quinta-feira, 10 de outubro de 2013

JUÍZES - cap 19 a 21

 JUÍZES 19

“1 Aconteceu também naqueles dias, quando não havia rei em Israel, que certo levita, habitante das partes remotas da região montanhosa de Efraim, tomou para si uma concubina, de Belém de Judá.
2 Ora, a sua concubina adulterou contra ele e, deixando-o, foi para casa de seu pai em Belém de Judá, e ali ficou uns quatro meses.
3 Seu marido, levantando-se, foi atrás dela para lhe falar bondosamente, a fim de tornar a trazê-la; e levava consigo o seu moço e um par de jumentos. Ela o levou à casa de seu pai, o qual, vendo-o, saiu alegremente a encontrar-se com ele.
4 E seu sogro, o pai da moça, o deteve consigo três dias; assim comeram e beberam, e se alojaram ali.
5 Ao quarto dia madrugaram, e ele se levantou para partir. Então o pai da moça disse a seu genro: Fortalece-te com um bocado de pão, e depois partireis:
6 Sentando-se, pois, ambos juntos, comeram e beberam; e disse o pai da moça ao homem: Peço-te que fiques ainda esta noite aqui, e alegre-se o teu coração.
7 O homem, porém, levantou-se para partir; mas, como seu sogro insistisse, tornou a passar a noite ali.
8 Também ao quinto dia madrugaram para partir; e disse o pai da moça: Ora, conforta o teu coração, e detém-te até o declinar do dia. E ambos juntos comeram.
9 Então o homem se levantou para partir, ele, a sua concubina, e o seu moço; e disse-lhe seu sogro, o pai da moça: Eis que já o dia declina para a tarde; peço-te que aqui passes a noite. O dia já vai acabando; passa aqui a noite, e alegre-se o teu coração: Amanhã de madrugada levanta-te para encetares viagem, e irás para a tua tenda.
10 Entretanto, o homem não quis passar a noite ali, mas, levantando-se, partiu e chegou à altura de Jebus (que é Jerusalém), e com ele o par de jumentos albardados, como também a sua concubina.
11 Quando estavam perto de Jebus, já o dia tinha declinado muito; e disse o moço a seu senhor: Vem, peço-te, retiremo-nos a esta cidade dos jebuseus, e passemos nela a noite.
12 Respondeu-lhe, porém, o seu senhor: Não nos retiraremos a nenhuma cidade estrangeira, que não seja dos filhos de Israel, mas passaremos até Gibeá.
13 Disse mais a seu moço: Vem, cheguemos a um destes lugares, Gibeá ou Ramá, e passemos ali a noite.
14 Passaram, pois, continuando o seu caminho; e o sol se pôs quando estavam perto de Gibeá, que pertence a Benjamim.
15 Pelo que se dirigiram para lá, a fim de passarem ali a noite; e o levita, entrando, sentou-se na praça da cidade, porque não houve quem os recolhesse em casa para ali passarem a noite.
16 Eis que ao anoitecer vinha do seu trabalho no campo um ancião; era ele da região montanhosa de Efraim, mas habitava em Gibeá; os homens deste lugar, porém, eram benjamitas.
17 Levantando ele os olhos, viu na praça da cidade o viajante, e perguntou-lhe: Para onde vais, e donde vens?
18 Respondeu-lhe ele: Estamos de viagem de Belém de Judá para as partes remotas da região montanhosa de Efraim, donde sou. Fui a Belém de Judá, porém agora vou à casa do Senhor; e ninguém há que me recolha em casa.
19 Todavia temos palha e forragem para os nossos jumentos; também há pão e vinho para mim, para a tua serva, e para o moço que vem com os teus servos; de coisa nenhuma há falta.
20 Disse-lhe o ancião: Paz seja contigo; tudo quanto te faltar fique ao meu cargo; tão-somente não passes a noite na praça.
21 Assim o fez entrar em sua casa, e deu ração aos jumentos; e, depois de lavarem os pés, comeram e beberam.
22 Enquanto eles alegravam o seu coração, eis que os homens daquela cidade, filhos de Belial, cercaram a casa, bateram à porta, e disseram ao ancião, dono da casa: Traze cá para fora o homem que entrou em tua casa, para que o conheçamos.
23 O dono da casa saiu a ter com eles, e disse-lhes: Não, irmãos meus, não façais semelhante mal; já que este homem entrou em minha casa, não façais essa loucura.
24 Aqui estão a minha filha virgem e a concubina do homem; fá-las-ei sair; humilhai-as a elas, e fazei delas o que parecer bem aos vossos olhos; porém a este homem não façais tal loucura.
25 Mas esses homens não o quiseram ouvir; então aquele homem pegou da sua concubina, e lha tirou para fora. Eles a conheceram e abusaram dela a noite toda até pela manhã; e ao subir da alva deixaram-na:
26 Ao romper do dia veio a mulher e caiu à porta da casa do homem, onde estava seu senhor, e ficou ali até que se fez claro.
27 Levantando-se pela manhã seu senhor, abriu as portas da casa, e ia sair para seguir o seu caminho; e eis que a mulher, sua concubina, jazia à porta da casa, com as mãos sobre o limiar.
28 Ele lhe disse: Levanta-te, e vamo-nos; porém ela não respondeu. Então a pôs sobre o jumento e, partindo dali, foi para o seu lugar.
29 Quando chegou em casa, tomou um cutelo e, pegando na sua concubina, a dividiu, membro por membro, em doze pedaços, que ele enviou por todo o território de Israel.
30 E sucedeu que cada um que via aquilo dizia: Nunca tal coisa se fez, nem se viu, desde o dia em que os filhos de Israel subiram da terra do Egito até o dia de hoje; ponderai isto, consultai, e dai o vosso parecer.” (Jz 19.1-30).

