espírito é resistido, por muito tempo, Ele é extinto, isto é, a sua atuação cessará, e os pecadores permanecerão endurecidos em seus pecados por lhe terem resistido.
A razão da resolução de o Espírito parar de agir no homem é declarada logo em seguida em 6.3: “o homem é carnal”, isto é, incuravelmente corrompido, sensual, inclinado para as coisas da carne e não às coisas do Espírito.
O pendor da carne dá para a morte, como se afirma em Rom 8.6, e aquela morte física, em razão de ser o homem carnal, seria uma figura expressiva da morte espiritual e eterna, a que estão sujeitos todos aqueles que não têm o pendor do Espírito, que dá para a vida e paz, conforme se afirma no mesmo versículo de Romanos.
É a natureza terrena corrompida pelo pecado, a inclinação da alma para a carne que se opõe à operação do Espírito e a torna ineficaz.  
Gênesis 6.4 nos dá conta que aqueles casamentos mistos deram como resultado homens valentes, varões de renome na antiguidade.
É interessante observar que em vez disso contribuir para algum bem, ao contrário, contribuiu para a multiplicação da maldade, e há uma explicação para isto, pois é muito comum que quando o poder do homem aumenta, ele fica sob a forte tentação de ser um opressor violento e arrogante.
Foi exatamente isto o que ocorreu com aqueles homens.
Eles eram gigantes e filhos de gigantes, e assim deixaram de reconhecer os direitos dos seus vizinhos e os pisotearam bem como tudo o que era sagrado e ordenado por Deus.
O bom nome dos pais deles foi arruinado porque eles se inclinaram à influência das suas esposas ímpias e às famílias delas, que não tinham o temor do Senhor.  
Assim a maldade de certas pessoas realmente é grande quando os pecadores mais notórios forem os homens de renome entre eles.
As coisas se tornam piores quando os homens ruins não somente são honrados, bem como a maldade deles, e os homens mais vis são exaltados.
A maldade então aumenta quando os grandes homens são ímpios.
A influência da maldade deles atingirá um grande número de pessoas, em razão da grandeza deles.
Mas como Deus não olha para a aparência e a grandeza dos homens, determinou trazer um juízo sobre aqueles homens.
O Grande Juiz os julgaria de modo a pôr fim à maldade deles.
Ele viu que o desígnio dos seus corações era continuamente mau, e isso era uma tristeza para o coração santo, justo e amoroso de Deus.
Eles não praticavam o mal por descuido ou ignorância, mas deliberadamente e imaginavam formas para aumentar a sua prática perversa.  
Assim, em Gên 6.6 está declarada a tristeza e a ira de Deus em relação à maldade do homem.
Ele não viu isto como um espectador desinteressado, mas como quem foi prejudicado e afrontado por isto.
Deus viu todas estas coisas como um pai terreno vê a loucura e teimosia de um filho rebelde e desobediente que o aflige, e o faz desejar que seria melhor não ter tido filhos.
O fato de Deus ter se arrependido de ter criado o homem, não significa que Ele tivesse feito algum planejamento incorreto na deliberação de ter criado a humanidade, tanto que sabemos que tudo corre exatamente como Ele havia planejado nos Seus decretos eternos, mas é usada uma expressão humana para descrever a tristeza de Deus, no sentido de mostrar que a deliberação do homem viver em pecado, e de não se arrepender e se converter à prática da justiça pela fé no Senhor, é algo que não corresponde ao Seu propósito relativo à criação do homem.
Deus criou o homem perfeito, sem pecado, com faculdades e poderes nobres, e o homem estava fazendo exatamente o oposto daquilo que se esperava dele, por um mau uso de tais faculdades e poderes.
A razão, a mente, a vontade, que lhes foram dados por Deus, principalmente para escolher e praticar o bem, estavam sendo usados para imaginar o mal e praticá-lo.
Fazendo contraste com tudo isto,  nós vemos a Palavra da revelação afirmando que Noé achou graça diante do Senhor.
Isto é muito significativo, porque apesar de se afirmar no verso seguinte (6.9) que ele era um homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos, e que andava com Deus, a citação que achou graça diante do Senhor, indica que ele foi poupado não em razão da sua própria justiça e integridade, mas por causa da graça do Senhor, que pelo Espírito, forjou em Noé tal justiça e integridade.
 Foi a justiça que é pela fé, que o tornou agradável a Deus, como lemos em Hebreus 11.7.
A este respeito, especialmente o Novo Testamento, revela muitas verdades sobre o fato de que a justiça própria do homem é uma grande ofensa para Deus, porque desde que Adão pecou, não há mais no homem nenhuma justiça que possa produzir nele, no seu espírito, a condição e o estado de piedade e santidade que podem ser somente forjados pelo Espírito Santo.
Então, o conceito de bem segundo o homem, não corresponde necessariamente ao conceito de bem conforme ele é na verdade e conforme se revela nas Escrituras, que é sempre o resultado de uma comunhão íntima e real em obediência prática do homem com o Seu criador divino.
Noé não resistia ao Espírito de Deus, diferentemente dos seus contemporâneos, e por isso foi poupado.
Enquanto toda a humanidade rejeitava a misericórdia de Deus, Noé mergulhou inteiramente nela e encontrou graça para ter poder espiritual para viver na prática da justiça. Enquanto todo o gênero humano havia se tornado objeto da ira de Deus, Noé era objeto do Seu favor. 
Provavelmente Noé não achou favor aos olhos dos homens; eles o odiaram e o perseguiram, porque tanto pela sua vida quanto pela sua pregação ele havia condenado o mundo.
Deus disse a Noé que faria perecer toda carne debaixo dos céus, mas que faria com Noé a sua aliança, no sentido de que o conservaria vivo juntamente com sua esposa, filhos e as esposas de seus filhos, bem como com todos os animais que estivessem na arca.
Para manter e preservar a vida Deus se interpõe com uma aliança, tal como agora, é na arca que é Cristo, que estamos seguros da destruição eterna, porque o Pai estabeleceu uma aliança com o Filho de preservar em vida todos aqueles que estivessem unidos a Ele.
Somos assim, salvos porque permanecemos em Cristo, juntamente ligados a Cristo, com quem o Pai fez uma aliança eterna de salvar a todos aqueles que estivessem unidos a Ele.   
É importante destacar que o trabalho de Deus deve seguir as instruções que Ele nos dá. Veja que no caso de Noé, as dimensões, os três andares e os compartimentos da arca foram determinados pelo próprio Deus, e Noé fez consoante a tudo que Deus lhe ordenara (6.22) nos mínimos detalhes.
A obra do Senhor deve ser realizada de acordo com as medidas estabelecidas por Deus, as quais devemos cuidadosamente observar.
É Ele quem estabelece as medidas e os limites e não nós. Este é o segredo do sucesso de todo e qualquer ministério: seguir estritamente a direção dada pelo Senhor.








O Dilúvio (Gênesis 7)


“1 Depois disse o Senhor a Noé: Entra na arca, tu e toda a tua casa, porque tenho visto que és justo diante de mim nesta geração.
2 De todos os animais limpos levarás contigo sete e sete, o macho e sua fêmea; mas dos animais que não são limpos, dois, o macho e sua fêmea;
3 também das aves do céu sete e sete, macho e fêmea, para se conservar em vida sua espécie sobre a face de toda a terra.
4 Porque, passados ainda sete dias, farei chover sobre a terra quarenta dias e quarenta noites, e exterminarei da face da terra todas as criaturas que fiz.
5 E Noé fez segundo tudo o que o Senhor lhe ordenara.
6 Tinha Noé seiscentos anos de idade, quando o dilúvio veio sobre a terra.
7 Noé entrou na arca com seus filhos, sua mulher e as mulheres de seus filhos, por causa das águas do dilúvio.
8 Dos animais limpos e dos que não são limpos, das aves, e de todo réptil sobre a terra,
9 entraram dois a dois para junto de Noé na arca, macho e fêmea, como Deus ordenara a Noé.
10 Passados os sete dias, vieram sobre a terra as águas do dilúvio.
11 No ano seiscentos da vida de Noé, no mês segundo, aos dezessete dias do mês, romperam-se todas as fontes do grande abismo, e as janelas do céu se abriram,
12 e caiu chuva sobre a terra quarenta dias e quarenta noites.
13 Nesse mesmo dia entrou Noé na arca, e juntamente com ele seus filhos Sem, Cão e Jafé, como também sua mulher e as três mulheres de seus filhos,
14 e com eles todo animal segundo a sua espécie, todo o gado segundo a sua espécie, todo réptil que se arrasta sobre a terra segundo a sua espécie e toda ave segundo a sua espécie, pássaros de toda qualidade.
15 Entraram para junto de Noé na arca, dois a dois de toda a carne em que havia espírito de vida.
16 E os que entraram eram macho e fêmea de toda a carne, como Deus lhe tinha ordenado; e o Senhor o fechou dentro.
17 Veio o dilúvio sobre a terra durante quarenta dias; e as águas cresceram e levantaram a arca, e ela se elevou por cima da terra.
18 Prevaleceram as águas e cresceram grandemente sobre a terra; e a arca vagava sobre as águas.
19 As águas prevaleceram excessivamente sobre a terra; e todos os altos montes que havia debaixo do céu foram cobertos.
20 Quinze côvados acima deles prevaleceram as águas; e assim foram cobertos.
21 Pereceu toda a carne que se movia sobre a terra, tanto ave como gado, animais selvagens, todo réptil que se arrasta sobre a terra, e todo homem.
22 Tudo o que tinha fôlego do espírito de vida em suas narinas, tudo o que havia na terra seca, morreu.
23 Assim foram exterminadas todas as criaturas que havia sobre a face da terra, tanto o homem como o gado, o réptil, e as aves do céu; todos foram exterminados da terra; ficou somente Noé, e os que com ele estavam na arca.
24 E prevaleceram as águas sobre a terra cento e cinqüenta dias.”

Noé não trabalhou duramente na construção da arca durante aqueles 120 anos, em busca de prazeres presentes ou futuros, mas senão em ser obediente a Deus e buscar somente a Sua glória divina.
Do mesmo modo fica para nós a pergunta: O que estamos buscando em nosso serviço a Deus? Prazeres?
Acharmos a felicidade para nós mesmos?
Ou, como Noé estamos, sobretudo interessados em vivermos para que Deus seja glorificado em tudo que vivermos e fizermos?
Deus disse a Noé que reconhecia que ele era justo diante dEle no meio daquela geração perversa. O próprio Deus deu testemunho da honra e integridade de Noé. Assim Deus não deixou que se perdesse aquele único grão de trigo no meio de um grande monte de palha.
O Senhor conhece os que são seus e os preserva. Aqueles que se mantêm puros em tempos de iniqüidade terão a Deus como o seu castelo forte na hora da calamidade.   
Quando se cumpriram os 120 anos em que a longanimidade de Deus aguardava para trazer o dilúvio sobre a terra, Ele avisou Noé que em sete dias começaria a chover, e Noé deveria, neste prazo de sete dias, começar a receber os animais na arca, e depois de tê-los abrigado, o próprio Deus fechou a arca quando se cumpriu o prazo por Ele determinado.
Noé entrou na arca e Deus a fechou, e do mesmo modo, quando Ele traz uma alma a Cristo, ele assegura a sua salvação, e a porta que Deus fecha ninguém pode abrir.
No dia 17 do segundo mês do ano em que Noé contava com a idade de 600 anos, a chuva começou a cair sobre a terra e se diz que inclusive as fontes subterrâneas de água afloraram sobre face da terra.
As águas foram derramadas e afloraram à superfície da terra por quarenta dias.
A tentativa de fugir subindo os altos montes foi em vão porque as águas cobriram o cume dos montes.
Tentar fugir em cavernas que fossem hermeticamente fechadas seria também em vão, porque as águas prevaleceram sobre a terra por cerca de um ano, e logo acabaria o suprimento de oxigênio, bem como não haveria provisões suficientes para sustentar a vida em tão longo período.
Acrescente-se a isto que os ímpios foram apanhados de surpresa quando começou o dilúvio, porque eles não creram na pregação de Noé sobre o juízo de Deus, e não se prepararam para escapar dele.
Jesus ensinou que ocorrerá a mesma coisa em relação à sua segunda vinda para julgar o mundo, porque muitos não creem que haverá um juízo sobre o pecado, e assim não se preparam para escapar dele pelo arrependimento e fé.
Tentar fugir em cavernas, em altos montes será em vão, porque o juízo é sobre o pecado, e condenará todo aquele que não tiver sido justificado e lavado dos seus pecados pelo sangue de Cristo, por meio do arrependimento e da fé.
Não há nenhum lugar na terra tão alto e seguro que esteja fora do alcance dos julgamentos de Deus (Jer 49.16; Ob 3,4) pois a mão do Senhor descobrirá todos os seus inimigos (Sl 21.8).
 
          



O fim do dilúvio (Gênesis 8)

“1 Deus lembrou-se de Noé, de todos os animais e de todo o gado, que estavam com ele na arca; e Deus fez passar um vento sobre a terra, e as águas começaram a diminuir.
2 Cerraram-se as fontes do abismo e as janelas do céu, e a chuva do céu se deteve;
3 as águas se foram retirando de sobre a terra; no fim de cento e cinqüenta dias começaram a minguar.
4 No sétimo mês, no dia dezessete do mês, repousou a arca sobre os montes de Arará.
5 E as águas foram minguando até o décimo mês; no décimo mês, no primeiro dia do mês, apareceram os cumes dos montes.
6 Ao cabo de quarenta dias, abriu Noé a janela que havia feito na arca;
7 soltou um corvo que, saindo, ia e voltava até que as águas se secaram de sobre a terra.
8 Depois soltou uma pomba, para ver se as águas tinham minguado de sobre a face da terra;
9 mas a pomba não achou onde pousar a planta do pé, e voltou a ele para a arca; porque as águas ainda estavam sobre a face de toda a terra; e Noé, estendendo a mão, tomou-a e a recolheu consigo na arca.
10 Esperou ainda outros sete dias, e tornou a soltar a pomba fora da arca.
11 À tardinha a pomba voltou para ele, e eis no seu bico uma folha verde de oliveira; assim soube Noé que as águas tinham minguado de sobre a terra.
12 Então esperou ainda outros sete dias, e soltou a pomba; e esta não tornou mais a ele.
13 No ano seiscentos e um, no mês primeiro, no primeiro dia do mês, secaram-se as águas de sobre a terra. Então Noé tirou a cobertura da arca: e olhou, e eis que a face a terra estava enxuta.
14 No segundo mês, aos vinte e sete dias do mês, a terra estava seca.
15 Então falou Deus a Noé, dizendo:
16 Sai da arca, tu, e juntamente contigo tua mulher, teus filhos e as mulheres de teus filhos.
17 Todos os animais que estão contigo, de toda a carne, tanto aves como gado e todo réptil que se arrasta sobre a terra, traze-os para fora contigo; para que se reproduzam abundantemente na terra, frutifiquem e se multipliquem sobre a terra.
18 Então saiu Noé, e com ele seus filhos, sua mulher e as mulheres de seus filhos;
19 todo animal, todo réptil e toda ave, tudo o que se move sobre a terra, segundo as suas famílias, saiu da arca.
20 Edificou Noé um altar ao Senhor; e tomou de todo animal limpo e de toda ave limpa, e ofereceu holocaustos sobre o altar.
21 Sentiu o Senhor o suave cheiro e disse em seu coração: Não tornarei mais a amaldiçoar a terra por causa do homem; porque a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice; nem tornarei mais a ferir todo vivente, como acabo de fazer.
22 Enquanto a terra durar, não deixará de haver sementeira e ceifa, frio e calor, verão e inverno, dia e noite.”

Cinco meses exatos depois do início do dilúvio, a arca pousou sobre o monte Arará, onde fica atualmente a Armênia, no dia 17 do sétimo mês.
Foi somente 40 dias após o primeiro dia do décimo mês, que Noé soltou um corvo, por algum tempo, para verificar se havia terra seca na base e ao redor do monte Arará.
Depois soltou uma pomba por alguns dias, e num determinado dia, depois de ter esperado sete dias, soltou a pomba e ela retornou com um ramo de oliveira no bico.
Noé ainda esperou outros sete dias e soltou a pomba, e ela não mais retornou.
E assim, somente no dia primeiro do primeiro ano do ano 601, que as águas secaram sobre a terra.
Mas foi somente no dia 27 do segundo mês, que a terra estava seca, e foi quando Deus ordenou a Noé para sair da arca, isto é, um ano e 10 dias depois, desde que havia começado o dilúvio no dia 17 do segundo mês do ano 600.
Que admirável prova de paciência e de fé na tribulação que nos foi deixado por Noé.
Apesar de todas as dificuldades, do longo tempo de prova e trabalhos sob circunstâncias difíceis dentro da arca com todos aqueles animais, Noé não foi desapontado em sua esperança de salvação divinamente prometida a ele.
O mesmo se dá com a esperança de salvação de todos os que andam obedientemente a Cristo.
Eles guardam os mandamentos de Cristo e com isto provam a si mesmos que O amam de fato e que estão unidos a Ele, e assim, têm a certeza de que não serão frustrados em sua esperança de salvação.
Quando Noé saiu da arca, ele edificou um altar ao Senhor, e como havia sete pares de animais limpos na arca, ele ofereceu de todo animal limpo e de toda ave limpa holocaustos em sacrifício sobre aquele altar.
Tendo o sacrifício agradado ao Senhor, Ele fez a promessa de não tornar a amaldiçoar a terra por causa do homem, por causa da imaginação do coração do homem que é continuamente má, e nem tornaria mais a ferir todo vivente, como tinha feito, pois enquanto durasse a terra, não deixaria de existir, sementeira e ceifa, frio e calor, verão e inverno, dia e noite.   
Em primeiro lugar cabe destacar a importância que o sacrifício tem na revelação feita por Deus ao homem desde o princípio.
Ainda que fossem os sacrifícios de animais, uma figura do sacrifício de Jesus, estes foram usados abundantemente nos dias do Antigo Testamento, mesmo antes da lei de Moisés, como uma ilustração que sem o derramamento do sangue de Jesus não haveria qualquer remissão de pecadores, e nem estes poderiam jamais ser agradáveis a Deus.
O sacrifício cruento é central na reconciliação do pecador com Deus, para a sua aproximação e plena aceitação.
Sem esta justificação, purificação, remissão, substituição, expiação, que são exclusivamente mediante o sacrifício de Cristo, não haveria qualquer salvação e possibilidade de vida com Deus por parte dos pecadores.
Tão importante era o sacrifício, que mesmo em face da escassez de espécimes para garantir a continuidade da multiplicação de animais sobre a terra, Noé entendeu que deveria oferecer por fé, crendo que Deus era poderoso para preservar e multiplicar os animais que restassem, toda a sorte de animais limpos e de aves sobre o altar que construíra para apresentar os sacrifícios exigidos por Deus, para que os homens soubessem até que Cristo viesse, que necessitam do sacrifício expiatório e vicário, para que sejam aceitos por Deus.
E, o ter oferecido Noé somente animais limpos no altar, segundo o mandado de Deus, é muito instrutivo quanto ao fato de que a cobertura do pecado seria feita por alguém inteiramente santo, o que estava ilustrado na exigência da parte de Deus que fossem sacrificados somente aqueles animais que Ele havia designado como limpos, dentre aqueles que considerou imundos.  
Quando prometeu que nunca mais destruiria o mundo pelas águas do dilúvio, Deus demonstrou que não havia se arrependido de ter criado o homem, bem como não havia se arrependido de ter destruído toda a carne debaixo do céu, e também não afirmou que removeria as maldições proferidas por ocasião do pecado original de Adão e Eva, mas que não acrescentaria nenhuma maldição adicional àquela maldição, em razão dos pecados dos contemporâneos de Noé que o levou a destruí-los com o dilúvio. 
  Ao fazer a promessa maravilhosa que temos no final do capítulo oitavo de preservar a raça humana, nós temos diante de nós, uma afirmação da misericórdia e bondade divina, que está alegando que proveria uma graça abundante de tal forma em Cristo, e agora sabemos isto, pelo progresso da revelação, que não viria jamais a exterminar a humanidade em sua totalidade.
A promessa de misericórdia feita a Noé  em relação à humanidade pecadora foi marcada por Deus com um sinal visível (o arco-íris), conforme veremos no capítulo seguinte (9), como lembrança perpétua da aliança que ele fez com toda a humanidade através de Noé. Quão maravilhosa e profunda é a revelação do caráter bondoso e misericordioso do nosso Deus!
Ele quis mostrar que apesar de todos no mundo serem dignos da destruição imediata, por serem pecadores diante de um Deus inteiramente santo e justo, e como de fato são, pois o demonstrou de forma bem clara no dilúvio, no entanto, por ser também amor, misericórdia e longanimidade, partes essenciais do Seu caráter divino, Ele suporta os pecadores com infinita paciência, dando-lhes a oportunidade de se arrependerem; ainda que não possa desconsiderar o pecado, inocentar o culpado; em razão da Sua santidade e justiça.
Deus tem firmado a promessa de usar de misericórdia em relação aos pecadores, por saber que o pecado é algo ligado à natureza humana e que não pode ser destruído mediante juízos, e a não ser pelo derramar da graça nos corações que voluntariamente se consagram à sua atuação, regenerando o pecador, através do derramar do amor de Deus em seus corações pelo Espírito Santo.
A manifestação desta bondade, desta disponibilidade de graça salvadora, seria demonstrada ao despertar de cada manhã, trazendo a lembrança da promessa feita por Deus a Noé de que “enquanto a terra durar, não deixará de haver sementeira e ceifa, frio e calor, verão e inverno, dia e noite.”     



