O discurso de Zofar, constante do 20º capítulo de
Jó, em relação aos ímpios é verdadeiro em muitos aspectos. Onde está pois o
erro em suas palavras?
Não propriamente no conteúdo, mas na aplicação delas
e no espírito com que foram pronunciadas.
Primeiro destaquemos que sem qualquer misericórdia
pelos ímpios, pelos quais deveria interceder para que não morressem em sua
impiedade.
Em segundo lugar, no que se refere à aplicação, por
tê-las dirigido à pessoa de Jó, porque ficou muito indignado com a advertência
que ele acabara de lhes fazer, para que tivessem cuidado em julgá-lo.
Para demonstrar que não deveriam ter cuidado algum,
falou por si e pelos seus dois amigos, com estas palavras ameaçadoras e
acusadoras, como que se elas fossem aplicáveis a Jó.
Nós podemos ver como ele não aceitou a repreensão e
advertência de Jó, pelo que disse nos versos 2 e 3:
“2 Ora, os meus pensamentos me fazem responder, e
por isso eu me apresso.
3 Estou ouvindo a tua repreensão, que me envergonha,
mas o espírito do meu entendimento responde por mim.”
Ele não disse que estava envergonhado por causa do
reconhecimento da maldade que estava fazendo com Jó, mas envergonhado por ter
recebido dele uma tal repreensão, porque estavam certos de que não poderia ser
outra a razão para a aflição de Jó, senão o fato de ter abrigado a iniquidade
no seu coração, e em não ter-se disposto em buscar se arrepender diante de
Deus.
Não interessava a Zofar, nem a Bildade ou a Elifaz,
a necessidade de um Redentor que se levantasse no futuro sobre a terra, porque
eles eram os redentores de si mesmos, cheios com a sua justiça própria.
Eles tinham
certas noções sobre o que seria a vontade de Deus, e procuravam cumpri-las à
risca, e somente isto, segundo eles, lhes bastava para serem justificados e
livrados de qualquer condenação futura.
Milhões de pessoas neste mundo pensaram e continuam
pensando exatamente do mesmo modo que eles, confiando em suas práticas
religiosas legalistas que receberam por tradição para serem guardadas.
Confiam cegamente que é por se guardar tais
tradições que são justificados por Deus.
Com este discurso Zofar comprovou que eles não
tinham de fato qualquer compaixão pela condição em que Jó se encontrava. E não
seria por se disporem por atenderem ao pedido que lhes fizera que tivessem
misericórdia dele que poderiam atendê-lo, porque não se é misericordioso porque
se quer, mas por ter aprendido a sê-lo.
A escola da misericórdia demanda sobretudo que se
lance fora os livros do egoísmo.
Requer que não estejamos em busca da própria honra,
mas da de Deus, pela busca dos interesses de outros, acima dos nossos próprios
interesses.
É somente quando se descobre que somos membros uns
dos outros, que nos disporemos a socorrê-los e para lhes trazer alívio em suas
aflições, tal como fazem os membros do corpo em relação a algum órgão que se
encontra enfermo.
Mas como socorrerei meus irmãos em suas
necessidades, se não os vejo como partes do mesmo corpo ao qual pertenço, a
saber, o de Cristo? Se não os vejo como membros de meus membros, que interesse
real poderei ter em ajudá-los?
Este era o problema com os três amigos de Jó. Eram
amigos, mas não na verdadeira acepção da palavra. Antes foram seus
exatores.
Pensavam que demonstravam amor sincero por Deus odiando
os ímpios.
E no grande ódio deles pelos ímpios colocaram até
mesmo o próprio Jó, que era homem justo, que igual a ele não havia na terra,
conforme declaração do próprio Deus, na mesma vala comum dos ímpios.
Deus não tem prazer na morte do ímpio. Os amigos de
Jó estavam enganados em relação a isto.
Antes deseja que todos se salvem e cheguem ao
conhecimento da verdade.
Ele se reconciliou com toda a humanidade através de
Jesus Cristo, e agora ordena a todos em toda a parte, que deixem a impiedade e
que se disponham também a se reconciliarem com Ele, porque já se dispôs de uma
vez para sempre a se reconciliar com todos que busquem tal reconciliação, de
maneira que não impedirá a quem quer que seja, em fazê-lo.
Todavia, como os três amigos de Jó pensavam que Deus
não confia em ninguém, nem mesmo nos anjos do céu, como poderiam aceitar esta
doutrina da reconciliação, e de que tenha dado um Redentor para os pecadores,
para livrá-los da condenação eterna?