A narrativa deste capítulo e a dos dois seguintes, que estão relacionados a ele pertencem também a um período anterior ao dos Juízes, como se infere do primeiro versículo, que afirma que “aconteceu também naqueles dias, quando não havia rei em Israel”, isto é, quando não havia um governo central sobre todas as tribos, e quando cada uma delas tinha autonomia política nos seus respectivos territórios
Finéias, neto de Arão, era o sumo-sacerdote nos dias do evento aqui narrado (20.28), e daí podemos entender porque houve uma ação em resposta ao desatino cometido pela tribo de Benjamim e especificamente pelos cidadãos de Gibeá, que era uma das cidades desta tribo, porquanto apesar de não haver um governo central com autoridade formal sobre todas as tribos, Finéias, na condição de sumo-sacerdote, honrava o seu ofício, estando cheio do zelo de Deus, conforme aprendera de seu avô, Arão, e seu pai, Eleazar.   
Um levita de Efraim tinha como concubina uma mulher de Belém de Judá, mas, tendo esta adulterado, retornou à casa de seu pai em Belém.
Passados quatro meses, o levita resolveu buscá-la, por lhe ter perdoado o pecado de adultério.
Embora coubesse à parte culpada fazer o primeiro movimento em direção à reconciliação, assim como cabe aos pecadores fazê-lo em relação a Deus quando se reconciliam com Ele, através da conversão, que procede de um sincero arrependimento, este levita estava cheio de bondade, perdão e graça, e tomou a iniciativa que não caberia a ele, e sim à mulher.   
O esforço do pai da moça em reter o levita por três dias em sua casa, insistindo com ele continuamente para que ficasse, é uma forma de se revelar pelo relato bíblico, que o caráter daquele levita era realmente um caráter aprovado, e era por causa deste caráter uma pessoa benigna e agradável.
E não podia consentir em ficar em Belém de Judá porque o tabernáculo do Senhor se encontrava em Siló, em Efraim, e ele intentava retornar para lá para retomar o seu ofício.
Entre o agradável, o confortável e o dever para com Deus, ele havia aprendido a estabelecer a prioridade correta, e por isso não consentiu em permanecer em Belém, apesar dos insistentes pedidos do seu sogro.
Tendo partido, ele se recusou a se hospedar na cidade de Jebus, porque apesar de se encontrar dentro dos limites dos territórios de Israel, ainda se encontrava na posse dos jebuseus, que não haviam sido expulsos pelos benjamitas.
Então ele se dirigiu para Gibeá, onde não encontrando hospedagem, ficou na praça da cidade, onde, por bondade hospitaleira de um cidadão de Efraim, que habitava em Gibeá, foi convidado a passar a noite em sua casa.
Para atender ao mandado de Deus de não se misturarem os israelitas com os habitantes de Canaã, aquele homem e sua mulher acabariam por achar o mal entre os seus próprios irmãos, porque apesar de Gibeá ser uma cidade da tribo de Benjamim, que era uma das tribos de Israel, os seus habitantes não temiam ao Senhor, como o levita da nossa história. 
  Tal como os habitantes de Sodoma, que intentavam abusar dos anjos que Ló havia hospedado em sua casa, julgando que fossem meros homens, os ímpios daquela cidade que são designados por homens de Belial, também se dirigiram para a casa daquela ancião de Efraim, que residia em Gibeá, com o intuito de abusarem do levita que estava hospedado em sua casa.  
Estes homens de Belial, apesar de fazerem parte do povo de Israel, haviam se transformado em filhos do diabo, e viviam para lhe atender aos desígnios, e como sabiam que aquele levita se dirigia à casa do Senhor em Siló, intentaram abusando dele, por inspiração do diabo, trazer na verdade não somente e propriamente desonra contra ele, mas contra o ofício sagrado do qual ele estava investido por Deus.
Era mais um ataque às coisas do Senhor, como sempre faz o diabo, do que propriamente a um simples homem.
Eles queriam atacar o que ele representava, e tem sido sempre assim ao longo da história na luta que há entre os filhos da serpente e a descendência da mulher, entre os filhos do diabo e os filhos de Deus.
Aparentemente, foi o diabo que triunfou na situação, porque a mulher daquele levita foi horrivelmente abusada por eles, e veio a falecer, mas isto deu ocasião a uma tal compulsão nas demais tribos de Israel e aversão ao pecado daqueles homens, que a tribo de Benjamim foi quase que dizimada totalmente pelos demais israelitas, tendo assim, o Senhor julgado não apenas o pecado daqueles homens, como também a negligência e complacência de Benjamim, na sua indiferença em concordar que deveriam ser submetidos a juízo.      
Quando o levita esquartejou o corpo de sua mulher morta, e enviou um pedaço do corpo para cada uma das tribos de Israel, isto deu ocasião a uma assembléia em que quatrocentos mil homens foram reunidos para dar o devido tratamento que o caso requeria, e isto nós veremos em detalhes no capítulo a seguir.