Gênesis 9

“1 Abençoou Deus a Noé e a seus filhos, e disse-lhes: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra.
2 Terão medo e pavor de vós todo animal da terra, toda ave do céu, tudo o que se move sobre a terra e todos os peixes do mar; nas vossas mãos são entregues.
3 Tudo quanto se move e vive vos servirá de mantimento, bem como a erva verde; tudo vos tenho dado.
4 A carne, porém, com sua vida, isto é, com seu sangue, não comereis.
5 Certamente requererei o vosso sangue, o sangue das vossas vidas; de todo animal o requererei; como também do homem, sim, da mão do irmão de cada um requererei a vida do homem.
6 Quem derramar sangue de homem, pelo homem terá o seu sangue derramado; porque Deus fez o homem à sua imagem.
7 Mas vós frutificai, e multiplicai-vos; povoai abundantemente a terra, e multiplicai-vos nela.
8 Disse também Deus a Noé, e a seus filhos com ele:
9 Eis que eu estabeleço o meu pacto convosco e com a vossa descendência depois de vós,
10 e com todo ser vivente que convosco está: com as aves, com o gado e com todo animal da terra; com todos os que saíram da arca, sim, com todo animal da terra.
11 Sim, estabeleço o meu pacto convosco; não será mais destruída toda a carne pelas águas do dilúvio; e não haverá mais dilúvio, para destruir a terra.
12 E disse Deus: Este é o sinal do pacto que firmo entre mim e vós e todo ser vivente que está convosco, por gerações perpétuas:
13 O meu arco tenho posto nas nuvens, e ele será por sinal de haver um pacto entre mim e a terra.
14 E acontecerá que, quando eu trouxer nuvens sobre a terra, e aparecer o arco nas nuvens,
15 então me lembrarei do meu pacto, que está entre mim e vós e todo ser vivente de toda a carne; e as águas não se tornarão mais em dilúvio para destruir toda a carne.
16 O arco estará nas nuvens, e olharei para ele a fim de me lembrar do pacto perpétuo entre Deus e todo ser vivente de toda a carne que está sobre a terra.
17 Disse Deus a Noé ainda: Esse é o sinal do pacto que tenho estabelecido entre mim e toda a carne que está sobre a terra.
18 Ora, os filhos de Noé, que saíram da arca, foram Sem, Cão e Jafé; e Cão é o pai de Canaã.
19 Estes três foram os filhos de Noé; e destes foi povoada toda a terra.
20 E começou Noé a cultivar a terra e plantou uma vinha.
21 Bebeu do vinho, e embriagou-se; e achava-se nu dentro da sua tenda.
22 E Cão, pai de Canaã, viu a nudez de seu pai, e o contou a seus dois irmãos que estavam fora.
23 Então tomaram Sem e Jafé uma capa, e puseram-na sobre os seus ombros, e andando virados para trás, cobriram a nudez de seu pai, tendo os rostos virados, de maneira que não viram a nudez de seu pai.
24 Despertado que foi Noé do seu vinho, soube o que seu filho mais moço lhe fizera;
25 e disse: Maldito seja Canaã; servo dos servos será de seus irmãos.
26 Disse mais: Bendito seja o Senhor, o Deus de Sem; e seja-lhe Canaã por servo.
27 Alargue Deus a Jafé, e habite Jafé nas tendas de Sem; e seja-lhe Canaã por servo.
28 Viveu Noé, depois do dilúvio, trezentos e cinqüenta anos.
29 E foram todos os dias de Noé novecentos e cinqüenta anos; e morreu.”

Deus abençoou a Noé e a seus filhos (v 1), isto é, Ele lhes assegurou de fazer o bem a eles, de protegê-los, de guardá-los em segurança. É exatamente isto que o Senhor faz em relação a todos os crentes que estão em Cristo Jesus.
Os olhos do Senhor repousam sobre os justos, e os seus ouvidos estão abertos às suas súplicas, mas o rosto do Senhor está contra aqueles que praticam males (I Pe 3.12).
Vemos este cuidado de Deus para com os justos, isto é, para aqueles que foram justificados pela fé em Seu Filho, e que praticam obras de justiça, dignas de arrependimento, declarado nas palavras de Jesus em Jo 17.11,12:
 “Pai santo, guarda-os em teu nome... Quando eu estava com eles, guardava-os no teu nome que me deste, e protegi-os, e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura.”
 É do mesmo modo que abençoa a todos os que creem em Cristo, que Deus abençoou a Noé e a seus filhos.
Abençoar significa: fazer e trazer o bem a; e a bênção de Deus para os seus filhos é especial, porque inclui o cuidado e proteção a que nos referimos anteriormente.
Assim, tendo Deus feito as prescrições deste capítulo em favor da manutenção da vida, naquele novo mundo que seria reconstruído a partir de Noé e seus filhos, Ele fez uma aliança com eles e com todos os que descenderiam deles, isto é, uma aliança com a humanidade em geral, em todas as gerações, de não mais destruir toda a carne pelas águas do dilúvio; e de que não haveria mais dilúvio, para destruir a terra.
Esta promessa significa em síntese, que haveria um grande aumento da população mundial, pelo desígnio de Deus; e que embora o mundo não seja um paraíso, no entanto, é ainda melhor do que nós merecemos.
Abençoado seja Deus, pois não é o inferno.
A aliança feita pelo Senhor para com os que habitam na terra, garante que por mais que se multiplique a iniquidade, a terra não seja como é o inferno.
Embora a morte não devesse reinar, o Senhor ainda seria conhecido pelos Seus julgamentos, contudo a terra nunca deveria ser novamente despovoada como foi no dilúvio, mas seria cheia tanto de homens quanto de animais (At 17.24-26).  
Provavelmente depois de ter construído uma casa para si e sua família, Noé plantou uma vinha, e talvez fosse este o seu ofício, antes de ter que paralisá-lo para se dedicar à construção da arca, como um carpinteiro.
Assim, depois do dilúvio, ele retornou às suas atividades normais e rotineiras, e não viveria de modo nenhum uma vida inativa, pois estava bem inteirado por Deus que a Sua bênção está associada ao trabalho para o qual se está vocacionado por Ele segundo os dons e talentos dele recebidos (I Cor 7.24).
Noé expôs o descuidado e não vigilante Cão, seu filho, a pecar, pois quando o viu nu e embriagado no interior da tenda, zombou do seu pai junto aos seus irmãos Sem e Jafé, que na ocasião agiram corretamente, guardando-se de não praticarem o mesmo pecado, e tomaram a iniciativa de cobrir a nudez do pai, para que não ficasse exposto à vergonha, e o fizeram com tal reverência, que tomaram uma capa e a colocaram sobre seus próprios ombros e andaram de costas, desviando o rosto, de modo a não verem a nudez do pai.
O que fez Deus através de Noé, depois que este despertou e se recuperou do seu vinho, e soube o que havia feito o seu filho mais moço?
Proferiu uma maldição sobre Canaã, um dos filhos de Cão, sujeitando-o à servidão de Sem e Jafé.
Os filhos de Cão foram Cuxe, Misraim, Pute e Canaã (10.6).
De Misraim descenderiam os egípcios, e todos sabemos o que sucedeu aos cananeus, descendentes de Canaã, que foram habitar exatamente na terra que Deus prometeu aos descendentes de Abraão, descendente de Sem, dando-se assim cumprimento à maldição proferida por Noé, quando foram de lá expulsos ou sujeitados a trabalhos forçados pelos israelitas, quando a terra foi conquistada nos dias de  Josué.
 Agora, o pecado do próprio Noé nos ensina que quando a Bíblia diz que ele era justo e íntegro entre os seus contemporâneos (Gên 6.9) isto se refere à sua sinceridade diante de Deus e não a uma perfeição sem pecado.
No maior dos santos sempre se achará alguma falta.
Ninguém pode ser perfeitamente sem pecado neste mundo, porque o pecado é algo ligado à natureza terrena, e deve ser continuamente mortificado, pois de outro modo sempre prevalecerá.
Todos aqueles que têm tido a resolução de vigiar, e que pela graça de Deus têm mantido a sua integridade em meio às tentações, às vezes, por descuido e negligência da graça de Deus, são surpreendidos em pecado, mesmo depois de ter cessado o tempo da sua provação, e de tudo terem vencido com o auxílio da graça de Cristo.
Por isso se ordena aos cristãos que estejam sempre vigilantes e vestidos da armadura de Deus, para que possam resistir no dia mau, e, depois de terem vencido tudo, permanecerem inabaláveis (Ef 6.13). E para isto, “orando em todo tempo no Espírito”, vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos (Ef 6.18).
Um aspecto importante a destacar na maldição de Canaã por causa do pecado de Cão, seu pai, é que ela se cumpriu somente cerca de oitocentos anos depois de ter sido proferida, quando os israelitas conquistaram a terra de Canaã.
O povo de Canaã foi amaldiçoado porque era tão ímpio quanto foram os seus ancestrais.
Deus jamais proferiria aquela maldição sobre um povo piedoso.
Cabe destacar que há uma precisão maravilhosa na profecia de Noé em relação a seus filhos, como não poderia deixar de ser, pois foram proferidas pelo próprio Deus. Em Gên 9.27 lemos:
 “Engrandeça Deus a Jafé, e habite ele nas tendas de Sem; e Canaã lhe seja servo.”
Esta profecia se aplica especialmente aos gregos e romanos que eram descendentes de Jafé.
As nações orientais são particularmente descendentes de Sem, e daí serem chamadas de semitas.
As nações ocidentais, particularmente da Europa, e Ásia, de Jafé.
Esta profecia aponta maravilhosamente para a conversão dos gentios (jafetistas) através da salvação que viria a partir dos judeus (semitas), e daí se dizer que eles habitariam nas tendas de Sem.
As tendas de Sem foram depositárias da revelação de Deus desde os dias de Abraão até os dias de Jesus e dos apóstolos, e foi nestas tendas que os gentios acharam a salvação. 
Jafé seria engrandecido, e isto indica domínio e prosperidade material, como de fato foi o caso dos gregos e dos romanos que habitaram nas tendas de Sem, também sendo os dominadores dos judeus, que foram tributários deles.
Mas não é esta a verdadeira e duradoura bênção, e por isso a bênção de Jafé não é tanto a de ser engrandecido por Deus para exercer domínio, mas a de estar unido como gentio aos judeus, pelo evangelho de Cristo, no qual é derrubada a barreira de separação que havia entre ambos (Ef 2.14,15).
E, mais maravilhoso ainda é o fato de que aqueles que viriam a se abrigar nas tendas de Sem seriam verdadeiramente grandes no sentido de que seriam mais numerosos como povo de Deus do que os próprios judeus, porque não padece dúvida que ao longo de toda a história da igreja, ela tem sido composta em muito  maior parte por gentios do que por judeus.
 Jafé seria aumentado por Deus, mas o sacerdócio seria dado a Sem, porque Deus decidiu e escolheu habitar nas tendas de Sem. Seria pela descendência de Sem que traria ao mundo Aquele que esmaga a cabeça da serpente.
Será no Monte Sião, em Jerusalém, que Jesus estabelecerá a sede do Seu governo sobre a terra no milênio, e será também na mesma posição ocupada atualmente por Jerusalém, que a Nova Jerusalém descerá sobre a nova terra que Deus criará depois do milênio.
Assim, é na tenda de Sem que Jafé habitará. Isto não é maravilhoso?  
É interessante observar que a profecia deixa Canaã, um dos filhos de Cão, totalmente descartado desta habitação nas tendas de Sem, que foi concedida a Jafé.
Dele se diz apenas que seria servo tanto de Sem quanto de Jafé.
De fato, os cananeus foram praticamente exterminados da face da terra porque eles não tinham parte no Senhor. Por isso se diz que bem-aventurada é a nação cujo Deus é o Senhor.  
Por isso estaremos mais contentes se nós tivermos Deus habitando em nossas tendas, do que possuir todo o ouro e toda a prata do mundo. É melhor morar em tendas com Deus do que em palácios sem Ele.




Repovoamento da Terra depois do Dilúvio  (Gênesis 10)


“1 Estas, pois, são as gerações dos filhos de Noé: Sem, Cão e Jafé, aos quais nasceram filhos depois do dilúvio.
2 Os filhos de Jafé: Gomer, Magogue, Madai, Javã, Tubal, Meseque e Tiras.
3 Os filhos de Gomer: Asquenaz, Rifate e Togarma.
4 Os filhos de Javã: Elisá, Társis, Quitim e Dodanim.
5 Por estes foram repartidas as ilhas das nações nas suas terras, cada qual segundo a sua língua, segundo as suas famílias, entre as suas nações.
6 Os filhos de Cão: Cuche, Mizraim, Pute e Canaã.
7 Os filhos de Cuche: Seba, Havilá, Sabtá, Raamá e Sabtecá; e os filhos de Raamá são Sebá e Dedã.
8 Cuche também gerou a Ninrode, o qual foi o primeiro a ser poderoso na terra.
9 Ele era poderoso caçador diante do Senhor; pelo que se diz: Como Ninrode, poderoso caçador diante do Senhor.
10 O princípio do seu reino foi Babel, Ereque, Acade e Calné, na terra de Sinar.
11 Desta mesma terra saiu ele para a Assíria e edificou Nínive, Reobote-Ir, Calá,
12 e Résem entre Nínive e Calá (esta é a grande cidade).
13 Mizraim gerou a Ludim, Anamim, Leabim, Naftuim,
14 Patrusim, Casluim (donde saíram os filisteus) e Caftorim.
15 Canaã gerou a Sidom, seu primogênito, e Hete,
16 e ao jebuseu, o amorreu, o girgaseu,
17 o heveu, o arqueu, o sineu,
18 o arvadeu, o zemareu e o hamateu. Depois se espalharam as famílias dos cananeus.
19 Foi o termo dos cananeus desde Sidom, em direção a Gerar, até Gaza; e daí em direção a Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim, até Lasa.
20 São esses os filhos de Cão segundo as suas famílias, segundo as suas línguas, em suas terras, em suas nações.
21 A Sem, que foi o pai de todos os filhos de Eber e irmão mais velho de Jafé, a ele também nasceram filhos.
22 Os filhos de Sem foram: Elão, Assur, Arfaxade, Lude e Arão.
23 Os filhos de Arão: Uz, Hul, Geter e Más.
24 Arfaxade gerou a Selá; e Selá gerou a Eber.
25 A Eber nasceram dois filhos: o nome de um foi Pelegue, porque nos seus dias foi dividida a terra; e o nome de seu irmão foi Joctã.
26 Joctã gerou a Almodá, Selefe, Hazarmavé, Jerá,
27 Hadorão, Usal, Dicla,
28 Obal, Abimael, Sebá,
29 Ofir, Havilá e Jobabe: todos esses foram filhos de Joctã.
30 E foi a sua habitação desde Messa até Sefar, montanha do oriente.
31 Esses são os filhos de Sem segundo as suas famílias, segundo as suas línguas, em suas terras, segundo as suas nações.
32 Essas são as famílias dos filhos de Noé segundo as suas gerações, em suas nações; e delas foram disseminadas as nações na terra depois do dilúvio.”

Este é o único registro correto sobre a existência e origem das primeiras nações, depois do dilúvio.
São apresentadas setenta cabeças de famílias dos quais procederam as nações. Todos eles descenderam dos três filhos de Noé, Sem, Cão e Jafé.  
Moisés começa com a família de Jafé, provavelmente porque ele era o primogênito, e apresenta posteriormente a descendência de Cão, que era formada em boa parte pelos inimigos de Israel, especialmente no que se refere aos povos formados a partir de Canaã, e finalmente registra a descendência de Sem que foi o antepassado de Israel.
No capítulo décimo primeiro é apresentada uma genealogia mais detalhada de Arfaxade, um dos filhos de Sem, porque seria nele que seria chamada a descendência de Abraão, que foi chamado por Deus para a formação da nação de Israel, e a quem foi feita a promessa da Nova Aliança. 
E é feito um destaque especial a Heber, que era Neto de Sem, pois era filho de Selá, que era filho de Arfaxade, filho de Sem.
Este Heber é um personagem importante na história dos israelitas, pois a palavra hebreu, incluindo aí a língua falada primitivamente pelos israelitas, é originado de Heber.
Assim é dado um destaque especial a ele dizendo-se que Sem foi o pai de todos os filhos de Heber.    
Além de Canaã, Cão, filho de Noé, gerou a Mizraim, Pute e Cuche.
Este Cuche gerou além de outros filhos, a Ninrode, que foi o fundador da cidade de Nínive, capital da Assíria, e que havia principiado o seu reino em Babel, a cidade onde Deus confundiu as línguas dos homens, agilizando e precipitando com isto, a formação das nações.
Diz-se de Ninrode que foi poderoso na terra, e observe que ele é filho de Cão, mas não na linhagem de Canaã, que foi amaldiçoado.
Ele é filho de Cuche, outro dos quatro filhos de Cão.
Deste Ninrode se diz que começou o seu reino em Babel, Ereque, Acade e Calné, na terra de Sinar. Observe que são quatro cidades sobre as quais ele reinou no princípio.
Ele expandiu os termos do seu reinado partindo para a Assíria, onde edificou Nínive, Reobote-Ir, Calá, e Résem que foi uma grande cidade que ficava entre Nínive e Calá.
São citadas assim oito cidades sobre as quais ele governou.
Tendo iniciado, como vimos antes, o seu reinado entre aqueles que estavam em Babel, e que tinham por propósito permanecer na região que teria o topo da torre que estavam edificando como referencial, para não se espalharem pela terra, e com isto estariam frustrando o plano de Deus de que toda a terra fosse habitada pelo homem. 
Naquela ocasião isto era facilitado pelo fato de todos falarem a mesma língua.
Se havia mais de uma língua na terra antes do dilúvio, a partir deste, é bem provável que a língua que passou a ser falada em toda a terra era a mesma que era falada pela família de Noé.
Era Ninrode, como vimos, quem fundou Babel e governava sobre eles quando Deus, por ato miraculoso e extraordinário fez com que grupos e grupos falassem um idioma diferente, de modo que não podiam mais se comunicar mutuamente, e todos já não podiam mais entender e por conseguinte acatar as ordens do governador.
É bem provável que tenha sido este o motivo de Ninrode ter se dirigido para outras terras para  fundar novos reinos com aqueles que passaram a falar o mesmo e novo idioma que ele começou a falar.
Isto indica que Deus é poderoso para dar a quem quer, ou que lhe peça, uma facilidade especial para pensar e falar outras línguas, além da sua língua materna.         
Dos filisteus, se diz que eram descendentes de Casluim, um dos filhos de Mizraim, também filho de Cão, do qual procederam também os egípcios, a partir de um outro de seus filhos.
São citados todos os povos cananeus, que descenderam de Canaã, citando-se inclusive os sidôneos, e os habitantes de Sodoma e Gomorra entre eles, como os termos da sua habitação.
Assim é citado que de Canaã foram formados os sidôneos, os heteus, os jebuseus, os amorreus, os girgaseus, os heveus, os arqueus, os sineus, os arvadeus, os zemareus e os hamateus.
Todas estas nações seriam subjugadas por Israel, em razão do crescente aumento da iniquidade delas desde os dias de Abraão, conforme o Senhor havia declarado que ainda não estava completa a medida da iniquidade dos amorreus nos dias de Abraão.
E, que a nação de Israel permaneceria no cativeiro no Egito até que fosse completada tal medida, e isto se deu nos dias de Moisés.   
A terra dos cananeus, de contaminada pelo pecado que era, viria a ser a terra santa, a terra de Emanuel (Deus conosco) pois foi lá que o Senhor Jesus viveu e realizou o seu ministério e obra, conforme predito pelos profetas.
  Estas genealogias comprovam a certeza histórica do dilúvio, pois que dão conta que de fato foi a partir dos três filhos de Noé que se formaram todas as nações da terra, e o Senhor Deus que tudo sabe e conhece, até o número de fios de cabelos das cabeças de seus filhos, deu o relato fiel da origem das nações a partir dos filhos de Noé para ficar registrado, principalmente como testemunho de que ele havia destruído o mundo antigo, e repovoado a terra a partir daqueles três filhos de Noé.
É principalmente isto que a revelação sobre a formação destes povos tem em vista.