Se Deus não confia no homem, muito menos eles então
confiariam em quem quer que seja, até mesmo no justo Jó. E com uma tal teologia
errada, a quem poderemos ajudar de fato? Por acaso, a quem demonstremos rancor
e desconfiança?
Alguém se disporia a firmar laços de amizade com um
desconfiado de carteira assinada, que não confia nem na sua própria sombra? Em
quem mais confiaria? E a base de uma verdadeira amizade é a confiança mútua.
Uma vez que a confiança se vai, a amizade também vai junto.
Quem se entregará ao amor, se viver sempre a se
prevenir de uma possível traição futura?
Na verdade, os amigos de Jó não somente desconfiavam
que ele não fosse digno, por causa do que estava sofrendo, como também estavam
convictos disto. E quando se julga alguém desta forma, vai-se embora toda e
qualquer possibilidade de bom entendimento.
Jó não era culpado de coisa alguma. Mas eles o
declararam culpado sem qualquer prova evidente contra ele. Imagine se
houvesse uma tal prova!
Se eles não estavam se dispondo a crer nele e a
ajudá-lo sem qualquer prova contra ele, de quão maior indisposição não seriam
tomados se vissem nele qualquer culpa.
É assim que agem os fariseus em sua hipocrisia.
Sempre prontos a condenarem a outros, enquanto se consideram justos a seus
próprios olhos.
Não foi sem razão que Jesus advertiu os apóstolos
para se guardarem deste espírito farisaico.
“1 Então respondeu Zofar, o naamatita:
2 Ora, os meus pensamentos me fazem responder, e por
isso eu me apresso.
3 Estou ouvindo a tua repreensão, que me envergonha,
mas o espírito do meu entendimento responde por mim.
4 Não sabes tu que desde a antiguidade, desde que o
homem foi posto sobre a terra,
5 o triunfo dos iníquos é breve, e a alegria dos
ímpios é apenas dum momento?
6 Ainda que a sua exaltação suba até o céu, e a sua
cabeça chegue até as nuvens,
7 contudo, como o seu próprio esterco, perecerá para
sempre; e os que o viam perguntarão: Onde está?
8 Dissipar-se-á como um sonho, e não será achado;
será afugentado qual uma visão da noite.
9 Os olhos que o viam não o verão mais, nem o seu
lugar o contemplará mais.
10 Os seus filhos procurarão o favor dos pobres, e
as suas mãos restituirão os seus lucros ilícitos.
11 Os seus ossos estão cheios do vigor da sua
juventude, mas este se deitará com ele no pó.
12 Ainda que o mal lhe seja doce na boca, ainda que
ele o esconda debaixo da sua língua,
13 ainda que não o queira largar, antes o retenha na
sua boca,
14 contudo a sua comida se transforma nas suas
entranhas; dentro dele se torna em fel de áspides.
15 Engoliu riquezas, mas vomitá-las-á; do ventre dele
Deus as lançará.
16 Veneno de áspides sorverá, língua de víbora o
matará.
17 Não verá as correntes, os rios e os ribeiros de
mel e de manteiga.
18 O que adquiriu pelo trabalho, isso restituirá, e
não o engolirá; não se regozijará conforme a fazenda que ajuntou.
19 Pois que oprimiu e desamparou os pobres, e roubou
a casa que não edificou.
20 Porquanto não houve limite à sua cobiça, nada
salvará daquilo em que se deleita.
21 Nada escapou à sua voracidade; pelo que a sua
prosperidade não perdurará.
22 Na plenitude da sua abastança, estará angustiado;
toda a força da miséria virá sobre ele.
23 Mesmo estando ele a encher o seu estômago, Deus
mandará sobre ele o ardor da sua ira, que fará chover sobre ele quando for
comer.
24 Ainda que fuja das armas de ferro, o arco de
bronze o atravessará.
25 Ele arranca do seu corpo a flecha, que sai
resplandecente do seu fel; terrores vêm sobre ele.
26 Todas as trevas são reservadas para os seus
tesouros; um fogo não assoprado o consumirá, e devorará o que ficar na sua tenda.
27 Os céus revelarão a sua iniquidade, e contra ele
a terra se levantará.
28 As rendas de sua casa ir-se-ão; no dia da ira de
Deus todas se derramarão.
29 Esta, da parte de Deus, é a porção do ímpio; esta
é a herança que Deus lhe reserva.” (Jó 20)
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