JUÍZES 20

“1 Então saíram todos os filhos de Israel, desde Dã até Berseba, e desde a terra de Gileade, e a congregação, como se fora um só homem, se ajuntou diante do Senhor em Mizpá.
2 Os homens principais de todo o povo, de todas as tribos de Israel, apresentaram-se na assembléia do povo de Deus; eram quatrocentos mil homens de infantaria que arrancavam da espada.
3 (Ora, ouviram os filhos de Benjamim que os filhos de Israel haviam subido a Mizpá). E disseram os filhos de Israel: Dizei-nos, de que modo se cometeu essa maldade?
4 Então respondeu o levita, marido da mulher que fora morta, e disse: Cheguei com a minha concubina a Gibeá, que pertence a Benjamim, para ali passar a noite;
5 e os cidadãos de Gibeá se levantaram contra mim, e cercaram e noite a casa em que eu estava; a mim intentaram matar, e violaram a minha concubina, de maneira que morreu.
6 Então peguei na minha concubina, dividi-a em pedaços e os enviei por todo o país da herança de Israel, porquanto cometeram tal abominação e loucura em Israel:
7 Eis aqui estais todos vós, ó filhos de Israel; dai a vossa palavra e conselho neste caso.
8 Então todo o povo se levantou como um só homem, dizendo: Nenhum de nós irá à sua tenda, e nenhum de nós voltará a sua casa.
9 Mas isto é o que faremos a Gibeá: subiremos contra ela por sorte;
10 tomaremos, de todas as tribos de Israel, dez homens de cada cem, cem de cada mil, e mil de cada dez mil, para trazerem mantimento para o povo, a fim de que, vindo ele a Gibeá de Benjamim, lhe faça conforme toda a loucura que ela fez em Israel.
11 Assim se ajuntaram contra essa cidade todos os homens de Israel, unidos como um só homem.
12 Então as tribos de Israel enviaram homens por toda a tribo de Benjamim, para lhe dizerem: Que maldade é essa que se fez entre vós?
13 Entregai-nos, pois, agora aqueles homens, filhos de Belial, que estão em Gibeá, para que os matemos, e extirpemos de Israel este mal. Mas os filhos de Benjamim não quiseram dar ouvidos à voz de seus irmãos, os filhos de Israel;
14 pelo contrário, das suas cidades se ajuntaram em Gibeá, para saírem a pelejar contra os filhos de Israel:
15 Ora, contaram-se naquele dia dos filhos de Benjamim, vindos das suas cidades, vinte e seis mil homens que arrancavam da espada, afora os moradores de Gibeá, de que se contaram setecentos homens escolhidos.
16 Entre todo esse povo havia setecentos homens escolhidos, canhotos, cada um dos quais podia, com a funda, atirar uma pedra a um fio de cabelo, sem errar.
17 Contaram-se também dos homens de Israel, afora os de Benjamim, quatrocentos mil homens que arrancavam da espada, e todos eles homens de guerra.
18 Então, levantando-se os filhos de Israel, subiram a Betel, e consultaram a Deus, perguntando: Quem dentre nós subirá primeiro a pelejar contra Benjamim ? Respondeu o Senhor: Judá subirá primeiro.
19 Levantaram-se, pois, os filhos de Israel pela manhã, e acamparam contra Gibeá.
20 E os homens de Israel saíram a pelejar contra os benjamitas, e ordenaram a batalha contra eles ao pé de Gibeá.
21 Então os filhos de Benjamim saíram de Gibeá, e derrubaram por terra naquele dia vinte e dois mil homens de Israel.
22 Mas esforçou-se o povo, isto é, os homens de Israel, e tornaram a ordenar a batalha no lugar onde no primeiro dia a tinham ordenado.
23 E subiram os filhos de Israel, e choraram perante o Senhor até a tarde, e perguntaram-lhe: Tornaremos a pelejar contra os filhos de Benjamim, nosso irmão? E disse o Senhor: Subi contra eles.
24 Avançaram, pois, os filhos de Israel contra os filhos de Benjamim, no dia seguinte.
25 Também os de Benjamim, nesse mesmo dia, saíram de Gibeá ao seu encontro e derrubaram por terra mais dezoito mil homens, sendo todos estes dos que arrancavam da espada.