Repovoamento da Terra Depois do Dilúvio (Gênesis 11)


“1 Ora, toda a terra tinha uma só língua e um só idioma.
2 E deslocando-se os homens para o oriente, acharam um vale na terra de Sinar; e ali habitaram.
3 Disseram uns aos outros: Eia pois, façamos tijolos, e queimemo-los bem. Os tijolos lhes serviram de pedras e o betume de argamassa.
4 Disseram mais: Eia, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo cume toque no céu, e façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra.
5 Então desceu o Senhor para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens edificavam;
6 e disse: Eis que o povo é um e todos têm uma só língua; e isto é o que começam a fazer; agora não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer.
7 Eia, desçamos, e confundamos ali a sua linguagem, para que não entenda um a língua do outro.
8 Assim o Senhor os espalhou dali sobre a face de toda a terra; e cessaram de edificar a cidade.
9 Por isso se chamou o seu nome Babel, porquanto ali confundiu o Senhor a linguagem de toda a terra, e dali o Senhor os espalhou sobre a face de toda a terra.
10 Estas são as gerações de Sem. Tinha ele cem anos, quando gerou a Arfaxade, dois anos depois do dilúvio.
11 E viveu Sem, depois que gerou a Arfaxade, quinhentos anos; e gerou filhos e filhas.
12 Arfaxade viveu trinta e cinco anos, e gerou a Selá.
13 Viveu Arfaxade, depois que gerou a Selá, quatrocentos e três anos; e gerou filhos e filhas.
14 Selá viveu trinta anos, e gerou a Eber.
15 Viveu Selá, depois que gerou a Eber, quatrocentos e três anos; e gerou filhos e filhas.
16 Eber viveu trinta e quatro anos, e gerou a Pelegue.
17 Viveu Eber, depois que gerou a Pelegue, quatrocentos e trinta anos; e gerou filhos e filhas.
18 Pelegue viveu trinta anos, e gerou a Reú.
19 Viveu Pelegue, depois que gerou a Reú, duzentos e nove anos; e gerou filhos e filhas.
20 Reú viveu trinta e dois anos, e gerou a Serugue.
21 Viveu Reú, depois que gerou a Serugue, duzentos e sete anos; e gerou filhos e filhas.
22 Serugue viveu trinta anos, e gerou a Naor.
23 Viveu Serugue, depois que gerou a Naor, duzentos anos; e gerou filhos e filhas.
24 Naor viveu vinte e nove anos, e gerou a Tera.
25 Viveu Naor, depois que gerou a Tera, cento e dezenove anos; e gerou filhos e filhas.
26 Tera viveu setenta anos, e gerou a Abrão, a Naor e a Harã.
27 Estas são as gerações de Tera: Tera gerou a Abrão, a Naor e a Harã; e Harã gerou a Ló.
28 Harã morreu antes de seu pai Tera, na terra do seu nascimento, em Ur dos Caldeus.
29 Abrão e Naor tomaram mulheres para si: o nome da mulher de Abrão era Sarai, e o nome da mulher do Naor era Milca, filha de Harã, que foi pai de Milca e de Iscá.
30 Sarai era estéril; não tinha filhos.
31 Tomou Tera a Abrão seu filho, e a Ló filho de Harã, filho de seu filho, e a Sarai sua nora, mulher de seu filho Abrão, e saiu com eles de Ur dos Caldeus, a fim de ir para a terra de Canaã; e vieram até Harã, e ali habitaram.
32 Foram os dias de Tera duzentos e cinco anos; e morreu Tera em Harã.”

No texto que relata o modo como Deus espalhou os primeiros descendentes dos filhos de Noé, por toda a terra se destaca que o fato de falarem uma só língua contribuía para que todos ficassem debaixo do mesmo governo, e pelo que vimos anteriormente, este governo não estava debaixo de uma pessoa piedosa e temente ao Senhor, pois se fizera poderoso na terra pela ambição de ampliar o seu governo, tendo chegado a fundar e governar oito cidades; este Ninrode que era neto de Cão, o filho de Noé que não trazia consigo a promessa da bênção de Deus.
Aquele primeiro grupo da humanidade que havia se formado depois do dilúvio caminhou para o Oriente em busca de um local amplo para abrigar a todos eles, e onde pudessem se fixar permanentemente.
Eles acharam um lugar espaçoso muito conveniente para se instalarem (v. 2), uma planície na terra de Sinear, uma planície espaçosa, que ficava num vale que era capaz de abrigar a todos, provavelmente com uma terra fértil e frutífera. A ordem de Deus para Noé e seus filhos era:
“Sede fecundos, multiplicai-vos, e enchei a terra.” (9.1)
Este “enchei a terra” era uma ordem para que se espalhassem pela superfície do globo, e não que intentassem se fixar numa determinada região.
Esta era uma medida preventiva para que não ocorresse toda a corrupção do gênero humano, por estarem todos debaixo da mesma influência, tal como ocorreu antes do dilúvio, quando os homens de Deus começaram a fazer casamentos mistos com mulheres de famílias ímpias, e o temor a Deus e a obediência aos Seus mandamentos foram perdidos.
Então o Senhor agiu preventivamente ordenando que se espalhassem, de modo a se garantir que houvesse sempre a existência de um testemunho fiel na face da terra ao longo das sucessivas gerações.      
É importante saber que o Velho Testamento não está escrito em rigorosa ordem cronológica, e assim temos no capítulo 10 o registro de coisas que são posteriores ao episódio de Babel narrado no capítulo 11.
Veja que é dito em 10.5,20, 31, em relação aos descendentes de Jafé, Cão e Sem, como uma nota comum, que eram segundo suas famílias, segundo as suas línguas, em suas terras, em suas nações.
Isto ocorreu obviamente depois do episódio de Babel, pois até então se falava uma única língua em toda a terra.
Havia uma promessa de graça da parte do Senhor, de não mais destruir toda a humanidade, e assim, Ele estava intervindo, para poder garantir o cumprimento de tal promessa.
Aquela era então uma medida de julgamento, mas ao mesmo tempo de proteção da humanidade e da garantia da sua perpetuação sobre a face da terra.
Aqui encerramos o nosso comentário sobre a primeira parte de Gên 11 que se refere ao episódio de Babel. Veremos agora, brevemente, a segunda parte deste capítulo que trata da genealogia de Sem até Abraão (11.10-32). 
Antes de tudo, observe como houve uma diminuição gradual nos anos de vida dos homens a partir do dilúvio:
Sem -    viveu 600 anos
Arfaxade –    438
Selá -    433
Heber - 464
Pelegue -      239
Réu -     239
Serugue -     230
Naor -    148
Terá -    205
Abraão - 175 (Gên 25.7)   
Quando a população da terra começou a aumentar, os anos de vida dos homens foram encurtados. Parece que aqueles muitos anos de vida dos primeiros homens tinham em vista garantir a perpetuidade da humanidade.
Agora, com um grande aumento populacional, a garantia da preservação da raça não dependeria mais de se manter um período tão extenso de anos de vida num mundo sujeito ao pecado.
A vida seria marcada para eles, especialmente para os que não tinham o temor de Deus, como puro enfado e canseira.
Foi, portanto a misericórdia do Senhor que abreviou o número de anos de vida sobre a terra.
Com isto nos ensina também que há também uma morada infinita melhor para aqueles que O amam, do que a terra em que vivemos.
A longevidade na terra é apontada por Deus como um sinal da sua bênção, mas Ele, em sua sabedoria, põe limites a esta longevidade, de modo que aquilo que está destinado a ser uma bênção não se transforme, ainda que não numa maldição, mas num grande fardo para ser carregado. 
É em Gên 11 que começa a história de Abraão, cujo nome é famoso em ambos os Testamentos, e que é uma pessoa importante na revelação bíblica.
Ele era habitante de Ur dos Caldeus (11.31), que havia se tornado numa nação idólatra, apesar de serem descendentes de Heber.
Eles haviam se corrompido em seus caminhos. O próprio pai de Abraão, Terá, havia servido a outros deuses (Jos 24.2).
Gên 11.26 diz que Terá tinha 75 anos quando gerou Abraão, Naor e Harã.
Pelo contexto bíblico, sabemos que não eram trigêmeos.
E assim, a citação de 75 anos se refere provavelmente à idade com que começou a gerar seus filhos.
Tudo indica que Abraão não era o mais velho deles, pois quando foi chamado pelo Senhor tinha também 75 anos quando partiu de Harã (Gên 12.4), local onde havia morrido seu pai Terá (11.32) depois de ter partido de Ur para lá, com Abraão, Ló, e Sarai, esposa de Abraão (11.31).
É provável que Terá tenha se enfraquecido e ficado enfermo com a longa viagem até Harã, e ter sido impedido, em face da sua idade avançada, de prosseguir a viagem rumo a Canaã.
 Muitos admitem a hipótese de que ele havia se convertido ao Senhor, quando partiu de Ur, e sob a ordem de Deus para ir para Canaã, mas isto não passa de uma possibilidade, porque nada se diz no texto bíblico quanto a isto.
Harã, um dos irmãos de Abraão, que era pai de Ló, morreu em Ur dos caldeus, sua terra natal, enquanto seu pai Terá ainda vivia (At 11.28).
Foi na família de Naor, outro irmão de Abraão, que Isaque e Jacó, filho e neto de Abraão, respectivamente, se proveriam de esposas no futuro.
Estes descendentes de Naor habitavam em Pada-Arã (Gên 31.18), na Mesopotâmia (Gên 24.10), região entre os rios Tigre e Eufrates, ao Norte da cidade de Ur dos caldeus



Gênesis 12

A Chamada de Abraão

“1 Ora, o Senhor disse a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela, e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei.
2 Eu farei de ti uma grande nação; abençoar-te-ei, e engrandecerei o teu nome; e tu, sê uma bênção.
3 Abençoarei aos que te abençoarem, e amaldiçoarei àquele que te amaldiçoar; e em ti serão benditas todas as famílias da terra.
4 Partiu, pois Abrão, como o Senhor lhe ordenara, e Ló foi com ele. Tinha Abrão setenta e cinco anos quando saiu de Harã.
5 Abrão levou consigo a Sarai, sua mulher, e a Ló, filho de seu irmão, e todos os bens que haviam adquirido, e as almas que lhes acresceram em Harã; e saíram a fim de irem à terra de Canaã; e à terra de Canaã chegaram.
6 Passou Abrão pela terra até o lugar de Siquém, até o carvalho de Moré. Nesse tempo estavam os cananeus na terra.
7 Apareceu, porém, o Senhor a Abrão, e disse: À tua semente darei esta terra. Abrão, pois, edificou ali um altar ao Senhor, que lhe aparecera.
8 Então passou dali para o monte ao oriente de Betel, e armou a sua tenda, ficando-lhe Betel ao ocidente, e Ai ao oriente; também ali edificou um altar ao Senhor, e invocou o nome do Senhor.
9 Depois continuou Abrão o seu caminho, seguindo ainda para o sul.
10 Ora, havia fome naquela terra; Abrão, pois, desceu ao Egito, para peregrinar ali, porquanto era grande a fome na terra.
11 Quando ele estava prestes a entrar no Egito, disse a Sarai, sua mulher: Ora, bem sei que és mulher formosa à vista;
12 e acontecerá que, quando os egípcios te virem, dirão: Esta é mulher dele. E me matarão a mim, mas a ti te guardarão em vida.
13 Dize, peço-te, que és minha irmã, para que me vá bem por tua causa, e que viva a minha alma em atenção a ti.
14 E aconteceu que, entrando Abrão no Egito, viram os egípcios que a mulher era mui formosa.
15 Até os príncipes de Faraó a viram e gabaram-na diante dele; e foi levada a mulher para a casa de Faraó.
16 E ele tratou bem a Abrão por causa dela; e este veio a ter ovelhas, bois e jumentos, servos e servas, jumentas e camelos.
17 Feriu, porém, o Senhor a Faraó e a sua casa com grandes pragas, por causa de Sarai, mulher de Abrão.
18 Então chamou Faraó a Abrão, e disse: Que é isto que me fizeste? Por que não me disseste que ela era tua mulher?
19 Por que disseste: E minha irmã? de maneira que a tomei para ser minha mulher. Agora, pois, eis aqui tua mulher; toma-a e vai-te.
20 E Faraó deu ordens aos seus guardas a respeito dele, os quais o despediram a ele, e a sua mulher, e a tudo o que tinha.”

Abraão foi constituído por Deus pai de numerosas nações, portanto não somente de Israel, mas inclusive de nações estrangeiras, porque todos os que são nascidos de novo pela sua fé em Cristo, são considerados por Deus como filhos de Abraão, a quem ele fez a promessa da Nova Aliança, e pelo fato de Jesus ter descendido de Abraão, conforme planejado por Deus;  através desta Nova Aliança pessoas de todas as nações seriam abençoadas por estarem unidas ao descendente de Abraão, segundo a carne, que é Cristo (Gên 17.4,5; Rom 4.16,17).
Com a chamada de Abraão, Deus vai usar a estratégia de formar a sua própria nação entre as nações.
Uma nação para viver segundo a Sua vontade, separada das demais nações da terra, de modo que pudesse se revelar através desta nação, até que Jesus viesse, e o Espírito fosse derramado em todas as nações, provendo-se assim o Senhor de um povo exclusivamente seu; zeloso de boas obras, em todas as nações da terra.
Abraão não é somente um exemplo de homem de fé, mas também um testemunho de boas obras, e isto foi registrado pelo apóstolo Tiago em sua epístola (Tg 2.22), e o próprio Senhor Jesus ensinou que os verdadeiros filhos de Abraão são aqueles que fazem as obras de Abraão (Jo 8.39).
Ele é pois dado a nós não somente como exemplo de fé, mas também como exemplo de quem praticou as boas obras que Deus preparou de antemão para serem praticadas por todos os seus filhos (Ef 2.10). 
Nós vimos nos últimos versículos do décimo primeiro capítulo de Gênesis que o pai de Abraão, Terá, havia saído juntamente com ele, Sara e Ló, de Ur dos caldeus, em direção à terra de Canaã, e tendo ficado em Harã, Terá veio a falecer naquela terra, e quando a narrativa é reiniciada no décimo segundo capítulo, logo no primeiro versículo nós lemos: o seguinte: “Ora, disse o Senhor a Abraão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, e vai para a terra que te mostrarei;”
Nos versículo seguintes (v. 2 e 3) é declarado por Deus, o propósito desta chamada:
“de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção: abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra.”
 Quando Deus disse a Abraão: “Sê tu uma bênção”, Ele estava incentivando o patriarca a corresponder ao nível da sua chamada, porque a graça do Senhor se estenderia para além da sua pessoa e abençoaria a muitos sobre a face da terra, em todas as gerações depois dele, e especialmente depois que se manifestasse o Seu descendente (Jesus) no qual seriam abençoadas todas as nações da terra.
Assim, todos aqueles que abençoassem a Abraão, isto é, que reconhecessem nele o significado da sua vocação e a bênção que foi trazida a eles por meio dele, porque seria dele que descenderia o Cristo, e a nação de Israel através da qual Deus revelou a Sua vontade e os Seus mandamentos ao mundo, seriam também abençoados com a mesma bênção que o Senhor o abençoou, a saber, a bênção da justificação que traz a salvação eterna.
De igual modo seriam amaldiçoados por Deus todos aqueles que amaldiçoassem Abraão, porque é somente no descendente dele que está a bênção, e assim, quem amaldiçoasse a Abraão estaria amaldiçoando o Deus de Abraão, por conseguinte rejeitando a Sua bênção, ficando sujeito à maldição eternamente.
Assim é o próprio Deus, o próprio Cristo, o Espírito Santo, quem abençoa e não propriamente Abraão.
Em Gên 12.7 lemos que Deus apareceu a Abraão quando chegou a Canaã, e lhe fez a promessa de dar aquela terra à sua descendência.
Isto é de grande importância para vermos o amor e a obediência de Abraão a Deus, porque, não tendo filhos, recebeu a promessa de que aquela terra seria dada à sua descendência, e não a ele mesmo.
Abraão não estava buscando, portanto o que era da sua própria vontade, mas o que era da vontade de Deus. 
Abraão revelou a Sua obediência a Deus desde o princípio, quando obedeceu ao Seu mandamento de deixar a sua parentela e a terra dos seus pais, e ir para uma terra que lhe seria mostrada pelo Senhor.
Ele sabia que teria o encargo de ordenar não apenas a própria vida, mas toda a sua casa, tanto descendentes quanto servos, de modo que vivessem segundo os preceitos de Deus (Gên 18.17-19).  
Ao atravessar a terra de Siquém, chegando ao carvalho de More, em Canaã (12.6), depois que o Senhor fez a promessa de dar aquela terra à sua descendência, a primeira coisa que Abraão fez foi edificar um altar ao Senhor.
Prosseguindo sua jornada edificou outro altar ao oriente de Betel, e ali invocou o nome do Senhor (Gên 12.8).
Aonde quer que Abraão ia, ele sempre mantinha a adoração a Deus em sua família.
Ele havia enriquecido e tinha muitos servos, mas a sua confiança não estava nos seus bens e no braço de carne, mas no Deus que lhe havia chamado e lhe fizera a promessa de lhe engrandecer o nome e de abençoar a muitos por causa da sua obediência.
 Nisto Abraão é um tipo de Cristo; de quem por causa da sua obediência perfeita a Deus e à sua lei, somos justificados (Rom 5.19).
Ninguém pode ser verdadeiramente uma bênção para outras pessoas se não viver de modo obediente à vontade de Deus, tornando-se assim um exemplo vivo para ser seguido.
No caso de nosso Senhor Jesus Cristo, não temos apenas o legado do exemplo deixado por Sua obediência, mas os benefícios decorrentes dela, porque é exclusivamente por meio da Sua perfeita obediência que somos justificados pela graça, mediante a fé. Pois Aquele que não conheceu pecado foi feito pecado por nós. 
Quando Abraão se dirigia em direção ao Neguebe houve grande fome na terra, e por isso Abraão se dirigiu ao Egito (12.9,10).
Ele fez um ajuste com Sara para que dissesse quando chegassem ao Egito, que era sua irmã e omitisse que era sua esposa, de modo a ter sua vida poupada caso fosse cobiçada pelo faraó, uma vez que a lei antiga entre eles permitia que a mulher de alguém fosse dada a um homem poderoso, desde que fosse morto o marido, de modo que este não vivesse corroído pelo ciúme.
Aquela grande fome que estava havendo na terra, provavelmente em razão da visitação da iniquidade dos cananitas, estava colocando duramente à prova a fé de Abraão.
Outro, em seu lugar teria pensado e se deixado dominar pelo seguinte pensamento: “Deus me tirou da minha terra para me matar de fome neste lugar estranho?”.
Somente alguém com uma fé forte como a de Abraão, prosseguiria adiante, confiando em Deus, sem duvidar de Suas promessas, e tendo bons pensamentos acerca de Deus, debaixo de uma prova como aquela.      
A terra em que Abraão deveria peregrinar não era o Egito, mas como ocorre ainda hoje, muitas vezes a nossa missão sofre interrupções em razão das dificuldades que enfrentamos neste mundo, e que têm em vista, no propósito geral de Deus em relação a nós, provar nossa fé e fortalecê-la de modo a nos preparar para obras maiores e melhores.
É possível estar a serviço do Senhor, e ainda assim estar debaixo de grandes dificuldades e aflições.
Na promessa feita através de Noé que enquanto durar a terra não deixará de haver sementeira e ceifa, frio e calor, verão e inverno, dia e noite (Gên 8.22), é prometida a alegria da ceifa, mas esta será antecedida pelas lágrimas da semeadura; haverá o calor do zelo e fervor na obra de Deus e dos grandes progressos e sucessos que a acompanharão, mas haverá também o frio e o inverno que muitas vezes surgem com desânimos, desapontamentos, lutas, tristezas e perseguições.
Tudo isto está misturado na vida daqueles que servem ao Senhor. Não há de se ver aquela alegria pura e permanente com a qual tanto sonhamos, porque os espinhos na carne estão cooperando para nos manter humildes diante do Senhor, e a refinar a nossa fé e caráter.
Entretanto, nunca somos desamparados pelo Senhor (II Cor 4.8,9), de modo que somos consolados e assistidos por Ele em nossas aflições.
Ele sempre preparará para nós um lugar de refúgio, de escape, conforme a Sua infinita sabedoria, provisão e poder.
Ele provê para nós outra condição, enquanto aquela em que deveríamos estar não possa nos suprir, assim como o Egito estava para Abraão em relação a Canaã.
O fato de ter estado Abraão no Egito deu ao Senhor a oportunidade de manifestar naquela terra o Seu poder, trazendo juízos sob a forma de grandes pragas, sobre faraó e sua casa, em razão de ter tomado a Sara para si para ser sua mulher.
Por causa de Sara, antes de Deus ter-lhe enviado pragas, faraó tratou bem a Abraão que enriqueceu ainda mais no Egito, vindo a ter ovelhas, bois, jumentos, escravos e escravas, jumentas e camelos.
Indo para o Egito Abraão mostrou qual era a sua maturidade e a qualidade da sua dependência de Deus, pois não esperou por milagres desnecessários para ser provido em Canaã, sabendo que havia provisões suficientes no Egito, e logo levantou acampamento e se dirigiu para lá.
Mas, vemos que mesmo no Egito Abraão dependeu da intervenção sobrenatural do Senhor para livrar Sara de faraó, que a havia tomado para ser sua mulher.
Quanto ao fato de ter abençoado e cuidado de Abraão, Deus não estava honrando a omissão dele em não ter dito toda a verdade a faraó, mas agindo com base na Sua pura graça e misericórdia, cuidando daquele que estava a Seu serviço. 
Sara era de fato meio irmã de Abraão, filha de Terá com outra mulher, que não era a mãe de Abraão (Gên 20.12). 


Gênesis 13

“1 Subiu, pois, Abrão do Egito para o Negebe, levando sua mulher e tudo o que tinha, e Ló o acompanhava.
2 Abrão era muito rico em gado, em prata e em ouro.
3 Nas suas jornadas subiu do Negebe para Betel, até o lugar onde outrora estivera a sua tenda, entre Betel e Ai,
4 até o lugar do altar, que dantes ali fizera; e ali invocou Abrão o nome do Senhor.
5 E também Ló, que ia com Abrão, tinha rebanhos, gado e tendas.
6 Ora, a terra não podia sustentá-los, para eles habitarem juntos; porque os seus bens eram muitos; de modo que não podiam habitar juntos.
7 Pelo que houve contenda entre os pastores do gado de Abrão, e os pastores do gado de Ló. E nesse tempo os cananeus e os perizeus habitavam na terra.
8 Disse, pois, Abrão a Ló: Ora, não haja contenda entre mim e ti, e entre os meus pastores e os teus pastores, porque somos irmãos.
9 Porventura não está toda a terra diante de ti? Rogo-te que te apartes de mim. Se tu escolheres a esquerda, irei para a direita; e se a direita escolheres, irei eu para a esquerda.
10 Então Ló levantou os olhos, e viu toda a planície do Jordão, que era toda bem regada (antes de haver o Senhor destruído Sodoma e Gomorra), e era como o jardim do Senhor, como a terra do Egito, até chegar a Zoar.
11 E Ló escolheu para si toda a planície do Jordão, e partiu para o oriente; assim se apartaram um do outro.
12 Habitou Abrão na terra de Canaã, e Ló habitou nas cidades da planície, e foi armando as suas tendas até chegar a Sodoma.
13 Ora, os homens de Sodoma eram maus e grandes pecadores contra o Senhor.
14 E disse o Senhor a Abrão, depois que Ló se apartou dele: Levanta agora os olhos, e olha desde o lugar onde estás, para o norte, para o sul, para o oriente e para o oriente;
15 porque toda esta terra que vês, te hei de dar a ti, e à tua descendência, para sempre.
16 E farei a tua descendência como o pó da terra; de maneira que se puder ser contado o pó da terra, então também poderá ser contada a tua descendência.
17 Levanta-te, percorre esta terra, no seu comprimento e na sua largura; porque a darei a ti.
18 Então mudou Abrão as suas tendas, e foi habitar junto dos carvalhos de Manre, em Hebrom; e ali edificou um altar ao Senhor.”

Neste capítulo é relatado o retorno de Abraão do Egito para Canaã.
Abraão era muito rico em bens deste mundo, mas era muito mais rico para com Deus, através da sua grande fé e obediência.
Por isso, ao retornar se dirigiu para o local entre Ai e Betel, onde havia erigido um altar ao Senhor antes de ir para o Egito, e ali ele invocou o nome do Senhor. 
Certamente ele veio para o lugar do altar, para reavivar a recordação da doce comunhão que ele tinha tido com Deus naquele lugar.
Foi nesta ocasião que Ló se separou de Abraão.
E aqueles dois grandes homens que eram amigos inseparáveis, tiveram que seguir caminhos diferentes em razão de não poderem habitar na mesma região, em razão de ter aumentado muito os seus rebanhos, e estava havendo discussão entre os seus pastores, provavelmente em razão do uso do pasto para a alimentação do gado.
Assim os seus próprios servos foram os pivôs da separação deles, no intuito de agradarem aos seus respectivos senhores procurando as melhores áreas de pasto.  
É melhor preservar a paz do que quebrá-la; e Abraão tomou a iniciativa de extinguir o fogo das desavenças propondo a Ló que escolhesse o lugar em que pretendia se fixar, para que ele, Abraão, se dirigisse na direção contrária.
Abraão, ao se esforçar pela paz, estava agindo dentro da vontade de Deus, que nos determina no que depender de nós que tenhamos paz com todos os homens, e que nos empenhemos em alcançar a paz.
Por isso Jesus diz que os pacificadores são bem-aventurados.
Não é agradável ao Senhor que os seus servos vivam a contender (Lc 22.26; I Cor 11.16).
Embora Deus tivesse prometido a Abraão dar-lhe toda aquela terra à sua descendência, e não tivesse falado nada em relação a fazer qualquer partilha mesmo com o justo Ló, Abraão não argumentou ao nível de fazer prevalecer os seus direitos, para não sacrificar a paz que lhe era muito preciosa.
Ló escolheu o melhor lugar para o seu gado, pois era uma planície verdejante que ia dar em Sodoma, e foi mudando de lugar, provavelmente, à medida que o pasto ia se esgotando, até que chegou à cidade de Sodoma.
Assim, aquilo que era bom para o gado, não era o melhor para uma família, pois Ló seria o único justo que viria a habitar naquela cidade.
A Palavra destaca que os habitantes de Sodoma eram homens maus e grandes pecadores contra o Senhor.
Abraão não escolheu segundo a vista, mas segundo a obediência ao Senhor, pois permaneceu na terra de Canaã, onde Deus lhe ordenara a ficar.
É possível que os pastos não fossem tão verdejantes como os de Sodoma, mas era o melhor lugar para ele e para sua família, pois não fora escolhido pelo homem, e pelos critérios do homem, mas por  Deus e pelos critérios de Deus.
Assim o Senhor apareceu a Abraão e confirmou a promessa de dar à sua descendência toda aquela terra, e por isso lhe ordenou que  a percorresse em toda a sua extensão, tanto no sentido norte-sul, quanto no sentido leste- oeste.
Abraão reiniciou suas peregrinações na terra, chegando junto a Hebrom, onde levantou um altar ao Senhor.     
Quanto à escolha de Ló é importante frisar ainda que a Palavra destaca em Gên 14.11,12 que os seus bens haviam sido tomados pelos reis que guerrearam contra Sodoma, e ficamos também a imaginar quanto do seu rebanho Ló pôde levar consigo quanto teve que deixar a cidade às pressas para não ser destruído juntamente com os seus moradores quando o Senhor a incendiou.
Se ele tinha a idéia de se fazer ainda mais próspero quando fez aquela sua escolha, sem consultar ao Senhor, pensando que estava fazendo um grande negócio quando escolheu o melhor pasto para o seu rebanho, o tempo viria a revelar que aquela tinha sido uma péssima escolha, e há aí um grande ensinamento para todos os filhos de Deus, e eu penso que é exatamente isto que a Palavra quer destacar quando registrou propositalmente que os bens de Ló haviam sido capturados, e que ele era ainda um dos habitantes da cidade ao tempo que o Senhor decidiu trazer a destruição sobre ela.
Cabe destacar que a escolha de Abraão o tornou ainda mais próspero, pois chegou a reunir trezentos e dezoito homens dentre os mais capazes nascidos em sua casa, que lhe serviam, e aliando-se a Manre, Escol e Aner, deram contra as forças coligadas que haviam vencido a Sodoma, e a tudo resgataram de volta, inclusive a Ló e seus bens.
A bondade de Deus permitiu que Ló fosse resgatado por seu tio, apesar de o próprio Ló ter dado ensejo àquela situação quando decidiu morar com aqueles que eram grandes pecadores contra o Senhor, considerando que isto era um fato pouco relevante, à face de toda a prosperidade material que poderia obter junto deles.
É melhor ser pobre e habitar junto aos santos, do que ser rico e morar nas tendas da perversidade.    
É importante destacar as palavras proferidas pelo Senhor a respeito de Sodoma, em Ezequiel 16.49,50:
“Eis que esta foi a iniquidade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão e próspera tranqüilidade teve ela e suas filhas; mas nunca amparou o pobre e o necessitado. Foram arrogantes e fizeram abominações diante de mim; pelo que, em vendo isto, as removi dali.”
 Entretanto Ló conseguiu manter-se íntegro entre eles, mas viveu em constante aflição em sua alma em face de toda aquela maldade que o rodeava.
Disto, Pedro dá testemunho em sua segunda epístola:
“e, reduzindo a cinzas as cidades de Sodoma e Gomorra, ordenou-as à ruína completa, tendo-as posto como exemplo a quantos venham a viver impiamente; e livrou o justo Ló, afligido pelo procedimento libertino daqueles insubordinados (porque este justo, pelo que via, e ouvia quando habitava entre eles, atormentava a sua alma justa, cada dia, por causa das obras iníquas daqueles), é porque o Senhor sabe livrar da provação os piedosos, e reservar, sob castigo, os injustos para o dia de juízo,” (II Pe 2.6-9). 
 


Gênesis 14

“1 Aconteceu nos dias de Anrafel, rei de Sinar, Arioque, rei de Elasar, Quedorlaomer, rei de Elão, e Tidal, rei de Goiim,
2 que estes fizeram guerra a Bera, rei de Sodoma, a Birsa, rei de Gomorra, a Sinabe, rei de Admá, a Semeber, rei de Zeboim, e ao rei de Belá (esta é Zoar).
3 Todos estes se ajuntaram no vale de Sidim (que é o Mar Salgado).
4 Doze anos haviam servido a Quedorlaomer, mas ao décimo terceiro ano rebelaram-se.
5 Por isso, ao décimo quarto ano veio Quedorlaomer, e os reis que estavam com ele, e feriram aos refains em Asterote-Carnaim, aos zuzins em Hão, aos emins em Savé-Quiriataim,
6 e aos horeus no seu monte Seir, até El-Parã, que está junto ao deserto.
7 Depois voltaram e vieram a En-Mispate (que é Cades), e feriram toda a terra dos amalequitas, e também dos amorreus, que habitavam em Hazazom-Tamar.
8 Então saíram os reis de Sodoma, de Gomorra, de Admá, de Zeboim e de Belá (esta é Zoar), e ordenaram batalha contra eles no vale de Sidim,
9 contra Quedorlaomer, rei de Elão, Tidal, rei de Goiim, Anrafel, rei de Sinar, e Arioque, rei de Elasar; quatro reis contra cinco.
10 Ora, o vale de Sidim estava cheio de poços de betume; e fugiram os reis de Sodoma e de Gomorra, e caíram ali; e os restantes fugiram para o monte.
11 Tomaram, então, todos os bens de Sodoma e de Gomorra com todo o seu mantimento, e se foram.
12 Tomaram também a Ló, filho do irmão de Abrão, que habitava em Sodoma, e os bens dele, e partiram.
13 Então veio um que escapara, e o contou a Abrão, o hebreu. Ora, este habitava junto dos carvalhos de Manre, o amorreu, irmão de Escol e de Aner; estes eram aliados de Abrão.
14 Ouvindo, pois, Abrão que seu irmão estava preso, levou os seus homens treinados, nascidos em sua casa, em número de trezentos e dezoito, e perseguiu os reis até Dã.
15 Dividiu-se contra eles de noite, ele e os seus servos, e os feriu, perseguindo-os até Hobá, que fica à esquerda de Damasco.
16 Assim tornou a trazer todos os bens, e tornou a trazer também a Ló, seu irmão, e os bens dele, e também as mulheres e o povo.
17 Depois que Abrão voltou de ferir a Quedorlaomer e aos reis que estavam com ele, saiu-lhe ao encontro o rei de Sodoma, no vale de Savé (que é o vale do rei).
18 Ora, Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; pois era sacerdote do Deus Altíssimo;
19 e abençoou a Abrão, dizendo: bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Criador dos céus e da terra!
20 E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos! E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo.
21 Então o rei de Sodoma disse a Abrão: Dá-me a mim as pessoas; e os bens toma-os para ti.
22 Abrão, porém, respondeu ao rei de Sodoma: Levanto minha mão ao Senhor, o Deus Altíssimo, o Criador dos céus e da terra,
23 jurando que não tomarei coisa alguma de tudo o que é teu, nem um fio, nem uma correia de sapato, para que não digas: Eu enriqueci a Abrão;
24 salvo tão somente o que os mancebos comeram, e a parte que toca aos homens Aner, Escol e Manre, que foram comigo; que estes tomem a sua parte.” (Gên 14.1-24)

Nós temos aqui um relato da primeira guerra da qual nos dá notícia a Escritura.
Os invasores eram quatro reis, dois deles nada menos do que os reis de Sinear e Elão (quer dizer, Caldéia (Sinear), onde ficava a cidade de Ur de Abraão, e Pérsia (Elão),  que ficava ao oriente da Caldéia, sendo os outros dois reinos, os de Elasar e Goim.
Os invadidos eram reis de cinco cidades que se situavam junto à planície do Jordão, isto é, Sodoma, Gomorra, Admah, Zeboim, e Zoar.
O motivo desta guerra foi devido ao fato de Querdorlaomer, rei do Elão ter feito seus tributários os reis destas cinco cidades, inclusive de Sodoma e Gomorra, por doze anos, e eles se recusaram continuar lhe pagando tributos no décimo terceiro ano, e assim o rei do Elão coligado às três outras cidades estado citadas, veio sobre eles no décimo quarto ano, isto é, dois anos depois de terem decidido não mais lhe pagar tributos.
Veja que os sodomitas eram descendentes de Canaã, que havia sido amaldiçoado por Noé no sentido de que seria servo dos descendentes de Sem e de Jafé.
Assim, a profecia começou a ter cumprimento, porque aqueles dos quais foram tributários eram semitas. Elão era o filho primogênito de Sem (Gên 10.22).
Mas, por causa de Ló, a bondade de Abraão se estendeu àqueles pecadores de Sodoma, que foram resgatados juntamente com Ló, e tendo vindo ao encontro de Abraão o rei de Sodoma, prestar-lhe a devida honra e homenagem, veio também Melquisedeque, rei e sacerdote de Salém, que o abençoou, reconhecendo que a vitória que tivera naquela guerra foi-lhe dada da parte do Deus Altíssimo.
Cabe destacar a atitude de Abraão em ter rejeitado o oferecimento do rei de Sodoma de que ficasse com todos os bens que havia resgatado.
Abraão fez o que se costuma chamar de corte direto, pois rejeitou a oferta que lhe fora feita, pois não queria estabelecer qualquer tipo de laço e aliança com o rei de Sodoma, e muito menos lhe conceder a oportunidade de desviar a glória do feito da pessoa de Deus para  si mesmo,  pois certamente viria a divulgar que havia enriquecido a Abraão, ou então que ele agira por motivos mercenários, em troca dos bens que viria a receber caso fosse bem sucedido na guerra.
Em todo o caso, o que Abraão não queria de fato era vincular o nome santo do Deus a quem servia, com aquela nação ímpia.
Assim ele agiu no sentido de deixar uma distinção bem marcada entre aqueles que amam e servem a Deus e aqueles que não o amam e não o servem.      
Abraão negou receber algo sobre o que ele tinha um direito natural já que havia lutado na guerra e se exposto com os seus ao perigo, mas ele não impõe o rigor que impôs a si mesmo, a Manre, Escol e Aner, que haviam lutado ao seu lado, e disse ao rei de Sodoma que deveria ser-lhes dada a parte do despojo que lhes tocava, e quanto aos homens que haviam lutado, seria justo que fossem compensados com a reposição da comida que haviam consumido durante os dias de batalha.
Isto, certamente não daria qualquer glória ao rei de Sodoma.
Quando somos rígidos quanto à nossa própria liberdade, não devemos impor estas restrições à liberdade de outros.
Nós não devemos fazer de nós mesmos o padrão da medida com que outros devem ser medidos.
Não havia a mesma razão para que Aner, Escol e Manre, que não eram servos de Deus, seguirem a recusa da oferta do rei de Sodoma, assim como Abraão fizera.       
Agora, sem nos estendermos em tentar descobrir quem era Melquisedeque, o grande fato é que Deus o incluiu na revelação e demonstrou que o próprio Abraão que viria a ser designado por Ele como o pai de numerosas nações, sendo-lhe dada uma honra elevadíssima entre todos os homens, se submeteu a Melquisedeque, e com isto, a cabeça da igreja não seria Abraão, pois há outro que é mais elevado do que ele.
Isto foi gravado de modo muito claro por Deus com esta breve passagem em que se destaca que o maior abençoou o menor, porque Melquisedeque abençoou Abraão, e este lhe deu o dízimo de tudo.
E, se diz depois que Jesus é sacerdote não segundo a ordem de Levi, mas de Melquisedeque, cujo sacerdócio, dura para sempre.
Então, Deus quis marcar desde o princípio que a honra de ser a cabeça da igreja não é de Abraão, mas de Cristo, que de fato e de verdade é o único cabeça da igreja, a qual lhe foi dada, conforme o propósito eterno de Deus.
Propositalmente, para ser um tipo perfeito de Cristo, nenhuma informação adicional foi dada a respeito de Melquisedeque por Deus nas Escrituras, pois não se diz sobre a sua ascendência nem descendência, nem como veio a ser rei e sacerdote em Salém, para que fosse um tipo perfeito de Cristo, que não tem princípio nem fim de existência, porque é  Deus sempiterno, e por isso, o seu sacerdócio é para sempre (Sl 110.4).       



Gênesis 15

“1 Depois destas coisas veio a palavra do Senhor a Abrão numa visão, dizendo: Não temas, Abrão; eu sou o teu escudo, o teu galardão será grandíssimo.
2 Então disse Abrão: Ó Senhor Deus, que me darás, visto que morro sem filhos, e o herdeiro de minha casa é o damasceno Eliézer?
3 Disse mais Abrão: A mim não me tens dado filhos; eis que um nascido na minha casa será o meu herdeiro.
4 Ao que lhe veio a palavra do Senhor, dizendo: Este não será o teu herdeiro; mas aquele que sair das tuas entranhas, esse será o teu herdeiro.
5 Então o levou para fora, e disse: Olha agora para o céu, e conta as estrelas, se as podes contar; e acrescentou-lhe: Assim será a tua descendência.
6 E creu Abrão no Senhor, e o Senhor imputou-lhe isto como justiça.
7 Disse-lhe mais: Eu sou o Senhor, que te tirei de Ur dos caldeus, para te dar esta terra em herança.
8 Ao que lhe perguntou Abrão: Ó Senhor Deus, como saberei que hei de herdá-la?
9 Respondeu-lhe: Toma-me uma novilha de três anos, uma cabra de três anos, um carneiro de três anos, uma rola e um pombinho.
10 Ele, pois, lhe trouxe todos estes animais, partiu-os pelo meio, e pôs cada parte deles em frente da outra; mas as aves não partiu.
11 E as aves de rapina desciam sobre os cadáveres; Abrão, porém, as enxotava.
12 Ora, ao pôr do sol, caiu um profundo sono sobre Abrão; e eis que lhe sobrevieram grande pavor e densas trevas.
13 Então disse o Senhor a Abrão: Sabe com certeza que a tua descendência será peregrina em terra alheia, e será reduzida à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos;
14 sabe também que eu julgarei a nação a qual ela tem de servir; e depois sairá com muitos bens.
15 Tu, porém, irás em paz para teus pais; em boa velhice serás sepultado.
16 Na quarta geração, porém, voltarão para cá; porque a medida da iniqüidade dos amorreus não está ainda cheia.
17 Quando o sol já estava posto, e era escuro, eis um fogo fumegante e uma tocha de fogo, que passaram por entre aquelas metades.
18 Naquele mesmo dia fez o Senhor um pacto com Abrão, dizendo: À tua descendência tenho dado esta terra, desde o rio do Egito até o grande rio Eufrates;
19 e o queneu, o quenizeu, o cadmoneu,
20 o heteu, o perizeu, os refains,
21 o amorreu, o cananeu, o girgaseu e o jebuseu.”