26 Então todos os filhos de Israel, o exército todo, subiram e, vindo a Betel, choraram; estiveram ali sentados perante o Senhor, e jejuaram aquele dia até a tarde; e ofereceram holocaustos e ofertas pacíficas perante ao Senhor.
27 Consultaram, pois, os filhos de Israel ao Senhor (porquanto a arca do pacto de Deus estava ali naqueles dias;
28 e Finéias, filho de Eleazar, filho de Arão, lhe assistia), e perguntaram: Tornaremos ainda a sair à pelejar contra os filhos de Benjamim, nosso irmão, ou desistiremos? Respondeu o Senhor: Subi, porque amanhã vo-los entregarei nas mãos.
29 Então Israel pôs emboscadas ao redor de Gibeá.
30 E ao terceiro dia subiram os filhos de Israel contra os filhos de Benjamim e, como das outras vezes, ordenaram a batalha junto a Gibeá.
31 Então os filhos de Benjamim saíram ao encontro do povo, e foram atraídos da cidade. e começaram a ferir o povo como das outras vezes, matando uns trinta homens de Israel, pelas estradas, uma das quais sobe para Betel, e a outra para Gibeá pelo campo.
32 Pelo que disseram os filhos de Benjamim: Vão sendo derrotados diante de nós como dantes. Mas os filhos de Israel disseram: Fujamos, e atraiamo-los da cidade para os caminhos.
33 Então todos os homens de Israel se levantaram do seu lugar, e ordenaram a batalha em Baal-Tamar; e a emboscada de Israel irrompeu do seu lugar, a oeste de Geba.
34 Vieram contra Gibeá dez mil homens escolhidos de todo o Israel, e a batalha tornou-se renhida; porém os de Gibeá não sabiam que o mal lhes sobrevinha.
35 Então o Senhor derrotou a Benjamim diante dos filhos de Israel, que destruíram naquele dia vinte e cinco mil e cem homens de Benjamim, todos estes dos que arrancavam da espada.
36 Assim os filhos de Benjamim viram que estavam derrotados; pois os homens de Israel haviam cedido terreno aos benjamitas, porquanto estavam confiados na emboscada que haviam posto contra Gibeá;
37 e a emboscada, apressando-se, acometeu a Gibeá, e prosseguiu contra ela, ferindo ao fio da espada toda a cidade:
38 Ora, os homens de Israel tinham determinado com a emboscada um sinal, que era fazer levantar da cidade uma grande nuvem de fumaça.
39 Viraram-se, pois, os homens de Israel na peleja; e já Benjamim começara a atacar es homens de Israel, havendo morto uns trinta deles; pelo que diziam: Certamente vão sendo derrotados diante de nós, como na primeira batalha.
40 Mas quando o sinal começou a levantar-se da cidade, numa coluna de fumaça, os benjamitas olharam para trás de si, e eis que toda a cidade subia em fumaça ao céu.
41 Nisso os homens de Israel se viraram contra os de Benjamim, os quais pasmaram, pois viram que o mal lhes sobreviera.
42 Portanto, virando as costas diante dos homens de Israel, fugiram para o caminho do deserto; porém a peleja os apertou; e os que saíam das cidades os destruíam no meio deles.
43 Cercaram os benjamitas e os perseguiram, pisando-os desde Noá até a altura de Gibeá para o nascente do sol.
44 Assim caíram de Benjamim dezoito mil homens, sendo todos estes homens valorosos.
45 Então os restantes, virando as costas fugiram para o deserto, até a penha de Rimom; mas os filhos de Israel colheram deles pelos caminhos ainda cinco mil homens; e, seguindo-os de perto até Gidom, mataram deles mais dois mil.
46 E, todos, os de Benjamim que caíram naquele dia foram vinte e cinco mil homens que arrancavam da espada, todos eles homens valorosos.
47 Mas seiscentos homens viraram as costas e, fugindo para o deserto, para a penha de Rimom, ficaram ali quatro meses.
48 E os homens de Israel voltaram para os filhos de Benjamim, e os passaram ao fio da espada, tanto os homens da cidade como os animais, tudo quanto encontraram; e a todas as cidades que acharam puseram fogo.” (Jz 20.1-48).