Depois do encontro com Melquisedeque Abraão teve uma visão  na qual lhe veio a palavra do Senhor lhe dizendo que não temesse porque Ele era o seu escudo, isto é a sua proteção, e que o seu galardão seria grandíssimo.
Abraão não contestou esta afirmação do Senhor, mas alegou que não tinha filhos naturais, e lhe parecia que morreria sem filhos, pois os seus anos de vida avançavam, e a possibilidade de ter uma descendência numerosíssima ia ficando cada vez mais distante.
Em face desta argumentação, o Senhor, reafirmou a promessa feita anteriormente, trazendo Abraão para fora de sua tenda e lhe mostrando as estrelas do céu e lhe disse que as contasse caso  pudesse, e afirmou que a sua descendência seria   numerosa como aquelas estrelas, e de um herdeiro que seria gerado pelo próprio Abraão.
E, contra qualquer tipo de evidência que lhe fosse favorável, Abraão deu crédito às palavras do Senhor, e creu inteiramente no que Ele disse, apesar de nada ter diante de si, senão apenas a promessa que lhe fora feita.
A Escritura registra que a fé de Abraão lhe foi imputada como justiça.
 A pronta concordância de Abraão com o fato de que a promessa era verdadeira, prova que ele não esmoreceu na fé (Rom 4.19) que havia demonstrado desde a primeira vez que o Senhor lhe fizera a promessa de lhe dar uma numerosa descendência, apesar de saber que sua mulher era estéril e que estavam ficando avançados em idade.
A fé de Abraão é portanto uma fé que descansa nas promessas e no poder de Deus, e não nas evidências e na própria capacidade pessoal, e é este tipo de fé, que se manifesta na perseverança nesta confiança fazendo aquilo que lhe é agradável, é exatamente o tipo de fé viva que salva e justifica, e por isso se diz, que isto foi imputado a Abraão como justiça.
Daí se dizer que o justo viverá pela fé;  que a salvação é pela graça mediante a fé.
Mas observe que não é um tipo de fé qualquer que justifica, mas a mesma qualidade de fé que teve Abraão, cuja autenticidade era evidenciada pelas suas obras.      
Assim o que justificou a Abraão não foi a sua justiça própria, mas o próprio Deus, com base na fé de Abraão que permaneceu firme em confiar nEle e em suas promessas, apesar de não ter nada além para crer senão na própria promessa.
Assim todos os que creem em Cristo, são salvos por crerem na promessa que Deus tem feito  a Abraão de abençoar a todos os que estiverem unidos pela fé ao seu descendente que é Cristo.
Eles são justificados não porque lhes seja dada alguma evidência visível da sua justificação, mas porque eles simplesmente confiam de que Deus fará exatamente como tem prometido em Sua Palavra em relação aos que cressem em Seu filho.   
Abraão foi justificado pela sua fé, assim como o são todos os verdadeiros cristãos, e é por isso que já não há nenhuma condenação para eles, como se lê em Rom 8.1, e conforme foi predito pelo salmista no Sl 34.22: “O Senhor resgata a alma dos seus servos, e dos que nele confiam, nenhum será condenado.”. 
Deus em sua misericórdia, para manter o espírito de Abraão devidamente esclarecido quanto ao propósito de lhe dar uma descendência numerosa, lhe revelou que a promessa da herança da terra não se cumpriria logo, conforme Abraão poderia estar pensando, mas o povo que seria formado a partir dele ficaria encerrado numa terra estranha (o Egito) por quatrocentos anos, e que a terra prometida seria tomada com luta através de juízos sobre a iniquidade dos habitantes de Canaã, depois que o próprio povo que descenderia de Abraão fosse libertado da escravidão no Egito. 
Deus revela assim de modo maravilhoso e assombroso, o Seu conhecimento e controle total sobre o futuro das coisas que tem determinado de acordo com o conselho da Sua santa vontade.
O que estava em realce não era, portanto o simples desejo de Abraão de ter uma descendência conforme lhe fora prometido, mas de Deus cumprir os seus elevados propósitos para fins determinados através dele.
Uma nação santa seria formada para habitar em Canaã.
É a redenção da humanidade que está em jogo, e não somente o fato de dar uma terra como promessa para ser habitada pela descendência de Abraão.
Mas cumpre destacar que Abraão teve que se esforçar e obedecer estritamente dentro das instruções que lhes foram dadas por Deus para que a revelação pudesse lhe chegar.
Com isto a sua fé foi colocada à prova, tanto na apresentação dos sacrifícios na forma estabelecida por Deus, como no tempo de espera, e na vigilância e diligência em afugentar as aves de rapina que vinham sobre os animais sacrificados na tentativa de arrebatá-los.
Com isto Abraão provou o seu interesse e fé na resposta que Deus lhe daria, e se tornou um grande exemplo para nós quanto à forma como devemos zelar sobre os nossos sacrifícios espirituais de fé, louvor, adoração, enquanto aguardamos as respostas que esperamos da parte do Senhor.
Devemos afugentar os pensamentos ou insinuações demoníacas que vêm sobre nós, tentando roubar a nossa devoção, vigilância, fé e oração, e continuarmos firmes na expectativa de que Deus trará a Sua revelação até nós, conforme aquilo que nos tem prometido.     
A revelação foi feita diretamente ao espírito de Abraão, porque lhe veio da parte de Deus um sono profundo, para que a alma não interferisse em nada na revelação por uma possível distração com as coisas deste mundo.
Deus tem os seus meios sobrenaturais para se revelar a nós de forma que não tenhamos qualquer dúvida sobre a maneira da revelação, de sorte que saibamos que esta não nos veio por meio da carne nem do sangue, mas do Senhor que está no céu.
É importante observar que antes da alegria santa da revelação veio um profundo temor sobre a alma de Abraão, e houve densas trevas.
Isto traz um santo temor do Senhor e prepara a alma para as coisas elevadas do Espírito.
Deus geralmente primeiro fere e depois cura, de modo que a cura traz grande alegria, e lhe damos grande valor; geralmente primeiro humilha e abate e depois exalta, de modo que a nossa alegria e regozijo estejam nEle mesmo e no Seu poder, e nunca em nós mesmos e na nossa própria capacidade.
Logo, a alegria da descendência de Abraão em ocupar a terra prometida, seria antecedida por um período de escravidão numa terra estranha.
Assim as coisas que Abraão experimentou sob a forma de temores e densa escuridão, estavam de acordo com a revelação das coisas que também ocorreriam à sua descendência: primeiro experimentariam a cruz, e depois a coroa.
Assim os herdeiros do céu são primeiro estranhos e peregrinos na terra, numa terra que não é deles. Eles podem até mesmo experimentar servidão aos poderes deste mundo, mas numa servidão diferente dos cananitas, porque estes servem debaixo da maldição, mas os israelitas debaixo da bênção.
Por isso o que lhes está reservado não é condenação, como no caso dos cananitas, mas libertação e bênçãos.
Daí terem sido prometidas também as consolações que se seguiriam à tribulação no cativeiro no Egito, conforme Deus disse a Abraão:
 “Sabe com certeza que a tua descendência será peregrina em terra alheia, e será reduzida à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos; sabe também que eu julgarei a nação a qual ela tem de servir; e depois sairá com muitos bens.”
A nação opressora seria julgada pelo Senhor, e efetivamente foi, com tudo o que lemos no livro de Êxodo, especialmente em relação à dez pragas, e morte do exército de faraó no Mar Vermelho, e os israelitas sairiam com muitos bens, como forma de compensação da exploração e opressão que haviam sofrido.
Abraão não veria o cumprimento destas coisas, mas Deus lhe prometeu que ele morreria em ditosa velhice e seria juntado aos seus pais em paz.
 Mas fez uma aliança com ele de que certamente a sua descendência habitaria a terra de Canaã desde os termos do Egito até ao rio Eufrates.
A longanimidade de Deus aguardaria para julgar a impiedade dos cananitas por mais de quatrocentos anos, e isto porque há uma medida de iniquidade que faz com que os seus juízos sejam precipitados.
Nos dias de Abraão, eles não tinham atingido um nível de impiedade que demandasse a destruição deles, tal como o Senhor faria pouco tempo depois em Sodoma e Gomorra.
Disto, aprendemos que o passar dos séculos, quando não se tem o temor do Senhor e o devido apreço pela Sua Palavra, a tendência natural é que aqueles que são injustos se tornarão mais injustos ainda, nas gerações subsequentes.
É exatamente isto que tem ocorrido no mundo em que vivemos atualmente. O que temos visto é que o mundo está pronto, está amadurecido para o julgamento que o Senhor trará sobre toda a terra em razão do aumento crescente da iniquidade.    
Assim como fez com Abraão, Ele já tem fixado o tempo em que Jesus voltará, e julgará a impiedade do mundo. Ele sabe exatamente o ano, o mês, o dia em que tal sucederá.



Gênesis 16

“1 Ora, Sarai, mulher de Abrão, não lhe dava filhos. Tinha ela uma serva egípcia, que se chamava Agar.
2 Disse Sarai a Abrão: Eis que o Senhor me tem impedido de ter filhos; toma, pois, a minha serva; porventura terei filhos por meio dela. E ouviu Abrão a voz de Sarai.
3 Assim Sarai, mulher de Abrão, tomou a Agar a egípcia, sua serva, e a deu por mulher a Abrão seu marido, depois de Abrão ter habitado dez anos na terra de Canaã.
4 E ele conheceu a Agar, e ela concebeu; e vendo ela que concebera, foi sua senhora desprezada aos seus olhos.
5 Então disse Sarai a Abrão: Sobre ti seja a afronta que me é dirigida a mim; pus a minha serva em teu regaço; vendo ela agora que concebeu, sou desprezada aos seus olhos; o Senhor julgue entre mim e ti.
6 Ao que disse Abrão a Sarai: Eis que tua serva está nas tuas mãos; faze-lhe como bem te parecer. E Sarai maltratou-a, e ela fugiu de sua face.
7 Então o anjo do Senhor, achando-a junto a uma fonte no deserto, a fonte que está no caminho de Sur,
8 perguntou-lhe: Agar, serva de Sarai, donde vieste, e para onde vais? Respondeu ela: Da presença de Sarai, minha senhora, vou fugindo.
9 Disse-lhe o anjo do Senhor: Torna-te para tua senhora, e humilha-te debaixo das suas mãos.
10 Disse-lhe mais o anjo do Senhor: Multiplicarei sobremaneira a tua descendência, de modo que não será contada, por numerosa que será.
11 Disse-lhe ainda o anjo do Senhor: Eis que concebeste, e terás um filho, a quem chamarás Ismael; porquanto o Senhor ouviu a tua aflição.
12 Ele será como um jumento selvagem entre os homens; a sua mão será contra todos, e a mão de todos contra ele; e habitará diante da face de todos os seus irmãos.
13 E ela chamou, o nome do Senhor, que com ela falava, El-Rói; pois disse: Não tenho eu também olhado neste lugar para aquele que me vê?
14 Pelo que se chamou aquele poço Beer-Laai-Rói; ele está entre Cades e Berede.
15 E Agar deu um filho a Abrão; e Abrão pôs o nome de Ismael no seu filho que tivera de Agar.
16 Ora, tinha Abrão oitenta e seis anos, quando Agar lhe deu Ismael.”

Dez anos haviam se passado desde que Abraão havia saído de Harã, rumo a Canaã, pelo mandado de Deus, tendo recebido a promessa de que a sua descendência receberia aquela terra por herança.
Abraão contava agora com oitenta e cinco anos de idade e Deus não havia ainda lhe dado filhos.
Sara, impaciente com a demora do cumprimento da promessa feita por Deus, instou com Abraão para que coabitasse com uma serva egípcia chamada Hagar, para que se provesse de filhos através dela.
A lei antiga prescrevia que, os filhos nascidos do relacionamento de um senhor com uma escrava, dava o direito legal de maternidade à esposa do senhor e não à escrava.
E foi pensando neste arranjo que Sara fez a proposta a Abraão para que coabitasse com Hagar.
O pecado de Sara lhe trouxe dificuldades, porque tendo Hagar concebido de Abraão, passou a desprezá-la.
Isto a deixou extremamente ferida e irada a ponto de proferir um juízo sobre o próprio marido dizendo que aquilo que ela estava recebendo da parte de Hagar na forma de afronta, que viesse a recair sobre Abraão por uma aplicação da justiça de Deus na avaliação do caso.
Esta não era de fato uma avaliação justa porque ela mesma havia se precipitado dando ocasião a que tudo aquilo acontecesse.
Abraão certamente errou ao dar ouvidos à sua mulher, para satisfazer o seu desejo, em vez de buscar orientação em Deus, ou agir de acordo com a promessa que o Senhor lhe fizera.
Ele poderia e deveria ter dito a Sara: “Não devemos fazer isto porque Deus nos tem feito a promessa de nos dar um filho que será gerado por nós mesmos.”

Tal era a pressão da situação que Abraão expôs Hagar à livre ação de Sara, lembrando-lhe que ela tinha autoridade sobre a escrava, pois era sua senhora, e estava em suas mãos tomar a decisão que bem lhe parecesse.
Sara a humilhou, de modo que ela teve que fugir, estando grávida.  
Foi o desejo de vingança de Sara contra Hagar que a levou a proferiu aquela palavra de imprecação sobre Abraão, porque no seu entendimento ele se recusava a punir Hagar.
Esta vingança foi cumprida quando Sara a humilhou.
Certamente a aprovação de Deus não estava em nada disso porque Ele proíbe claramente a vingança e a ira injustificada.
Um pecado conduz a outro pecado, e por isso o mal deve ser cortado pela raiz, para que não se espalhe e contamine a muitos.
O fato de sermos humilhados não nos dá o direito da parte de Deus, de pagarmos na mesma moeda.
Ao contrário, Ele nos ordena que abençoemos os que nos maldizem, que amemos os nossos inimigos, que oremos pelo bem dos que nos perseguem.
  Além disso, foi a própria Sara a culpada por tudo o que estava ocorrendo; e como no dizer do apóstolo, aqueles que sofrem por causa das suas próprias faltas, devem suportar os seus sofrimentos pacientemente, uma vez que foram eles próprios que lhe deram causa (I Pe 2.20).
Mas o propósito principal desta revelação das Escrituras está contido nas palavras do anjo do Senhor a Hagar quando ela se encontrava no deserto, quanto ao futuro da descendência daquele filho que ela conceberia: “Ele será, entre os homens, como um jumento selvagem; a sua mão será contra todos, e a mão de todos contra ele; e habitará fronteiro a todos os seus irmãos.”
Esta profecia é de um alcance que tem cumprimento ainda em nossos dias e terá até que Jesus volte, porque os descendentes de Ismael são os árabes, e de fato, eles têm, na história da humanidade, especialmente da cristandade, sido um povo à parte, neste aspecto de serem contra todos, e todos serem contra eles, o que se vê nos constantes conflitos que ocorrem há séculos naquela região, particularmente em razão da inimizade histórica com Israel, que é descendente de Isaque, o filho de Abraão com Sara. 
A atitude inconsequente e precipitada de Sara e Abraão deixaria este duro legado para a humanidade.
Assim, para que o menino que seria gerado fosse preservado e se desenvolvesse em segurança sob a influência de Abraão, o anjo ordenou a Hagar que se desculpasse com Sara, humilhando-se perante ela, de modo que fosse recebida de novo no seio da família da qual ela havia fugido.


Gênesis 17
  
“1 Quando Abrão tinha noventa e nove anos, apareceu-lhe o Senhor e lhe disse: Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda em minha presença, e sê perfeito;
2 e firmarei o meu pacto contigo, e sobremaneira te multiplicarei.
3 Ao que Abrão se prostrou com o rosto em terra, e Deus falou-lhe, dizendo:
4 Quanto a mim, eis que o meu pacto é contigo, e serás pai de muitas nações;
5 não mais serás chamado Abrão, mas Abraão será o teu nome; pois por pai de muitas nações te hei posto;
6 far-te-ei frutificar sobremaneira, e de ti farei nações, e reis sairão de ti;
7 estabelecerei o meu pacto contigo e com a tua descendência depois de ti em suas gerações, como pacto perpétuo, para te ser por Deus a ti e à tua descendência depois de ti.
8 Dar-te-ei a ti e à tua descendência depois de ti a terra de tuas peregrinações, toda a terra de Canaã, em perpétua possessão; e serei o seu Deus.
9 Disse mais Deus a Abraão: Ora, quanto a ti, guardarás o meu pacto, tu e a tua descendência depois de ti, nas suas gerações.
10 Este é o meu pacto, que guardareis entre mim e vós, e a tua descendência: todo macho entre vós será circuncidado.
11 Circuncidar-vos-eis na carne do prepúcio; e isto será por sinal de pacto entre mim e vós.
12 À idade de oito dias, todo varão dentre vós será circuncidado, por todas as vossas gerações, tanto o nascido em casa como o comprado por dinheiro a qualquer estrangeiro, que não for da tua linhagem.
13 Com efeito será circuncidado o nascido em tua casa, e o comprado por teu dinheiro; assim estará o meu pacto na vossa carne como pacto perpétuo.
14 Mas o incircunciso, que não se circuncidar na carne do prepúcio, essa alma será extirpada do seu povo; violou o meu pacto.
15 Disse Deus a Abraão: Quanto a Sarai, tua, mulher, não lhe chamarás mais Sarai, porem Sara será o seu nome.
16 Abençoá-la-ei, e também dela te darei um filho; sim, abençoá-la-ei, e ela será mãe de nações; reis de povos sairão dela.
17 Ao que se prostrou Abraão com o rosto em terra, e riu-se, e disse no seu coração: A um homem de cem anos há de nascer um filho? Dará à luz Sara, que tem noventa anos?
18 Depois disse Abraão a Deus: Oxalá que viva Ismael diante de ti!
19 E Deus lhe respondeu: Na verdade, Sara, tua mulher, te dará à luz um filho, e lhe chamarás Isaque; com ele estabelecerei o meu pacto como pacto perpétuo para a sua descendência depois dele.
20 E quanto a Ismael, também te tenho ouvido; eis que o tenho abençoado, e fá-lo-ei frutificar, e multiplicá-lo-ei grandissimamente; doze príncipes gerará, e dele farei uma grande nação.
21 O meu pacto, porém, estabelecerei com Isaque, que Sara te dará à luz neste tempo determinado, no ano vindouro.
22 Ao acabar de falar com Abraão, subiu Deus diante dele.
23 Logo tomou Abraão a seu filho Ismael, e a todos os nascidos na sua casa e a todos os comprados por seu dinheiro, todo varão entre os da casa de Abraão, e lhes circuncidou a carne do prepúcio, naquele mesmo dia, como Deus lhe ordenara.
24 Abraão tinha noventa e nove anos, quando lhe foi circuncidada a carne do prepúcio;
25 E Ismael, seu filho, tinha treze anos, quando lhe foi circuncidada a carne do prepúcio.
26 No mesmo dia foram circuncidados Abraão e seu filho Ismael.
27 E todos os homens da sua casa, assim os nascidos em casa, como os comprados por dinheiro ao estrangeiro, foram circuncidados com ele.”

Entre a narrativa do capítulo dezesseis de Gênesis e a do capítulo dezessete, há um espaço de treze anos. Este capítulo começa com a afirmação de que o Senhor apareceu a Abraão quando ele tinha noventa e nove anos de idade.
Deus reafirmou a aliança que havia feito com ele de lhe fazer pai de numerosas nações, e mudou-lhe o nome de Abrão, que significa no hebraico, “pai exaltado”; para Abraão, que significa “pai de multidão” (Gên 17.5), e o de Sarai, que significa “minha princesa”; para Sara, que significa “a princesa” (Gên 17.15).   
A renovação da promessa teve que aguardar pelo menos mais treze anos depois do nascimento de Ismael, como que aquele ato precipitado de Sara e Abraão, em vez de apressar o cumprimento da promessa, contribui possivelmente para retardá-lo, pois somente vinte e cinco anos, depois de Abraão ter deixado Harã, que Isaque nasceria, dando-se cumprimento à primeira parte da promessa, a saber, que Abraão teria um filho com Sara.  
 Quando Deus apareceu a Abraão quanto contava com noventa e nove anos de idade, disse-lhe ser o Deus Todo-Poderoso, isto é, El-Shaddai, e antes de renovar a aliança com ele, lhe disse que andasse na Sua presença e fosse perfeito (17.1).
Em atitude de reverência e temor, Abraão prostrou-se com o rosto em terra, e assim Deus lhe falou que ele seria pai de numerosas nações, mudou-lhe o nome de Abrão, para Abraão, e disse que o faria fecundo extraordinariamente, e que dele faria nações, e que reis procederiam dele, e a aliança que faria com ele e a sua descendência seria uma aliança perpétua no decurso de todas as suas gerações, aliança de ser o Deus da sua descendência para sempre.
Sem qualquer dúvida, esta parte da promessa extrapola a nação de Israel segundo a carne, pela descendência de Abraão, e aplica-se, sobretudo ao Israel espiritual que seria formado com todos aqueles que nascessem de novo pela mesma fé que havia justificado a Abraão, pois é este o verdadeiro Israel de Deus que estará aliançado perpetuamente com Ele.
A promessa feita a Abraão incluía também a posse perpétua da terra de Canaã em que Abraão estava peregrinando.
Como sinal desta aliança, o Senhor instituiu a circuncisão para ser feita em todas as pessoas do sexo masculino que estivessem debaixo da autoridade de Abraão, e a todos os que nascessem da sua descendência no decurso de todas as gerações, quando tivessem oito dias de nascidos.
Mas não era exatamente nisto que consistiria o verdadeiro sinal da aliança com Deus, pois a circuncisão que nos liga a Ele não é a do prepúcio, mas a do coração.
Daí ter ordenado a Abraão que andasse na Sua presença e fosse perfeito.    
Esta é a condição exigida de todos os que estão aliançados com Deus na Nova Aliança por meio de Cristo, porque esta é uma aliança eterna, e por isso devem ser diligentes em andar na presença de Deus e serem perfeitos assim como Ele é perfeito, uma vez que por meio de Cristo obtiveram a cidadania do céu, onde tudo é perfeito e santo.
Os que são de Cristo formam um só espírito com ele, e devem andar assim como Ele andou.
Esta perfeição aponta para maturidade espiritual em devoção ao Senhor, e não à perfeição moral sem qualquer defeito. É, como podemos dizer, uma perfeição evangélica, ou seja, decorrente da nossa fé no evangelho.
Abraão pensou que a descendência da qual o Senhor falara, provavelmente se referia a Ismael, e até riu enquanto estava prostrado com o rosto em terra, pensando na situação bizarra que seria ele um homem de cem anos, e Sara com os seus noventa, gerando um filho.
Mas Deus disse-lhe que a aliança não seria firmada em Ismael, a quem Ele abençoaria fazendo dele uma grande nação, mas seria firmada em Isaque (que significa “riso” em hebraico), ao qual Sara daria à luz um ano depois, conforme estava lhe prometendo.
As bênçãos do pacto não poderiam ser cumpridas em Ismael, porque não seria dele que descenderia o Messias, mas de Isaque, a quem Sara ainda daria à luz.
Assim, os muitos filhos de Deus que nasceriam pela fé em Cristo, seriam irmãos na fé de Isaque, que foi também justificado pela fé.
Seriam filhos desta promessa tal como Isaque, de serem abençoados juntamente com o crente Abraão, porque este é o único caminho da salvação que foi estabelecido e determinado por Deus no Seu conselho eterno.
A salvação vem portanto dos judeus conforme afirmou Jesus, e por meio do próprio Jesus que é o único caminho para tal salvação.  
Tendo o Senhor se elevado, retirando-se da presença de Abraão, depois de lhe ter falado todas estas palavras, ele se dispôs a obedecer ao mandamento de Deus, tendo circuncidado a todos os da sua casa.   



Gênesis 18

“1 Depois apareceu o Senhor a Abraão junto aos carvalhos de Manre, estando ele sentado à porta da tenda, no maior calor do dia.
2 Levantando Abraão os olhos, olhou e eis três homens de pé em frente dele. Quando os viu, correu da porta da tenda ao seu encontro, e prostrou-se em terra,
3 e disse: Meu Senhor, se agora tenho achado graça aos teus olhos, rogo-te que não passes de teu servo.
4 Eia, traga-se um pouco d'água, e lavai os pés e recostai-vos debaixo da árvore;
5 e trarei um bocado de pão; refazei as vossas forças, e depois passareis adiante; porquanto por isso chegastes ate o vosso servo. Responderam-lhe: Faze assim como disseste.
6 Abraão, pois, apressou-se em ir ter com Sara na tenda, e disse-lhe: Amassa depressa três medidas de flor de farinha e faze bolos.
7 Em seguida correu ao gado, apanhou um bezerro tenro e bom e deu-o ao criado, que se apressou em prepará-lo.
8 Então tomou queijo fresco, e leite, e o bezerro que mandara preparar, e pôs tudo diante deles, ficando em pé ao lado deles debaixo da árvore, enquanto comiam.
9 Perguntaram-lhe eles: Onde está Sara, tua mulher? Ele respondeu: Está ali na tenda.
10 E um deles lhe disse: certamente tornarei a ti no ano vindouro; e eis que Sara tua mulher terá um filho. E Sara estava escutando à porta da tenda, que estava atrás dele.
11 Ora, Abraão e Sara eram já velhos, e avançados em idade; e a Sara havia cessado o incômodo das mulheres.
12 Sara então riu-se consigo, dizendo: Terei ainda deleite depois de haver envelhecido, sendo também o meu senhor já velho?
13 Perguntou o Senhor a Abraão: Por que se riu Sara, dizendo: É verdade que eu, que sou velha, darei à luz um filho?
14 Há, porventura, alguma coisa difícil ao Senhor? Ao tempo determinado, no ano vindouro, tornarei a ti, e Sara terá um filho.
15 Então Sara negou, dizendo: Não me ri; porquanto ela teve medo. Ao que ele respondeu: Não é assim; porque te riste.
16 E levantaram-se aqueles homens dali e olharam para a banda de Sodoma; e Abraão ia com eles, para os encaminhar.
17 E disse o Senhor: Ocultarei eu a Abraão o que faço,
18 visto que Abraão certamente virá a ser uma grande e poderosa nação, e por meio dele serão benditas todas as nações da terra?
19 Porque eu o tenho escolhido, a fim de que ele ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, para que guardem o caminho do Senhor, para praticarem retidão e justiça; a fim de que o Senhor faça vir sobre Abraão o que a respeito dele tem falado.
20 Disse mais o Senhor: Porquanto o clamor de Sodoma e Gomorra se tem multiplicado, e porquanto o seu pecado se tem agravado muito,
21 descerei agora, e verei se em tudo têm praticado segundo o seu clamor, que a mim tem chegado; e se não, sabê-lo-ei.
22 Então os homens, virando os seus rostos dali, foram-se em direção a Sodoma; mas Abraão ficou ainda em pé diante do Senhor.
23 E chegando-se Abraão, disse: Destruirás também o justo com o ímpio?
24 Se porventura houver cinqüenta justos na cidade, destruirás e não pouparás o lugar por causa dos cinqüenta justos que ali estão?
25 Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio, de modo que o justo seja como o ímpio; esteja isto longe de ti. Não fará justiça o juiz de toda a terra?
26 Então disse o Senhor: Se eu achar em Sodoma cinqüenta justos dentro da cidade, pouparei o lugar todo por causa deles.
27 Tornou-lhe Abraão, dizendo: Eis que agora me atrevi a falar ao Senhor, ainda que sou pó e cinza.
26 Se porventura de cinqüenta justos faltarem cinco, destruirás toda a cidade por causa dos cinco? Respondeu ele: Não a destruirei, se eu achar ali quarenta e cinco.
29 Continuou Abraão ainda a falar-lhe, e disse: Se porventura se acharem ali quarenta? Mais uma vez assentiu: Por causa dos quarenta não o farei.
30 Disse Abraão: Ora, não se ire o Senhor, se eu ainda falar. Se porventura se acharem ali trinta? De novo assentiu: Não o farei, se achar ali trinta.
31 Tornou Abraão: Eis que outra vez me a atrevi a falar ao Senhor. Se porventura se acharem ali vinte? Respondeu-lhe: Por causa dos vinte não a destruirei.
32 Disse ainda Abraão: Ora, não se ire o Senhor, pois só mais esta vez falarei. Se porventura se acharem ali dez? Ainda assentiu o Senhor: Por causa dos dez não a destruirei.
33 E foi-se o Senhor, logo que acabou de falar com Abraão; e Abraão voltou para o seu lugar.”

Algumas pequenas dificuldades que possam ser levantadas quanto à identificação das três pessoas que apareceram a Abraão, podem ser resolvidas facilmente pelo próprio texto e contexto, pois em 18.2 lemos que eram três homens; e que os três homens se levantaram de onde estavam com Abraão e olharam para Sodoma, tendo Abraão ido com eles para os encaminhar (18.16).
Sempre é o Senhor que está falando com Abraão e com Sara no contexto destes três homens que lhe apareceram nos carvalhais de Manre.
Em 18.22 se diz que aqueles homens partiram dali e partiram para Sodoma, tendo Abraão permanecido na presença do Senhor.
Em 18.33 lemos que tendo cessado de falar a Abraão, o Senhor se retirou e Abraão voltou para o seu lugar.
Logo no início do capítulo seguinte, se diz que ao anoitecer vieram os dois anjos a Sodoma.
Ora, o que podemos inferir disto senão que numa teofania o Senhor apareceu a Abraão acompanhado de dois anjos, todos eles em forma humana, e por isso se diz no texto: “três homens”.
Entretanto, fica claro que um deles lidera o diálogo com Abraão, e certamente é o Senhor numa teofania, pois permanecera com Abraão, enquanto se diz em 18.22 que aqueles homens partiram para Sodoma, e vemos claramente em 19.1 a citação de que eram dois anjos que haviam se dirigido para lá, e não todos os três que haviam aparecido a Abraão.
Então um deles permaneceu com ele, e este era sem dúvida o Senhor.    
Assim, este capítulo de Gênesis é um capítulo maravilhoso, pois nele nós vemos a aliança sendo ratificada na terra com a presença do próprio Deus, acompanhado de dois anjos.
Isto marcou o caráter solene daquela grande aliança que já era como que realizada aos olhos de Deus, e aguardava somente o seu desenrolar, e isto começaria com o nascimento de Isaque dali a um ano.
Aquele pacto foi celebrado com um banquete que Abraão mandou preparar.
Depois de terem comido o Senhor perguntou por Sara, e Abraão lhe disse que ela estava no interior da tenda.
A promessa de que daria à luz a um filho dali a um ano foi reafirmada e tendo Sara ouvido a mesma,  riu por pensar como poderia gerar um filho, tendo já cessado o costume das mulheres, referindo-se certamente à menstruação.
A isto o Senhor respondeu formulando uma pergunta:
“Acaso para Deus há cousa demasiadamente difícil?” (18.14).
E afirmou:
 “Daqui a um ano, neste mesmo tempo, voltarei a ti, e Sara terá um filho.”
Não há nenhuma dúvida que era o Senhor falando porque ninguém poderia falar sobre capacitar alguém a gerar um filho como Ele, e Sara estava dentro da barraca, quando pela sua Onisciência pôde perceber estando do lado de fora que ela ria, e dizia que estava velha demais para que pudesse gerar uma criança.       
A pergunta onde está Sara, não significa que Deus não soubesse onde ela estava, mas queria levar Abraão a entender que a participação dela naquela aliança seria importante, pois seria a mãe daquele através de cuja descendência o Messias seria trazido ao mundo.
A pergunta aqui tem o mesmo sentido da que foi feita a Adão: “Onde estás” quando se escondeu entre as árvores do jardim do Éden, depois de ter pecado. Deus sabia onde ele estava, mas queria que ele mesmo reconhecesse e dissesse o estado em que se encontrava.
 Aqui, a referência a Sara tinha também o propósito de ajudá-la a ficar firme na fé na promessa, porque lhe foi revelado coisas que estavam ocultas à vista natural de quem lhe dirigiu a palavra, e ela saberia que estava tratando com alguém sobrenatural que não estava em nada, limitado em Seu poder.    
Temos vinculado neste mesmo capítulo a promessa da Nova Aliança solenemente ratificada, e os juízos de Deus sobre o pecado, com a sentença de destruição das cidades de Sodoma e Gomorra.
Cristo é aroma de vida para a vida nos que se salvam, e cheiro de morte para a morte nos que se perdem.
A Nova Aliança não é apenas promessa de salvação para os pecadores, como também promessa de condenação para aqueles que não se arrependerem de seus pecados e se converterem a Deus.
O evangelho é boa nova para os homens de boa vontade, mas aos que têm uma má vontade empedernida que se recusa a obedecer a Deus não é nenhuma boa nova, pois é exatamente pela rejeição da graça que está sendo oferecida no evangelho que  serão condenados à perdição eterna. 
Depois de ter renovado a aliança feita com Abraão, nós vemos na porção de Gên 18.16-21, um registro muito importante relativo ao modo como Deus revelou a Abraão a destruição que faria das cidades de Sodoma e Gomorra.
Nós vemos que o motivo da aliança com Abraão tinha principalmente em vista livrar do juízo a que está sujeito o pecador, em razão de andar desordenadamente em relação à vontade de Deus.
Em Abraão (18.17), isto é, no seu descendente que é Cristo (Gál 3.16) seriam benditas todas as nações da terra, e Deus havia escolhido Abraão para que ordenasse a seus filhos e a sua casa depois dele, a fim de que guardassem o caminho do Senhor, e praticassem a justiça e o juízo (18.18,19).
Seria exatamente por este motivo que a descendência espiritual de Abraão jamais seria sujeita ao julgamento de condenação motivado pela ira de Deus contra o pecado, assim como Ele o demonstraria nas cidades de Sodoma e Gomorra.
A destruição daquelas cidades seria um reforço, um bom motivo, para que Abraão se empenhasse em andar em santidade na presença de Deus, e que também o ensinasse a todos os seus descendentes. 
Abraão fixou muito rápido a lição, pois entendeu que o justo é preservado enquanto o ímpio é destruído, e daí foi que perguntou ao Senhor o que encontramos em Gên 18.22-33, pensando certamente em livrar a seu sobrinho Ló da destruição iminente.
“Destruirás o justo com o ímpio?” Foi a primeira pergunta feita por Abraão. E, a complementou indagando se porventura houvesse cinquenta justos na cidade, se Deus a destruiria ainda assim e não pouparia o lugar por amor dos cinquenta justos.
Ele se animou a fazer uma afirmação sobre a justiça de Deus afirmando o que se lê no verso 25:
 “Longe de ti o fazeres tal cousa, matares o justo com o ímpio, como se o justo fosse igual ao ímpio; longe de ti. Não fará justiça o Juiz de toda a terra?”
O Senhor respondeu que, caso houvesse os cinquenta justos dentro da cidade, ele pouparia toda a cidade por amor deles.
Abraão foi descendo o número de justos até dez, e Deus afirmou que a pouparia por amor dos dez.
A cidade não seria poupada porque o único justo que lá havia era Ló, e este seria resgatado por Deus, antes que ocorresse a destruição.
Evidencia-se neste diálogo o grande amor de Abraão não somente por Ló, mas pela justiça de Deus.
Ele sabia que um viver abençoado estava vinculado a um viver em justiça, não segundo meramente os princípios dos homens, mas, sobretudo segundo os princípios estabelecidos por Deus.
A intercessão dele em favor de Ló revela que era alguém que se interessava em que a justiça prevalecesse com a preservação do justo.
Ao mesmo tempo Abraão revela um sentimento de compaixão e longanimidade pelos pecadores, pois de certo modo intercedeu em favor deles, para que fossem poupados por Deus, em razão do testemunho de vida e intercessão dos justos em favor deles, não para que continuassem na prática do pecado, mas para que encontrassem oportunidade para o arrependimento.          
Abraão foi humilde em sua oração intercessória, pois não se declarou merecedor de ser ouvido, antes disse que era pó e cinza (18.27).
Foi também importuno, pois ele insistiu no assunto com Deus e lhe apresentou argumentos consistentes.
Já destacamos o amor e a misericórdia que moveram Abraão àquela oração, pois ele pensou nas várias pessoas que poderiam ser destruídas na cidade juntamente com os ímpios.
Entretanto, não se sentiu estimulado a prosseguir quando o Senhor lhe revelou que nem sequer dez justos havia naquela cidade.
Quando o Senhor acabou de falar e o deixou, Abraão foi para o seu lugar com a certeza de que o justo Ló não seria condenado juntamente com os ímpios, porque ainda que toda a cidade fosse destruída, Ele entendeu pelo diálogo que tivera com o Senhor que Ele de fato não destrói em seus juízos o justo juntamente com o ímpio, pois como afirma Pedro, ilustrando a afirmação com a própria história de Ló,
“o Senhor sabe livrar da provação os piedosos e reservar, sob castigo, os injustos para o dia de juízo,” (II Pe 2.9).
Ainda que algum justo venha a morrer juntamente com algum ímpio em razão de algum juízo vindo da parte de Deus sobre a impiedade dos homens, o justo não terá o mesmo fim do ímpio, porque ele viverá para sempre por causa da sua fé.
Assim, ainda que ele venha a sofrer juntamente com o ímpio, o seu fim não será de modo algum igual ao do ímpio, porque Deus é perfeitamente justo e é perfeito em Seus juízos.     





Gênesis 19

“1 À tarde chegaram os dois anjos a Sodoma. Ló estava sentado à porta de Sodoma e, vendo-os, levantou-se para os receber; prostrou-se com o rosto em terra,
2 e disse: Eis agora, meus senhores, entrai, peço-vos em casa de vosso servo, e passai nela a noite, e lavai os pés; de madrugada vos levantareis e ireis vosso caminho. Responderam eles: Não; antes na praça passaremos a noite.
3 Entretanto, Ló insistiu muito com eles, pelo que foram com ele e entraram em sua casa; e ele lhes deu um banquete, assando-lhes pães ázimos, e eles comeram.
4 Mas antes que se deitassem, cercaram a casa os homens da cidade, isto é, os homens de Sodoma, tanto os moços como os velhos, sim, todo o povo de todos os lados;
5 e, chamando a Ló, perguntaram-lhe: Onde estão os homens que entraram esta noite em tua casa? Traze-os cá fora a nós, para que os conheçamos.
6 Então Ló saiu-lhes à porta, fechando-a atrás de si,
7 e disse: Meus irmãos, rogo-vos que não procedais tão perversamente;
8 eis aqui, tenho duas filhas que ainda não conheceram varão; eu vo-las trarei para fora, e lhes fareis como bem vos parecer: somente nada façais a estes homens, porquanto entraram debaixo da sombra do meu telhado.
9 Eles, porém, disseram: Sai daí. Disseram mais: Esse indivíduo, como estrangeiro veio aqui habitar, e quer se arvorar em juiz! Agora te faremos mais mal a ti do que a eles. E arremessaram-se sobre o homem, isto é, sobre Ló, e aproximavam-se para arrombar a porta.
10 Aqueles homens, porém, estendendo as mãos, fizeram Ló entrar para dentro da casa, e fecharam a porta;
11 e feriram de cegueira os que estavam do lado de fora, tanto pequenos como grandes, de maneira que cansaram de procurar a porta.
12 Então disseram os homens a Ló: Tens mais alguém aqui? Teu genro, e teus filhos, e tuas filhas, e todos quantos tens na cidade, tira-os para fora deste lugar;
13 porque nós vamos destruir este lugar, porquanto o seu clamor se tem avolumado diante do Senhor, e o Senhor nos enviou a destruí-lo.
14 Tendo saído Ló, falou com seus genros, que haviam de casar com suas filhas, e disse-lhes: Levantai-vos, saí deste lugar, porque o Senhor há de destruir a cidade. Mas ele pareceu aos seus genros como quem estava zombando.
15 E ao amanhecer os anjos apertavam com Ló, dizendo: levanta-te, toma tua mulher e tuas duas filhas que aqui estão, para que não pereças no castigo da cidade.
16 Ele, porém, se demorava; pelo que os homens pegaram-lhe pela mão a ele, à sua mulher, e às suas filhas, sendo-lhe misericordioso o Senhor. Assim o tiraram e o puseram fora da cidade.
17 Quando os tinham tirado para fora, disse um deles: Escapa-te, salva tua vida; não olhes para trás de ti, nem te detenhas em toda esta planície; escapa-te lá para o monte, para que não pereças.
18 Respondeu-lhe Ló: Ah, assim não, meu Senhor!
19 Eis que agora o teu servo tem achado graça aos teus olhos, e tens engrandecido a tua misericórdia que a mim me fizeste, salvando-me a vida; mas eu não posso escapar-me para o monte; não seja caso me apanhe antes este mal, e eu morra.
20 Eis ali perto aquela cidade, para a qual eu posso fugir, e é pequena. Permite que eu me escape para lá (porventura não é pequena?), e viverá a minha alma.
21 Disse-lhe: Quanto a isso também te hei atendido, para não subverter a cidade de que acabas de falar.
22 Apressa-te, escapa-te para lá; porque nada poderei fazer enquanto não tiveres ali chegado. Por isso se chamou o nome da cidade Zoar.
23 Tinha saído o sol sobre a terra, quando Ló entrou em Zoar.
24 Então o Senhor, da sua parte, fez chover do céu enxofre e fogo sobre Sodoma e Gomorra.
25 E subverteu aquelas cidades e toda a planície, e todos os moradores das cidades, e o que nascia da terra.
26 Mas a mulher de Ló olhou para trás e ficou convertida em uma estátua de sal.
27 E Abraão levantou-se de madrugada, e foi ao lugar onde estivera em pé diante do Senhor;
28 e, contemplando Sodoma e Gomorra e toda a terra da planície, viu que subia da terra fumaça como a de uma fornalha.
29 Ora, aconteceu que, destruindo Deus as cidades da planície, lembrou-se de Abraão, e tirou Ló do meio da destruição, ao subverter aquelas cidades em que Ló habitara.
30 E subiu Ló de Zoar, e habitou no monte, e as suas duas filhas com ele; porque temia habitar em Zoar; e habitou numa caverna, ele e as suas duas filhas.
31 Então a primogênita disse à menor: Nosso pai é já velho, e não há varão na terra que entre a nós, segundo o costume de toda a terra;
32 vem, demos a nosso pai vinho a beber, e deitemo-nos com ele, para que conservemos a descendência de nosso pai.
33 Deram, pois, a seu pai vinho a beber naquela noite; e, entrando a primogênita, deitou-se com seu pai; e não percebeu ele quando ela se deitou, nem quando se levantou.
34 No dia seguinte disse a primogênita à menor: Eis que eu ontem à noite me deitei com meu pai; demos-lhe vinho a beber também esta noite; e então, entrando tu, deita-te com ele, para que conservemos a descendência de nosso pai.
35 Tornaram, pois, a dar a seu pai vinho a beber também naquela noite; e, levantando-se a menor, deitou-se com ele; e não percebeu ele quando ela se deitou, nem quando se levantou.
36 Assim as duas filhas de Ló conceberam de seu pai.
37 A primogênita deu a luz a um filho, e chamou-lhe Moabe; este é o pai dos moabitas de hoje.
38 A menor também deu à luz um filho, e chamou-lhe Ben-Ami; este é o pai dos amonitas de hoje.”