Milhares de vidas foram perdidas na guerra das tribos de Israel contra a tribo de Benjamim, tanto de um lado quanto de outro, e isto por causa da morte de uma só pessoa, a concubina do levita que havia sido abusada pelos homens de Belial, de Gibeá.
No entanto o que estava em foco não era a troca de uma única vida por milhares, mas o estabelecimento de um princípio em Israel de que as ações abomináveis dos israelitas não deveriam passar em branco, ainda que para isso fosse necessário declarar a guerra, de modo a que se aprendesse a temer a prática das mesmas abominações que haviam trazido o juízo de Deus sobre as nações de Canaã, e no passado sobre as cidades de Sodoma e Gomorra.  
As tribos se reuniram em conselho em Mizpá, que ficava próxima a Siló, e talvez o motivo da sua escolha se deveu a ser uma cidade maior que Siló, com possibilidade de acolher toda aquela gente.
Depois de terem ouvido o relato feito pelo levita sobre o fato sucedido com sua concubina, eles decidiram se dirigir a Gibeá, tendo pedido à tribo de Benjamim que lhes entregasse nas mãos os homens de Gibeá que haviam praticado aquela maldade para que fossem mortos, mas os benjamitas não somente não consentiram com isto, como se colocaram em ordem de batalha contra os demais israelitas, dirigindo-se de suas cidades para Gibeá, com o intuito de protegê-la e foram enviados vinte e seis mil homens que usavam a espada, que se juntaram a setecentos guerreiros de Gibeá, e havia dentre todos estes homens setecentos especialistas no uso da funda, que arremessavam com  extrema precisão.
 Benjamim havia se endurecido pelo orgulho racial, e muitas vezes em nome da defesa de nossas instituições sacrificamos a honra, a verdade e a  justiça.
Colocamo-nos acima do bem e do mal.
Não aceitamos ser confrontados para que corrijamos o nosso caminhar.
E quão perigoso é isto. Quando em nome da manutenção do nosso status, os homens se conluiam na defesa do erro para não admitirem que estão errados, e assim a causa da verdade e da justiça sofre, e deixamos de ser abençoados por Deus, tal como a tribo de Benjamim, que no seu endurecimento, por conta do seu orgulho obstinado, foi entregue nas mãos de seus irmãos para ser destruída. 
Tentar encobrir as nossas faltas para que mantenhamos a nossa reputação a todo o custo, lançando uma cortina de fumaça sobre os nossos pecados, há de tornar a nossa posição ainda mais grave aos olhos de Deus.
Benjamim não queria admitir o erro dos homens de Gibeá porque afinal eram benjamitas, e o pior de tudo, levantaram-se em sua defesa, quando deveriam castigá-los.
De igual modo, quando qualquer Igreja não tem a humildade e sinceridade de punir os erros graves de seus membros, pelo desejo de não se admitir que não haja falhas em seu meio, de modo a não se expor e ficar sujeita a uma possível crítica tanto por parte dos que são de dentro, quanto dos que são de fora, no final isto não terminará bem, porque a justiça de Deus se levanta contra tal estado de coisas.
Assim como Ele se colocou em ordem de batalha contra o orgulho nacional de Benjamim, de igual modo se colocará em ordem de batalha contra tais Igrejas, se não contemplar nelas um sincero arrependimento e procedimento segundo a reta justiça revelada na Sua Palavra. 
Tal era o orgulho dos benjamitas que eles não aceitaram fazer uma negociação de paz com as demais tribos entregando-lhes os faltosos, ao contrário, eles ousaram guerrear com um exército de 26.700 homens, contra um exército de 400.000 homens, e o fato de terem vencido as primeiras batalhas só serviu para aumentar a fúria das forças que se reuniram contra eles, e para também aumentar a própria cegueira e endurecimento dos benjamitas, de modo que as ações de guerra se estenderiam também à população civil daquela tribo, e ao final restaram somente 600 homens de Benjamim, que se refugiaram no deserto por quatro meses, de onde, pela misericórdia de Deus que alcançou os israelitas, retornariam para constituírem novas famílias com quatrocentas mulheres de uma das cidades de Israel que havia se recusado subir à batalha, Jabes-Gileade (21.12), e como os israelitas haviam feito um voto de não darem aos filhos de Benjamim nenhuma de suas filhas por esposa, sob  pena de anátema,  para todo aquele que o fizesse, eles subiram contra Jabes-Gileade e mataram aos homens daquela cidade, conforme haviam dito que seria feito a todo que não subisse a guerrear contra Benjamim, quando se reuniram em Mispá, e tendo encontrado quatrocentas moças virgens na cidade deram-nas em casamento a 400 dos 600 benjamitas que haviam sobrevivido à guerra.
O modo como os 200 que haviam sobrado foram providos de esposas será visto no comentário do capitulo seguinte.   
 Deve ser destacado que apesar de terem tido a aprovação de Deus para a batalha contra Benjamim, os israelitas devem ter colocado a confiança deles na força do próprio braço.
Havia um juízo de morte determinado sobre os benjamitas, mas isto deveria ser feito com total confiança no braço poderoso e justo do Senhor e não na superioridade numérica do exército de 400.000 homens contra 26.700.
Isto fez com que nas duas primeiras batalhas as forças coligadas de Israel perdessem 40.000 homens, isto é, a décima parte do seu exército.
E eles choraram por este motivo, e consultaram ao Senhor, se ainda deveriam continuar a luta contra Benjamim, porque os fatos estavam sendo contrários a eles.
Deus confirmou a Sua vontade, e diante da humildade demonstrada agora por eles, lhes prometeu entregar a Benjamim nas suas mãos no dia seguinte (v. 28).
E se diz no verso 35 que o Senhor mesmo derrotou Benjamim.
Que isto sirva de exemplo às Igrejas quando crescem e são confirmadas na fé!
Que permaneçam em humildade diante do Senhor para que possam prevalecer na luta contra o Inimigo.
Nunca devemos confiar em nossas estratégias, dons, finanças, edifícios, e número de membros cada vez maior, senão somente no Senhor e na Sua graça para conosco.   
 Os israelitas estavam confiando tão somente na justiça da sua causa mas esta não prevaleceria por si só, e do mesmo modo ocorre conosco, não será pelo fato de estarmos com a razão e o direito do nosso lado que ele prevalecerá por si mesmo, senão pela nossa confiança no Senhor, que defende as nossas causas como nosso Juiz, quando as entregamos em Suas mãos, confiando somente nEle, e em nada mais, porque o diabo pode se levantar e perverter a decisão do Juiz ou do tribunal mais digno que exista sobre a face da terra. Mas confiando no Senhor, as ações do Inimigo serão neutralizadas, seja onde for.  


JUÍZES 21

“1 Ora, os homens de Israel tinham jurado em Mizpá dizendo: Nenhum de nós dará sua filha por mulher aos benjamitas.
2 Veio, pois, o povo a Betel, e ali ficou sentado até a tarde, diante de Deus; e todos, levantando a voz, fizeram grande pranto,
3 e disseram: Ah! Senhor Deus de Israel, por que sucedeu isto, que falte uma tribo em Israel?
4 No dia seguinte o povo levantou-se de manhã cedo, edificou ali um altar e ofereceu holocaustos e ofertas pacíficas.
5 E disseram os filhos de Israel: Quem dentre todas as tribos de Israel não subiu à assembléia diante do Senhor? Porque se tinha feito um juramento solene acerca daquele que não subisse ao Senhor em Mizpá, dizendo: Certamente será morto.
6 E os filhos de Israel tiveram pena de Benjamim, seu irmão, e disseram: Hoje é cortada de Israel uma tribo.
7 Como havemos de conseguir mulheres para os que restam deles, desde que juramos pelo Senhor que nenhuma de nossas filhas lhes daríamos por mulher?
8 Então disseram: Quem é que dentre as tribos de Israel não subiu ao Senhor em Mizpá? E eis que ninguém de Jabes-Gileade viera ao arraial, à assembléia.
9 Porquanto, ao contar-se o povo, nenhum dos habitantes de Jabes-Gileade estava ali.
10 Pelo que a congregação enviou para lá doze mil homens dos mais valorosos e lhes ordenou, dizendo: Ide, e passai ao fio da espada os habitantes de Jabes-Gileade, juntamente com as mulheres e os pequeninos.
11 Mas isto é o que haveis de fazer: A todo homem e a toda mulher que tiver conhecido homem, totalmente destruireis.
12 E acharam entre os moradores de Jabes-Gileade quatrocentas moças virgens, que não tinham conhecido homem, e as trouxeram ao arraial em Siló, que está na terra de Canaã.
13 Toda a congregação enviou mensageiros aos filhos de Benjamim, que estavam na penha de Rimom, e lhes proclamou a paz.
14 Então voltaram os benjamitas, e os de Israel lhes deram as mulheres que haviam guardado com vida, das mulheres de Jabes-Gileade; porém estas ainda não lhes bastaram.
15 E o povo teve pena de Benjamim, porquanto o Senhor tinha aberto uma brecha nas tribos de Israel.
16 Disseram, pois os anciãos da congregação: Como havemos de conseguir mulheres para os que restam, pois que foram destruídas as mulheres de Benjamim?
17 Disseram mais: Deve haver uma herança para os que restam de Benjamim, para que uma tribo não seja apagada de Israel.
18 Contudo nós não lhes poderemos dar mulheres dentre nossas filhas. Pois os filhos de Israel tinham jurado, dizendo: Maldito aquele que der mulher aos benjamitas.
19 Disseram então: Eis que de ano em ano se realiza a festa do Senhor em Siló que está ao norte de Betel, a leste do caminho que sobe de Betel a Siquém, e ao sul de Lebona.
20 Ordenaram, pois, aos filhos de Benjamim, dizendo: Ide, ponde-vos de emboscada nas vinhas,
21 e vigiai; ao saírem as filhas de Siló a dançar nos coros, saí vós das vinhas, arrebatai cada um sua mulher, das filhas de Siló, e ide-vos para a terra de Benjamim.
22 Então quando seus pais e seus irmãos vierem queixar-se a nós, nós lhes diremos: Dignai-vos de no-las conceder; pois nesta guerra não tomamos mulheres para cada um deles, nem vós lhas destes; de outro modo seríeis agora culpados.
23 Assim fizeram os filhos de Benjamim; e conforme o seu número tomaram para si mulheres, arrebatando-as dentre as que dançavam; e, retirando-se, voltaram à sua herança, reedificaram as cidades e habitaram nelas.
24 Nesse mesmo tempo os filhos de Israel partiram dali, cada um para a sua tribo e para a sua família; assim voltaram cada um para a sua herança.