É importante frisar antes de qualquer comentário que os familiares próximos do justo são santificados por ele, no sentido de gozarem até certo nível da proteção de Deus, em razão da misericórdia e justiça de Deus que é exibida para os que são Seus.
No caso de Noé, foram beneficiados seus filhos, mulher e noras.
No caso de Ló seriam sua mulher, filhas e genros, mas os genros achavam que ele gracejava quando foram avisados por ele que Deus traria destruição àquele lugar e não lhe deram crédito, e sua mulher amou mais o mundo do que ao Senhor, e se converteu numa estátua de sal.
Ela estava caminhando para longe da destruição, mas o seu coração estava na cidade que seria condenada, e por isso foi submetida ao juízo do Senhor.
E deve ser destacado que ela desobedeceu a uma ordem expressa de Deus para o livramento deles: O anjo foi bastante claro em dizer que não deveriam olhar para trás, nem parar em toda a campina para que não perecessem (19.17).
Mas a mulher de Ló olhou para trás desconsiderando o alerta do Senhor de que caso olhassem para trás pereceriam.
Ela não deu crédito à Palavra de Deus e foi destruída pelo Seu juízo.
O juízo a alcançou, ainda que não estivesse debaixo do fogo que caía sobre as cidades de Sodoma e Gomorra.
O primeiro casal no Éden introduziu a morte no mundo, porque também não atenderam à ordenança de Deus de que não deveriam comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal para que não perecessem.
Quando Deus diz que a transgressão da Sua vontade conduz à morte, Ele certamente executará a Sua Palavra, pois vela sobre ela para a cumprir, toda vez que ela for voluntariamente transgredida.
É somente por causa da Nova Aliança, do sangue derramado por Jesus, que muitos dos juízos de Deus são abreviados e minimizados, na dispensação da graça, e não por ter Ele desistido de agir como justo Juiz que é, e que não inocenta o culpado. 
Assim a suspensão ou adiamento do juízo em face da prática de transgressões voluntárias não significa renúncia de Deus ao Seu direito e soberania em julgar, e muito menos conivência,  concordância ou tolerância com o mal.
A mulher de Ló é um grande alerta para todos nós, de modo que não abusemos da longanimidade, da misericórdia de Deus em nosso favor, porque caso não permaneçamos no intuito de obedecermos a Sua Palavra, perdemos automaticamente o direito de reivindicar as Suas bênçãos e livramentos que Ele havia nos concedido pela Sua exclusiva misericórdia e bondade.  
Ló insistiu em hospedar os dois anjos em sua casa e isto revelava o seu caráter justo, em contraste com o dos moradores de Sodoma que rodearam a sua casa intentando abusar dos anjos pensando que eram homens.
Eles foram cegados pelos anjos de maneira que não podiam achar a porta da casa de Ló.
Os dois anjos ordenaram a Ló que fugisse da cidade juntamente com os seus, porque eles a destruiriam ao amanhecer.
 Quando amanheceu os anjos ordenaram que Ló se levantasse e fugisse para o monte juntamente com sua mulher e filhas.
Mas Ló parecia não entender a urgência daquela hora, e se demorava a sair, e por isso os anjos o pegaram pela mão, bem como sua mulher e filhas e o puseram para fora da cidade, e é destacado que com esta ação o Senhor foi misericordioso para com Ló (19.16).
Quando estava fora da cidade os anjos lhe ordenaram que fugisse para o monte, mas Ló retrucou, pois temia morrer no monte, e sugeriu em face da misericórdia que lhe foi exibida que o deixassem se refugiar numa pequena cidade que estava ali perto.
A cidade foi chamada de Zoar, que no hebraico significa pequeno.
Os anjos declararam que poupariam, pois aquela pequena cidade, e que nada poderiam fazer em relação à destruição de Sodoma e Gomorra enquanto Ló não alcançasse aquela cidade.
Isto mostra que os anjos obedecem estritamente às ordens de Deus.
A ordem era que Ló fosse preservado e ele teria que ser preservado, ainda que não se devesse retardar a hora determinada para a execução do juízo.
Estas duas realidades teriam que seguir as ordens de Deus: a preservação de Ló e a destruição das duas cidades.
Era fim de madrugada, e quando o sol trouxe o alvorecer, Ló chegou em Zoar, e então o Senhor fez chover enxofre e fogo sobre Sodoma e Gomorra.
Os anjos são espíritos ministradores enviados para serviço, a favor dos que hão de herdar a salvação (Hb 1.14).
Devemos ser gratos a Deus pelos muitos livramentos de que somos alvo por parte do ministério dos anjos que servem ao Senhor para o benefício daqueles que são Seus filhos.
Mas vimos como exemplificado no caso de Ló, que nestes livramentos são beneficiados nossos cônjuges e filhos, ainda que não sejam do Senhor, também em muitos livramentos temporais, embora não possam ser livrados da condenação e morte eterna, porque isto é somente por meio da graça mediante a fé em Cristo.
A misericórdia do Senhor para com o próprio Ló foi muito grande, porque exibiu grande paciência para com ele.
Note que ele havia recusado a instrução recebida dos anjos de se refugiar no monte, e sugeriu que o deixassem habitar em Zoar, pois alegou que se sentiria inseguro no monte.
Entretanto, lemos em Gên 19.20 que ele e suas filhas se sentiram inseguros em Zoar e decidiram ir para o monte.
Ló era um homem justo mas não muito dado a fazer as escolhas acertadas, pois em vez de buscar e se sujeitar à direção de Deus, procurava agir de acordo com aquilo que lhe parecia mais favorável, conforme lhe indicava a própria razão.
Muitas vezes, as direções recebidas do Senhor parecerão contrariar a lógica da razão, mas é melhor ser dirigido por elas, do que por aquilo que nos parecer ser o mais adequado, segundo a nossa própria avaliação.   
Gên 19.30-38 relata a origem de dois povos, os moabitas e amonitas, que eram descendentes de Ló, e gerados de suas duas filhas, que usaram um estratagema para engravidarem do próprio pai.
Elas lhe deram a beber vinho em duas noites consecutivas, e se deitaram respectivamente com ele, sem que viesse a perceber que se deitara com as próprias filhas.   



Gênesis 20

“1 Partiu Abraão dali para a terra do Negebe, e habitou entre Cades e Sur; e peregrinou em Gerar.
2 E havendo Abraão dito de Sara, sua mulher: É minha irmã; enviou Abimeleque, rei de Gerar, e tomou a Sara.
3 Deus, porém, veio a Abimeleque, em sonhos, de noite, e disse-lhe: Eis que estás para morrer por causa da mulher que tomaste; porque ela tem marido.
4 Ora, Abimeleque ainda não se havia chegado a ela: perguntou, pois: Senhor matarás porventura também uma nação justa?
5 Não me disse ele mesmo: É minha irmã? e ela mesma me disse: Ele é meu irmão; na sinceridade do meu coração e na inocência das minhas mãos fiz isto.
6 Ao que Deus lhe respondeu em sonhos: Bem sei eu que na sinceridade do teu coração fizeste isto; e também eu te tenho impedido de pecar contra mim; por isso não te permiti tocá-la;
7 agora, pois, restitui a mulher a seu marido, porque ele é profeta, e intercederá por ti, e viverás; se, porém, não lha restituíres, sabe que certamente morrerás, tu e tudo o que é teu.
8 Levantou-se Abimeleque de manhã cedo e, chamando a todos os seus servos, falou-lhes aos ouvidos todas estas palavras; e os homens temeram muito.
9 Então chamou Abimeleque a Abraão e lhe perguntou: Que é que nos fizeste? e em que pequei contra ti, para trazeres sobre mim o sobre o meu reino tamanho pecado? Tu me fizeste o que não se deve fazer.
10 Perguntou mais Abimeleque a Abraão: Com que intenção fizeste isto?
11 Respondeu Abraão: Porque pensei: Certamente não há temor de Deus neste lugar; matar-me-ão por causa da minha mulher.
12 Além disso ela é realmente minha irmã, filha de meu pai, ainda que não de minha mãe; e veio a ser minha mulher.
13 Quando Deus me fez sair errante da casa de meu pai, eu lhe disse a ela: Esta é a graça que me farás: em todo lugar aonde formos, dize de mim: Ele é meu irmão.
14 Então tomou Abimeleque ovelhas e bois, e servos e servas, e os deu a Abraão; e lhe restituiu Sara, sua mulher;
15 e disse-lhe Abimeleque: Eis que a minha terra está diante de ti; habita onde bem te parecer.
16 E a Sara disse: Eis que tenho dado a teu irmão mil moedas de prata; isso te seja por véu dos olhos a todos os que estão contigo; e perante todos estás reabilitada.
17 Orou Abraão a Deus, e Deus sarou Abimeleque, e a sua mulher e as suas servas; de maneira que tiveram filhos;
18 porque o Senhor havia fechado totalmente todas as madres da casa de Abimeleque, por causa de Sara, mulher de Abraão.”

Vimos no capítulo 18 que Abraão estava habitando em Manre quando Sodoma e Gomorra foram destruídas.
Agora, é dito que ele partiu dali em direção ao Neguebe e habitou entre Cades e Sur, tendo feito uma peregrinação à terra dos filisteus em Gerar.
Como que para marcar que a promessa da Nova Aliança; o livramento de Ló da destruição de Sodoma e Gomorra e também todas as bênçãos que o Senhor trouxe a Abraão não foram resultantes da própria justiça e mérito do patriarca, mas em razão da pura e exclusiva graça e misericórdia de Deus, este capítulo registra mais um dos momentos de temor e fraqueza de Abraão, agora com o rei dos filisteus, que tinha o título de Abimeleque, assim como faraó era o nome usado para designar os reis do Egito.  
Foi necessário que o Senhor interviesse mais uma vez, como havia feito antes no Egito, para evitar que Sara fosse abusada pelo rei de Gerar.
Sendo que ao contrário do que havia feito com faraó, sobre cuja gente havia trazido pragas, deu a este a oportunidade de evitar Seus juízos, por tê-lo advertido através de um sonho, que caso tocasse em Sara, Ele o mataria bem como tudo o que lhe pertencia.
Entretanto, até que ele devolvesse Sara a Abraão, o Senhor impediu que as mulheres de Gerar engravidassem, inclusive a do próprio Abimeleque, e Abraão deveria orar em favor dele, para que Deus devolvesse a fecundidade às mulheres de Gerar.
Isto nos ensina clara e diretamente o poder que o Senhor tem para intervir produzindo esterilidade ou fertilidade em situações excepcionais, conforme a Sua soberana vontade.
É notável o fato de ter escolhido a Sara, mulher de Abraão, a Rebeca, mulher de Isaque, filho de Abraão, e a Raquel, mulher de Jacó, neto de Abraão, para participarem do Seu propósito de fazer a descendência de Abraão incontável como as estrelas do céu.
Ele mesmo as tornou fecundas, de modo sobrenatural para que pudessem conceber filhos.
Com isto não somente manifestou o Seu poder extraordinário, como a verdade de que para realizar os Seus propósitos não necessita da capacitação natural dos homens, pois pode fazer abundar neles os seus dons, e torná-los, suficientes e capacitados para toda boa obra.   
O fato de ter dado Deus sonhos a pessoas que não eram do seu povo, como aqui no caso a Abimeleque, e como viria a dar a faraó no Egito nos dias de José, a Nabucodonosor nos dias de Daniel, prova que os dons extraordinários do Espírito Santo, como sonhos, visões, profecias e todos os demais dons sobrenaturais relacionados na segunda epístola aos Coríntios, não estão ligados à natureza humana e por isso podem ser distribuídos, inclusive a incrédulos, e por isso o amor é o caminho sobremodo excelente, porque  o fruto do Espírito, que é amor, longanimidade, paz, bondade, benignidade, bem como todas as demais graças que constituem o amor de Deus, este sim é ligado à natureza humana e jamais passará
É por isso que um verdadeiro mestre do evangelho não é conhecido pelos seus dons, mas pelo seu fruto. É pelo fruto que se conhece a árvore. 
Além do sonho que dera a Abimeleque, Deus afirma expressamente que foi Ele quem lhe havia impedido de pecar, possuindo Sara, quando Abimeleque argumentou com Ele no sonho que lhe dera dizendo que havia agido em sinceridade e que estava inocente naquela situação uma vez que foi o próprio Abraão que lhe havia enganado dizendo que Sara era sua irmã.
Mas o Senhor lhe deu a resposta que conhecia a sua sinceridade no caso, mas o fato de não ter cometido o pecado, não foi por mérito de Abimeleque, mas pelo fato dEle próprio ter intervindo lhe impedindo de consumar o ato pecaminoso.
Disto depreendemos, que muitos males são impedidos de serem praticados na terra, pela intervenção direta de Deus.
Muito maiores seriam os casos de violência, de impureza e de toda sorte de pecados caso o Senhor não agisse operando toda sorte de livramentos.
Os pecados que são praticados não têm jamais o Seu consentimento ou autorização expressa, mas certamente só podem acontecer por Sua permissão, sem a qual o homem nada pode fazer.







Gênesis 21

“1 O Senhor visitou a Sara, como tinha dito, e lhe fez como havia prometido.
2 Sara concebeu, e deu a Abraão um filho na sua velhice, ao tempo determinado, de que Deus lhe falara;
3 e, Abraão pôs no filho que lhe nascera, que Sara lhe dera, o nome de Isaque.
4 E Abraão circuncidou a seu filho Isaque, quando tinha oito dias, conforme Deus lhe ordenara.
5 Ora, Abraão tinha cem anos, quando lhe nasceu Isaque, seu filho.
6 Pelo que disse Sara: Deus preparou riso para mim; todo aquele que o ouvir, se rirá comigo.
7 E acrescentou: Quem diria a Abraão que Sara havia de amamentar filhos? no entanto lhe dei um filho na sua velhice.
8 cresceu o menino, e foi desmamado; e Abraão fez um grande banquete no dia em que Isaque foi desmamado.
9 Ora, Sara viu brincando o filho de Agar a egípcia, que esta dera à luz a Abraão.
10 Pelo que disse a Abraão: Deita fora esta serva e o seu filho; porque o filho desta serva não será herdeiro com meu filho, com Isaque.
11 Pareceu isto bem duro aos olhos de Abraão, por causa de seu filho.
12 Deus, porém, disse a Abraão: Não pareça isso duro aos teus olhos por causa do moço e por causa da tua serva; em tudo o que Sara te diz, ouve a sua voz; porque em Isaque será chamada a tua descendência.
13 Mas também do filho desta serva farei uma nação, porquanto ele é da tua linhagem.
14 Então se levantou Abraão de manhã cedo e, tomando pão e um odre de água, os deu a Agar, pondo-os sobre o ombro dela; também lhe deu o menino e despediu-a; e ela partiu e foi andando errante pelo deserto de Beer-Seba.
15 E consumida a água do odre, Agar deitou o menino debaixo de um dos arbustos,
16 e foi assentar-se em frente dele, a boa distância, como a de um tiro de arco; porque dizia: Que não veja eu morrer o menino. Assim sentada em frente dele, levantou a sua voz e chorou.
17 Mas Deus ouviu a voz do menino; e o anjo de Deus, bradando a Agar desde o céu, disse-lhe: Que tens, Agar? não temas, porque Deus ouviu a voz do menino desde o lugar onde está.
18 Ergue-te, levanta o menino e toma-o pela mão, porque dele farei uma grande nação.
19 E abriu-lhe Deus os olhos, e ela viu um poço; e foi encher de água o odre e deu de beber ao menino.
20 Deus estava com o menino, que cresceu e, morando no deserto, tornou-se flecheiro.
21 Ele habitou no deserto de Parã; e sua mãe tomou-lhe uma mulher da terra do Egito.
22 Naquele mesmo tempo Abimeleque, com Ficol, o chefe do seu exército, falou a Abraão, dizendo: Deus é contigo em tudo o que fazes;
23 agora pois, jura-me aqui por Deus que não te haverás falsamente comigo, nem com meu filho, nem com o filho do meu filho; mas segundo a beneficência que te fiz, me farás a mim, e à terra onde peregrinaste.
24 Respondeu Abraão: Eu jurarei.
25 Abraão, porém, repreendeu a Abimeleque, por causa de um poço de água, que os servos de Abimeleque haviam tomado à força.
26 Respondeu-lhe Abimeleque: Não sei quem fez isso; nem tu mo fizeste saber, nem tampouco ouvi eu falar nisso, senão hoje.
27 Tomou, pois, Abraão ovelhas e bois, e os deu a Abimeleque; assim fizeram entre, si um pacto.
28 Pôs Abraão, porém, à parte sete cordeiras do rebanho.
29 E perguntou Abimeleque a Abraão: Que significam estas sete cordeiras que puseste à parte?
30 Respondeu Abraão: Estas sete cordeiras receberás da minha mão para que me sirvam de testemunho de que eu cavei este poço.
31 Pelo que chamou aquele lugar Beer-Seba, porque ali os dois juraram.
32 Assim fizeram uma pacto em Beer-Seba. Depois se levantaram Abimeleque e Ficol, o chefe do seu exército, e tornaram para a terra dos filisteus.
33 Abraão plantou uma tamargueira em Beer-Seba, e invocou ali o nome do Senhor, o Deus eterno.
34 E peregrinou Abraão na terra dos filisteus muitos dias.”
 