25 Naqueles dias não havia rei em Israel; cada um fazia o que parecia bem aos seus olhos.” (Jz 21.1-25).

Como já citamos no comentário do capítulo anterior, foi sob pena de anátema que os israelitas afirmaram que não dariam nenhuma de suas filhas por esposas aos benjamitas. Mas se isto não fosse feito eles teriam que casar com mulheres estrangeiras contrariando o mandamento de Deus, ou então, em não casando, aquela tribo acabaria sendo extinta com o passar do tempo.
Então foi necessário buscar uma solução para se conseguir esposas para aqueles seiscentos homens de Benjamim que haviam restado de todos os habitantes daquela tribo.
 O zelo excessivo dos israelitas na execução da justiça fez com que houvesse um exagero nas suas ações, que eles tentariam agora pelo menos reparar.
Isto nos ensina que até mesmo toda justiça que for necessária deve ser executada com compaixão e equilíbrio, de modo que não venhamos a nos lamentar depois das conseqüências das nossas ações corretivas e punitivas. 
Não é bom ser parcial no juízo, nem complacente e fraco, mas também não convém que sejamos duros, inflexíveis e irrazoáveis.
Sempre devemos buscar um equilíbrio entre justiça e misericórdia para que o juízo seja o mais sábio possível.
Deixar de castigar o erro não é bom, mas é pior ainda castigar além da medida necessária, porque esta não trará bons resultados ao castigo aplicado.  
Assim, depois de tudo o que fizeram, os israelitas se reuniram em Betel, onde se encontrava a arca de Deus naqueles dias, e se mostraram arrependidos de terem ido longe demais, ao quase exterminarem toda a tribo de Benjamim, conforme lemos nos versos 2 e 3: “Veio, pois, o povo a Betel, e ali ficou sentado até a tarde, diante de Deus; e todos, levantando a voz, fizeram grande pranto,  e disseram: Ah! Senhor Deus de Israel, por que sucedeu isto, que falte uma tribo em Israel?”.
Benjamim era especialmente querido a Jacó, porque era seu caçula, e o filho que tivera com Raquel, sendo irmão de José.
Quando nasceu sua mãe veio a falecer no parto, e antes disso queria lhe dar o nome de Benoni, que significa filho da minha tristeza, mas Jacó mudou-lhe o nome para Benjamim que significa filho do meu braço direito.
E a perda total daquela tribo seria uma causa de grande tristeza na memória de todo israelita dali para a frente, e uma causa de grande lamento entre eles.
Por isso eles se compadeceram daqueles 600 homens de Benjamim, que haviam fugido para o deserto, e manifestaram o seu perdão em relação a eles.
A perda de crentes na Igreja, por motivo de pecado que leve à sua exclusão, deve por isso ser seguida de um profundo perdão e conforto deles quando se mostram arrependidos, porque afinal é uma parte do corpo do Senhor que permanece mutilada enquanto se encontram afastados, e assim deve ser causa de grande alegria a sua reconciliação (II Cor 2.7).       
Nos versos 16 a 25 deste capitulo é descrito o modo pelo qual os duzentos benjamitas restantes daqueles 600, seriam providos de esposas.
Isto seria feito provavelmente na festa anual dos tabernáculos (v. 19), porque era somente nesta festa que era permitido que as virgens israelitas dançassem, nem tanto para a sua própria diversão, senão para expressarem a sua alegria santa, como exigido pela lei, que todo Israel se alegrasse nos dias daquela festa perante o Senhor.  
Como haviam jurado que não dariam de suas filhas aos benjamitas, disseram àqueles duzentos que as tomassem então quando estivessem dançando na festa em Siló, e as levassem para sua terra, e que lá contraíssem matrimônio com elas.