A expressão de alegria de Sara em que revela que ficou inteiramente maravilhada com o fato de Deus ter-lhe dado um filho em sua velhice (21.1-7) é a mesma que acontece com todo verdadeiro cristão quando se converte, pois fica alegre e maravilhado com o fato de Deus ter-nos dado o Seu filho, a nós, imerecedores pecadores, que merecíamos senão a morte eterna.
Ele cumpriu o que prometeu aos profetas, dando-nos na plenitude do tempo, Aquele que é toda a nossa esperança e alegria. A providência divina deve ser de fato reconhecida e louvada.  
O próprio Abraão, em reconhecimento e gratidão a Deus pela bênção do cumprimento da promessa que lhe havia feito, deu um grande banquete para comemorar o dia em que Isaque foi desmamado, e isto despertou um ciúme juvenil em Ismael que começou a caçoar de Isaque.
Isto ensejou que na ira de Sara contra Hagar e Ismael, ela pronunciasse as palavras proféticas de que o filho da escrava não seria herdeiro juntamente com seu filho (Gên 21.10; Gál 4.29,30).
Apesar disto ter doído ao coração de pai, de Abraão, Deus confirmou as palavras de Sara, e ordenou-lhe que atendesse a Sara em tudo o que ela lhe dissesse porque de fato a sua descendência seria chamada em Isaque (21.12; Rom 9.7), isto é, a descendência que lhe fora prometida por Deus, que habitaria em Canaã, e na qual seriam abençoadas todas as famílias da terra.  
Tendo Abraão despedido a Hagar e a Ismael, dando-lhes provisões para a jornada, esta não foi suficiente porque ela tomou o caminho do deserto de Berseba, e a água que levava acabou, e extenuados, ficou aguardando pela morte do filho.
Mas Deus ouviu a voz de Ismael e lhes enviou um anjo para encorajá-los com a promessa de que uma grande nação seria formada a partir de Ismael, e o Senhor abriu os olhos de Hagar para que visse um poço de água, e Ismael cresceu e habitou no deserto, tendo se tornado um flecheiro, e se casou com uma mulher egípcia.
Nesse tempo, Abraão entrava em aliança com Abimeleque, pois permaneceu residindo na terra dos filisteus (20.15), e armou suas tendas no lugar que ficou sendo conhecido como Berseba, e que ficava na extremidade sul da Palaestina, tanto que se tornou comum em Israel a expressão de Dã a Berseba, indicando toda a extensão territorial da nação no sentido norte-sul. 
Abimeleque havia reconhecido que a promessa de Deus de engrandecer o nome de Abraão, e de torná-lo o pai de numerosas nações, teria cabal cumprimento, pois ele testemunhara o milagre da concepção e nascimento de Isaque, estando Abraão e Sara, já bastante avançados em idade para gerarem um filho. Daí ter ele dito:
“Deus é contigo em tudo o que fazes”, ao se referir a Abraão (v. 22).
Temendo por um possível conflito futuro com a descendência de Abraão, que ele sabia que seria certamente abençoada e multiplicada por Deus, ele se antecipa de modo previdente levando Abraão a jurar que se lembraria de todo o bem que lhe havia feito, e que usaria também com ele e com a sua descendência, da mesma bondade (21.23).  
  Esta aliança seria vantajosa para ambos os lados, e particularmente para o crescimento de Isaque em paz e segurança.
Há aqui uma importante lição para todos os filhos de Deus.
No que depender deles devem ter paz com todos os homens.
Eles devem ser pacificadores sem serem cúmplices dos pecados dos que são do mundo.
A aliança de paz que devem fazer não deve de modo nenhum comprometer o seu testemunho.
Ao contrário, ela deve ser baseada no reconhecimento deste testemunho, como foi o caso de Abimeleque em relação a Abraão.
Valores não podem ser negociados, especialmente os valores eternos e absolutos de Deus.
Abraão e Abimeleque fizeram uma aliança de estadistas.
Cada qual tendo em vista preservar os interesses presentes e futuros de sua gente.
Por isso, antes de confirmar a aliança, Abraão lhe apresentou a questão de um poço que lhe havia sido tomado à força pelos servos de Abimeleque (v. 25).
Se vai ser firmada uma aliança ela deve ser firmada no respeito mútuo.
Senão o que teremos não será uma aliança, mas uma farsa.
Isto tudo nos remete à aliança que temos com Deus através de Jesus Cristo.
Se não respeitamos os Seus termos e mais do que isto a Sua própria pessoa divina, como podemos afirmar que estamos sendo fiéis à aliança que Ele tem feito conosco?    
Assim como Abraão confirmou a sua aliança com Abimeleque lhe apresentando voluntariamente sete cordeiras, em sinal de sua amizade, e de que havia cavado o poço que lhe haviam tomado à força, de igual modo devem os crentes oferecer o seu melhor, no serviço de Deus, como prova de gratidão em face da Sua bondade e da aliança que firmou conosco por meio de Cristo.  
 O fato de que Abraão habitou por algum tempo na terra dos filisteus, conforme se diz em Gên 21.34, se comprova em que ele plantou tamargueiras em Berseba.
Ora, ninguém planta árvores sem esperar desfrutar de seus frutos ou sombra.
E elas levam algum tempo para atingir o seu completo desenvolvimento. 
A promessa começou a ser cumprida em parte, e isto comprovava que seria cumprida plenamente, e Abraão foi fortalecido em sua fé, e chamou a Deus de El-Holam, isto é, o Deus eterno.
Ele contempla a promessa se estendendo pela eternidade, e isto porque o Deus a quem servia é eterno.
O fato de Cristo já ter vindo na plenitude do tempo, e da igreja estar presente no mundo em toda a história da humanidade, manifesta a continuidade do cumprimento da promessa feita por Deus, e do Seu total cumprimento, por ocasião do retorno de Jesus, e quando forem criados novos céus e nova terra onde a justiça habita para sempre.



Gênesis 22

“1 Sucedeu, depois destas coisas, que Deus provou a Abraão, dizendo-lhe: Abraão! E este respondeu: Eis-me aqui.
2 Prosseguiu Deus: Toma agora teu filho; o teu único filho, Isaque, a quem amas; vai à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre um dos montes que te hei de mostrar.
3 Levantou-se, pois, Abraão de manhã cedo, albardou o seu jumento, e tomou consigo dois de seus moços e Isaque, seu filho; e, tendo cortado lenha para o holocausto, partiu para ir ao lugar que Deus lhe dissera.
4 Ao terceiro dia levantou Abraão os olhos, e viu o lugar de longe.
5 E disse Abraão a seus moços: Ficai-vos aqui com o jumento, e eu e o mancebo iremos até lá; depois de adorarmos, voltaremos a vós.
6 Tomou, pois, Abraão a lenha do holocausto e a pôs sobre Isaque, seu filho; tomou também na mão o fogo e o cutelo, e foram caminhando juntos.
7 Então disse Isaque a Abraão, seu pai: Meu pai! Respondeu Abraão: Eis-me aqui, meu filho! Perguntou-lhe Isaque: Eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?
8 Respondeu Abraão: Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto, meu filho. E os dois iam caminhando juntos.
9 Havendo eles chegado ao lugar que Deus lhe dissera, edificou Abraão ali o altar e pôs a lenha em ordem; o amarrou, a Isaque, seu filho, e o deitou sobre o altar em cima da lenha.
10 E, estendendo a mão, pegou no cutelo para imolar a seu filho.
11 Mas o anjo do Senhor lhe bradou desde o céu, e disse: Abraão, Abraão! Ele respondeu: Eis-me aqui.
12 Então disse o anjo: Não estendas a mão sobre o mancebo, e não lhe faças nada; porquanto agora sei que temes a Deus, visto que não me negaste teu filho, o teu único filho.
13 Nisso levantou Abraão os olhos e olhou, e eis atrás de si um carneiro embaraçado pelos chifres no mato; e foi Abraão, tomou o carneiro e o ofereceu em holocausto em lugar de seu filho.
14 Pelo que chamou Abraão àquele lugar Jeová-Jiré; donde se diz até o dia de hoje: No monte do Senhor se proverá.
15 Então o anjo do Senhor bradou a Abraão pela segunda vez desde o céu,
16 e disse: Por mim mesmo jurei, diz o Senhor, porquanto fizeste isto, e não me negaste teu filho, o teu único filho,
17 que deveras te abençoarei, e grandemente multiplicarei a tua descendência, como as estrelas do céu e como a areia que está na praia do mar; e a tua descendência possuirá a porta dos seus inimigos;
18 e em tua descendência serão benditas todas as nações da terra; porquanto obedeceste à minha voz.
19 Então voltou Abraão aos seus moços e, levantando-se, foram juntos a Beer-Seba; e Abraão habitou em Beer-Seba.
20 Depois destas coisas anunciaram a Abraão, dizendo: Eis que também Milca tem dado à luz filhos a Naor, teu irmão:
21 Uz o seu primogênito, e Buz seu irmão, e Quemuel, pai de Arão,
22 e Quesede, Hazo, Pildas, Jidlafe e Betuel.
23 E Betuel gerou a Rebeca. Esses oito deu à luz Milca a Naor, irmão de Abraão.
24 E a sua concubina, que se chamava Reumá, também deu à luz a Teba, Gaão, Taás e Maacá.”

Nós vimos como a fé de Abraão foi sendo aumentada por Deus no decorrer dos anos, desde que o havia chamado para deixar a sua terra e a sua parentela, especialmente pelo tempo de espera para o nascimento de Isaque.
Ele testemunhou a proteção de Deus livrando-o dos egípcios e dos filisteus, o Seu braço forte dando-lhe vitória sobre aqueles cinco reis, a sua oração sendo ouvida para o livramento de Ló da destruição de Sodoma, e também a eficácia da sua intercessão em favor da fertilidade das mulheres da casa de Abimeleque dentre tantas outras demonstrações da fidelidade do Senhor para com ele.
Agora, Abraão estava pronto para a grande prova de sua vida, que lemos neste capítulo de Gênesis.
Amaria Abraão mais a seu filho Isaque do que amava a Deus? A prova a que o Senhor lhe submeteu o demonstraria.
Na verdade, não é coisa incomum, que o Senhor nos prove no nosso amor por Ele, de modo a que estejamos convictos de que o nosso amor deve ser maior por Ele acima de todas as coisas e pessoas, sejam bens materiais, sejam familiares, pessoas amigas e tudo o mais que possa ganhar o nosso afeto.
O Senhor tem se provido de filhos dentre os pecadores para ser amado por eles com toda a sua força, toda a sua alma, coração e entendimento.
Por isso é este o grande e primeiro mandamento da lei. Afinal Deus criou o homem para este principal propósito. Ele, em Sua sabedoria há de criar as condições em que venhamos, a saber, se temos este tipo de amor que é esperado de nós.
A prova não é para que Ele saiba, pois conhece perfeitamente todas as coisas, mas para o nosso próprio conhecimento, para nossa inteira alegria ou para que avancemos na fé aumentando cada vez mais o nosso amor por Ele, de modo prático e verdadeiro, e não apenas de palavras ou sentimentos.
Este amor é, sobretudo obediência à Sua vontade, em toda e qualquer circunstância, mesmo quando, isto implicar em contrariar aqueles que nos são queridos.
É particularmente isto, que aprendemos no exemplo de Abraão em relação a Isaque, neste capítulo. 
   Por isso Jesus define o amor a Ele como obediência aos seus mandamentos.
Ele diz que quem o ama de fato é aquele que tem os seus mandamentos e os guarda.
Isto é amor prático e não de meras palavras.
É fazer aquilo que nos tem ordenado, porque é isto que O honra e que demonstra se o amamos de fato ou não. 
A prova de fé de Abraão foi duríssima, e por ela se revelou toda a profundidade do seu amor por Deus, e o quanto a sua fé havia sido fortalecida, porque lhe foi exigido que oferecesse a seu próprio filho como holocausto, isto é, como sacrifício.
Ele não somente deveria ser cortado em várias partes sobre o altar, como deveria ser inteiramente queimado com fogo.
Isto foi uma prova difícil; primeiro para se crer nela, que o Deus que não aprova sacrifícios humanos, estivesse pedindo tal sacrifício.
Mas Abraão creu que era Deus mesmo quem lhe estava pedindo tal coisa, pois se dispôs a Lhe obedecer sem contestar a ordem, ou mesmo tentar argumentar quanto à procedência do que estava sendo ordenado.
Em segundo lugar, mais do que difícil era uma prova horrível, porque não há nenhum pai que ame de fato a seu filho, que se disponha a tirar-lhe a vida, ainda que isto lhe tenha sido ordenado por Deus.       

Esta foi a única vez que Deus fez este tipo de                           prova. Na verdade Ele proibiu expressamente na lei de Moisés, que fossem feitos sacrifícios humanos conforme a prática perversa dos cananeus.
Nós cremos que com isto, Ele quis nos levar  considerar o quanto lhe doeu e custou o sacrifício voluntário do Seu Filho Amado, nosso Senhor Jesus Cristo, levando-nos a fazer a devida apreciação e a dar o devido valor ao sacrifício de Jesus.
Um sacrifício humano seria necessário para perdoar a dívida de pecados da humanidade.
Mas tal sacrifício não poderia ser aceito por Deus, em se tratando de sacrifício de pecadores.
Assim, Isaque ou qualquer outro, não devem ser sacrificados, porque para Deus, o sacrifício de um pecador, que tencione morrer no lugar dos pecadores, não terá qualquer valor, porque o sangue de um pecador não pode fazer expiação nem pelo seu próprio  pecado, quanto mais pelos de toda a humanidade.
Somente o sacrifício de Jesus, sendo perfeito homem, perfeito Deus, e sendo completamente santo, poderia ser aceito.
Assim, o pedido do sacrifício de Isaque não passaria de uma simples prova da obediência da fé, e do amor de Abraão.
E, para o efeito de prova, não passaria de um pedido, pois não se consumaria de modo nenhum, em razão dos motivos que apresentamos anteriormente.
Mas isto não foi revelado a Abraão, para que a prova da fé pudesse ser realizada.
Ele considerou seriamente o pedido que lhe foi feito.
Por mais que aquilo tudo lhe tenha feito sofrer, ele não considerou os seus sentimentos e o julgamento que todos fariam dele a partir do momento que soubessem que ele próprio havia assassinado o seu filho.
A sua reputação e honra seriam grandemente prejudicados, especialmente aos olhos dos ímpios que não reconheceriam certamente naquele gesto um ato de obediência a Deus, mas uma pura barbárie.
Apesar de tudo isto Abraão se dispôs a obedecer, e a sua fé o levou mais longe ainda, porque como se diz em Hebreus 11,17-19, ele creu que o Senhor ressuscitaria Isaque dentre os mortos, mesmo depois de havê-lo matado e terem as chamas consumido inteiramente seu corpo, pois, afinal, Deus fez a promessa que a sua descendência seria chamada em Isaque, e como seria Deus verdadeiro estando Isaque morto antes mesmo de casar e gerar filhos?
Somente pelo milagre da ressurreição de Isaque poderia Deus continuar sendo verdadeiro, e por isso Abraão cria que Deus o ressuscitaria caso viesse a ser oferecido como holocausto, porque ele havia aprendido o suficiente do Deus que o havia chamado, que Ele não pode mentir e que é fiel em cumprir todas as Suas promessas. 
A Palavra destaca que Abraão passou pela prova de modo que ficou evidenciado o seu temor a Deus (22.12) e a sua obediência à voz do Senhor (22.18).
A sua fé foi provada e aprovada de modo que era digno da honra de que as nações da terra fossem abençoadas na sua descendência, com aquele mesmo tipo de fé viva que havia sido revelada por Abraão, na prova a que fora submetido (22.16-18).
Cabe destacar que ele caminhou de sua casa ao local designado por Deus durante três dias, para poder avistar o lugar de longe.
O seu coração devia estar esmagado pelo peso do sofrimento naqueles dias que devem ter lhe parecido toda uma eternidade.     
É digno de nota o fato de que um carneiro que já se encontrava num dos montes da terra de Moriá, local que fora designado por Deus a Abraão para oferecer Isaque como holocausto (22.2), foi apresentado por ele no lugar de seu filho (22.13,14).
Abraão reconheceu que aquele carneiro havia sido colocado ali à sua disposição pela provisão de Deus, como ele havia dito a Isaque enquanto caminhava para o local que Deus proveria para si o cordeiro para o holocausto.
Aquele carneiro era sem dúvida um tipo do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo e que seria dado em sacrifício pela provisão de Deus em favor dos pecadores, naquele mesmo monte que designara a Abraão, e no qual viria a ser construído o futuro templo de Jerusalém, como único local onde deveriam ser oferecidos os sacrifícios de animais a Deus, como tipo do único sacrifício que pode remover o pecado, o de Jesus.             
Assim, a tristeza da caminhada em razão do nosso próprio pecado, é transformada pela boa nova de grande alegria, de que o nosso sacrifício, a nossa morte eterna, já não são mais necessários, porque Deus nos tem provido de um Redentor, de um Cordeiro, que levou sobre Si os nossos pecados, e por causa disso, em vez de morte, temos a promessa de vida, e vida em abundância, a vida eterna, que começamos a experimentar já aqui neste mundo, quando somos livrados da morte, por causa do sacrifício de Jesus.  
Assim, Isaque viveria eternamente por causa do Cordeiro que morreu no seu lugar, mas ele também viveria na terra para dar cumprimento à promessa de Deus relativa a ele.
Assim, deveria amadurecer e se casar, e é por isso que temos a breve nota de Gên 22.20-24 que relata que chegou a Abraão a notícia que seu irmão Naor havia tido filhos com Milca em Pada-Harâ, na Mesopotâmia, e ali se destaca especialmente o nome de Rebeca, filha de Betuel, e irmã de Labão.
Esta nota introdutória tem em vista fixar que foi em razão disto ter chegado ao conhecimento de Abraão, que ele enviaria o seu servo àquela terra para encontrar uma esposa para Isaque, e esta seria Rebeca, como veremos adiante. 



Gênesis 23

“1 Ora, os anos da vida de Sara foram cento e vinte e sete.
2 E morreu Sara em Quiriate-Arba, que é Hebrom, na terra de Canaã; e veio Abraão lamentá-la e chorar por ela:
3 Depois se levantou Abraão de diante do seu morto, e falou aos filhos de Hete, dizendo:
4 Estrangeiro e peregrino sou eu entre vós; dai-me o direito de um lugar de sepultura entre vós, para que eu sepulte o meu morto, removendo-o de diante da minha face.
5 Responderam-lhe os filhos de Hete:
6 Ouve-nos, senhor; príncipe de Deus és tu entre nós; enterra o teu morto na mais escolhida de nossas sepulturas; nenhum de nós te vedará a sua sepultura, para enterrares o teu morto.
7 Então se levantou Abraão e, inclinando-se diante do povo da terra, diante dos filhos de Hete,
8 falou-lhes, dizendo: Se é de vossa vontade que eu sepulte o meu morto de diante de minha face, ouvi-me e intercedei por mim junto a Efrom, filho de Zoar,
9 para que ele me dê a cova de Macpela, que possui no fim do seu campo; que ma dê pelo devido preço em posse de sepulcro no meio de vós.
10 Ora, Efrom estava sentado no meio dos filhos de Hete; e respondeu Efrom, o heteu, a Abraão, aos ouvidos dos filhos de Hete, isto é, de todos os que entravam pela porta da sua cidade, dizendo:
11 Não, meu senhor; ouve-me. O campo te dou, também te dou a cova que nele está; na presença dos filhos do meu povo te dou; sepulta o teu morto.
12 Então Abraão se inclinou diante do povo da terra,
13 e falou a Efrom, aos ouvidos do povo da terra, dizendo: Se te agrada, peço-te que me ouças. Darei o preço do campo; toma-o de mim, e sepultarei ali o meu morto.
14 Respondeu Efrom a Abraão:
15 Meu senhor, ouve-me. Um terreno do valor de quatrocentos siclos de prata! que é isto entre mim e ti? Sepulta, pois, o teu morto.
16 E Abraão ouviu a Efrom, e pesou-lhe a prata de que este tinha falado aos ouvidos dos filhos de Hete, quatrocentos siclos de prata, moeda corrente entre os mercadores.
17 Assim o campo de Efrom, que estava em Macpela, em frente de Manre, o campo e a cova que nele estava, e todo o arvoredo que havia nele, por todos os seus limites ao redor, se confirmaram
18 a Abraão em possessão na presença dos filhos de Hete, isto é, de todos os que entravam pela porta da sua cidade.
19 Depois sepultou Abraão a Sara sua mulher na cova do campo de Macpela, em frente de Manre, que é Hebrom, na terra de Canaã.
20 Assim o campo e a cova que nele estava foram confirmados a Abraão pelos filhos de Hete em possessão de sepultura.”

O principal propósito deste capítulo é o de registrar a morte de Sara.
Sendo estéril, ela foi escolhida por Deus para ser a mãe daquele do qual descenderia o Cristo no futuro.
Ela teve essa honra por causa do seu temor a Deus e por ter sido mais do que uma verdadeira esposa para Abraão, ela foi uma grande serva de Deus, que auxiliaria Abraão a ensinar Isaque a andar nos caminhos do Senhor.
Esta é afinal a melhor e a maior missão de uma esposa e mãe cristã: a de edificar a sua casa segundo a Palavra de Deus.
Ela morreu em honra aos cento e vinte e sete anos, e teve a honra de terem sido detalhadas por Deus as circunstâncias em que o seu corpo foi sepultado por Abraão.
Ela honrara ao Senhor em vida, e agora estava sendo honrada por Ele na morte, tanto quanto o fora em vida.
Ela fora peregrina por anos na terra de Canaã, e foi lá que ela foi sepultada, no campo de Efrom, em Macpela, fronteiriço a Manre, que foi um lugar onde ela havia se fixado com seu marido no início de suas jornadas, e para onde retornaram depois de terem ido ao Egito, quando houve fome na terra de Canaã.
 Ela morreu em Hebrom, e Abraão lamentou e chorou a sua morte (Gên 23.2). Isto demonstra o seu sincero afeto pela fiel companheira de tantos anos que o havia honrado e amado.
O relato da forma como Abraão procedeu junto aos heteus para adquirir deles o lugar para sepultar Sara, revela muito do caráter daquele grande homem, porque destaca a sua decência e humildade.
Ele é reconhecido por eles como sendo príncipe de Deus entre eles (23.6), e Efrom, o dono do campo chamando a Abraão de meu senhor, se dispôs a dar-lhe o campo.
O que fez Abraão? Exaltou-se acima deles? Não.
A Palavra diz que ele se inclinou diante do povo da terra, em sinal de humildade, e com extrema habilidade declinou da proposta de receber gratuitamente o campo e disse a Efrom que ele faria uma oferta como o preço a ser pago pelo terreno.
Efrom, com a habilidade de um experiente comerciante disse o que eram quatrocentos siclos de prata entre ele e Abraão?
Como a dizer, que mantinha a oferta gratuita, mas citando qual era o valor do campo como algo que não era para ser considerado, Abraão entendeu que era aquele o preço que ele gostaria que fosse pago.
Assim Abraão adquiriu a posse legal daquela área aos filhos de Hete.
A morte de Sara deu ensejo a que ele adquirisse aquele terreno em Canaã que seria herdado por sua descendência, e ele próprio quando veio a falecer, foi sepultado naquele mesmo lugar, ao lado de Sara.             
 

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  1. Corrigindo. Gn 4.24 porque sete vezes Caim será vingado; mais Lameque, setenta vezes sete. "Não setenta e sete vezes"

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