Assim aquela tribo foi restaurada, e nós temos Eúde, o segundo juiz de Israel, que proveio daquela tribo (Jz 3.15), revelando-se assim que pelo sofrimento, haviam abandonado o caminho da maldade para andarem pelas veredas da justiça.   

10 comentários:

  1. Deus te abençoe, os comentários aqui apresentados foram de grande valia para o estudo do livro de juízes que estou realizando. Muito obrigado.

    Gostei muito do seguinte trecho:
    "Sempre devemos buscar um equilíbrio entre justiça e misericórdia para que o juízo seja o mais sábio possível.
    Deixar de castigar o erro não é bom, mas é pior ainda castigar além da medida necessária, porque esta não trará bons resultados ao castigo aplicado. "

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  2. Otimo texto! que Deus continue te abençoando com tais Obras que podemos ver que foram Feitas Pelo espírito santo , Amós eu tbm gostei Muito desse trecho

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  3. Bom obrigada pelo estudo entendi melhor esse texto.
    Contudo, o homem apesar de depois tentar fazer justiça pelo ato que foste praticado com sua mulher, não pensaste nela só em si.
    Pois, se amasse verdadeiramente deixaria ser abusada assim?
    Claro que não! Se quisesse lutar por ela e guarda-lá buscaria o temor do Senhor Deus para os livrar, assim como Deus livrou Ló e suas filhas (Gn 19:4-11).

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  4. Eu sou Evangélico . Creio Que Deus é amor,mas fico meio confuso quando leio ordem da das para extermínio de inocentes, e ainda no texto poupam 400 Viragens para interesse próprio .Mas o Senhor é Fiel .Amém.

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  5. muito bom o seu texto. Ele me ajudou muito no estudo do final do livro de juizes. Deus continue te usando

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  6. É, só não entendi a suposta inocência do Levita no texto acima, visto que, não obstante o comentarista ter mencionado que o levita estava preocupado em voltar a servir em Efrain, ficou ainda mais 4 dias na casa do sogro (Gostou da boa vida). Já em Gibeá, ofereceu a propria mulher para morrer no seu lugar (Vivesse seculos a frente e teria sabido de Paulo que o marido é quem deve dar a sua vida pela esposa). Enfim, um covarde! E pra piorar, esquartejou a mulher. Vilipêndio de cadáver! Ao inves de dar um enterro digno à mulher que ele mesmo foi atrás buscar, resolveu esquartejá-la, Movido por vingança, talvez, por ter sido traído por ela? Machismo? Resultado: guerra civil interna que provocou o extermínio da tribo de Benjamim. Nao bastaria a morte apenas dos homens que violentaram a mulher?

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    1. Conclusão: É bem a situação de muitos levitas/sacerdotes atuais: Amparados debaixo do guarda/chuva da tal unção irrevogável, qualquer ato ilícito que cometem não pode ter o crivo do julgamento. São inimputáveis! Pode-se comer e beber à vontade; desprezar a família (mulher); esquartejar em nome do ego ferido e ainda ser taxado de vítima!

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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